Insegurança alimentar na América Latina aumenta. Para combatê-la, Brasil pode aprender com sua própria história

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Ontem (18/1), as Nações Unidas divulgaram a atualização do Panorama da Segurança Alimentar e Nutricional, com dados preocupantes para a América Latina e o Caribe. O relatório aponta que alimentar-se de forma saudável na região é mais caro do que na média mundial – US$ 3,89 por pessoa por dia, para uma média global de US$ 3,54. O documento também mostra que, entre 2019 e 2021, a região registrou um aumento de 13,2 milhões de pessoas com fome – chegando a 56,5 milhões – sendo 11 milhões na América do Sul, e um aumento de mais de 10 pontos percentuais no contingente de pessoas sofrendo de insegurança alimentar moderada ou grave, chegando a 40,6% da população latino-americana. Nesse período de três anos, o aumento da fome entre a população foi de 28% na região, contra 23% em nível mundial.  População rural, mulheres, indígenas e afrodescendentes são os mais afetados.

Os casos mais graves de subalimentação se encontram no Haiti, Venezuela e Nicarágua. Mas mesmo o Brasil, que não faz parte do grupo mais alarmante, observa uma piora significativa desses índices no período 2019-2021 quando comparado à média 2013-15. Estudo divulgado no ano passado pela Rede Penssan, repercutido na coluna Em Foco (leia aqui), apontou que, em 2021, 33,1 milhões de brasileiros passaram fome, e mais da metade da população (58,7%) vivia com algum grau de insegurança alimentar.

Prevalência da Subalimentação na América Latina e o Caribe, por país


Fonte: FAO 2022.

A inflação dos preços internacionais de alimentos provocada pelo choque da pandemia de Covid-19 foi destacada no relatório como principal elemento dessa piora, e que o conflito na Ucrânia, tende a estender esse impacto para os resultados de 2022. No Brasil, como ressaltou ao Blog  André Braz, coordenador de Índice de Preços do FGV IBRE, em 2022 a inflação da alimentação no domicílio fechou em 13,23%, mais que o dobro do IPCA, impactando especialmente as famílias mais pobres, para quem alimentos representam quase 25% da cesta de consumo (saiba mais).

Na coletiva de imprensa de lançamento do relatório, os especialistas ressaltaram que mitigar esse quadro depende de uma ação multidimensional que, entre outros, inclui a valorização da agricultura familiar – com apoio informativo, acesso a crédito e tecnologias –, fomento a cadeias de fornecimento mais curtas, e políticas voltadas à educação alimentar, colaborando para o combate à desnutrição e a obesidade, especialmente de crianças. E, claro, combater o aumento da pobreza, intrinsicamente relacionado à segurança alimentar. “É preciso investir em todos os degraus da cadeia de valor, e para isso a vontade política é mais importante que nunca”, afirmou Rosana Polastri, diretora regional do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida) das Nações Unidas para América Latina e o Caribe. “Vivemos uma policrise mundial (múltiplas crises) – pandemia, guerra, crise climática, migratória – e essa exposição tende a ampliar o risco a maiores taxas de fome e desnutrição. Precisamos de políticas públicas que de fato mitiguem esse risco”, afirmou Lola Castro, diretora regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA) da ONU. Em sua análise, ela destacou especialmente o avanço na região de políticas de transferência focadas na merenda escolar, que contemplam 85 milhões de crianças. “É chave que alinhemos estratégias e mecanismos de resposta em nível regional, disseminando experiências que criem novos canais de mercado e garantam uma dieta saudável à população”, afirmou. 

Inflação geral de alimentos (%), 2021-22


Fonte: FAO 2022.

No caso do Brasil, como apontou Tereza Campello, ex-ministra do Desenvolvimento Social, em discussões sobre segurança alimentar promovidas pela Fiocruz no ano passado (link para seminário), o Brasil já serviu de farol regional para o combate à fome e a segurança alimentar,. Essa recomendação foi registrada em relatório da FAO de 2014 (leia aqui). “Tínhamos conquistado um aumento da segurança alimentar de mais de 10 pontos percentuais em menos de uma década, para 77,1% da população, e a FAO reconheceu no Brasil exemplos de políticas que poderiam ser referência no combate à fome e a pobreza”, diz.  Em resumo, o relatório destacava a característica multidimensional desse avanço, que incluiu um aumento do emprego formal e da renda, a melhora da qualidade da alimentação escolar - “em uma ação casada com a valorização de agricultores familiares, fornecedores do programa de alimentação escolar (PNAE) - lembrando que na população rural, paradoxalmente, se registam altos graus de insegurança alimentar e severa”, diz -, e a preocupação com a governança e participação da sociedade no processo de formação das políticas. “Também é preciso destacar a importância desse olhar transversal proporcionado pela qualidade do Cadastro Único, com informações detalhadas das famílias mais pobres que colaboraram para um diagnóstico e acompanhamento de suas necessidades”, afirma Tereza – relevância que também foi destacada pelo economista Ricardo Paes de Barros, que inclui a valorização da assistência social local através das equipes dos centros de referência (CRAS) (leia mais).

Para Tereza, esses logros reconhecidos pela FAO no passado recente devem ser revisitados pelo país na formulação de suas políticas de combate à fome. “Podemos aprender com nossa própria história”, afirma, lembrando que o caminho para combate à fome e à pobreza em geral é longo, mas retroceder nele pode levar o tempo de um piscar de olhos.

Insegurança alimentar no Brasil


Fonte: IBGE PNAD, IGBE POF, Rede Penssan.

 


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