Este ano, inflação terá composição diferente da registrada em 2022. E isso pode ajudar os mais pobres
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Esta semana, o IBGE divulgou que a inflação de 2022 fechou em 5,79%, depois de avançar 0,62% em dezembro, acima das estimativas do mercado. A surpresa no último mês do ano aconteceu no grupo de higiene e cuidados pessoais. “Apesar de ser considerado um item supérfluo para muitos, os perfumes, de acordo ao IPCA, comprometem quase 1% da renda das famílias (0,09%). E, em dezembro, registraram uma alta de preços de 9%, perto da metade da variação acumulada até dezembro, de 22%”, conta André Braz, coordenador de Índice de Preços do FGV IBRE, indicando que tal impacto, dado sua curiosa característica, facilmente sairia do radar dos analistas, o que promoveu essa diferença em relação às projeções.
IPCA Brasil - variação 12 meses

Alimentação e bebidas foi o grupo de maior peso em 2022
(distribuição em pontos percentuais)

Fonte: IBGE.
No agregado do ano, entretanto, foram os itens de alimentação e bebidas os que mais pesaram no bolso dos brasileiros, representando 2,41 pontos percentuais do IPCA. Cebola, frutas, leite longa vida e pão francês estão entre os itens que mais encareceram, e que mais pesaram na composição do cálculo da inflação. Braz lembra que a inflação de alimentação no domicílio fechou 2022 em 13,23%, mais que o dobro do IPCA, e bem acima da inflação da alimentação fora do domicílio, que marcou alta de 7,47%. “Isso penaliza especialmente as famílias de mais baixa renda”, ressalta, em um ano no qual acendeu-se o alarme para o aumento da fome e da insegurança alimentar no país (leia mais na coluna Desigualdade e crescimento). Entre as famílias mais pobres, os alimentos representam quase 25% da cesta de consumo, na média. “Na medida em que a renda das famílias vai aumentando, o nível de comprometimento com esse tipo de gasto vai se reduzindo, até chegar a uma média de 8% a 9%”, descreve. Ainda que a lista de cortes de impostos promovida em 2023 - sem a qual o IPCA fecharia o ano próximo de 9%, lembra Braz - inclua insumos como o diesel, que afeta toda a cadeia produtiva devido ao peso do transporte rodoviário no país, o economista lembra que o choque mais imediato se deu na gasolina, beneficiando especialmente as famílias de renda mais alta. Para estas, o pesa da inflação chegou por outros canais, como o aumento nas passagens aéreas. Levantamento do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) da inflação por faixa de renda aponta que, em 2022, a inflação da renda mais alta (renda domiciliar acima de R$ 17,26 mil) ter sido a maior do ano - puxada especialmente por alimentos e bebidas, despesas pessoais, saúde e cuidados pessoas e transporte -, com 6,83%, na faixa de renda muito baixa (renda domiciliar menor que R$ 900) esta também fechou acima do IPCA, com 6,35%. De acordo ao Ipea, enquanto a alimentação representou mais da metade da inflação da faixa de mais baixa renda, com 3,42%, entre os mais ricos ela representou 21% do total, sendo de 1,48%.
Inflação da alimentação em 2022 e itens selecionados

Alimentos com maior impacto

Fonte: IBGE.
O segundo item que mais compromete o orçamento das famílias mais pobres são os gastos com habitação, com um peso de cerca de 20%, diz Braz. Nesse item, se por um lado a queda do preço da energia trouxe alívio, por outro observou-se uma recomposição de preços de alugueis, depois de dois anos (2020/21) marcados por renegociações nos reajustes, em função da alta desproporcional do IGP-M, principal indexador de contratos imobiliários. “Em 2022, essa situação mudou. Com uma recuperação do PIB acima do esperado, bem como do mercado de trabalho, já não houve tanta margem para acordos. Os proprietários buscaram compensar renúncias feitas nos anos anteriores”, diz, lembrando que o Índice de Variação dos Aluguéis Residenciais (IVAR) do FGV IBRE alcançou um pico de 11,56% em outubro. O IVAR - calculado com base na evolução mensal dos valores de aluguéis residenciais em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Porto Alegre, visando maior aderência à realidade do mercado - fechou o ano em 8,25%. “Essa redução reflete a desaceleração dos índices de inflação no segundo semestre de 2022, como do IGP-M, negativo por quatro meses, e mesmo o IPCA, que por três meses registrou variação negativa”, diz.
Índice de Variação de Aluguéis Residenciais (IVAR)
variação (%) acumulada em 12 meses - média nacional

Fonte: FGV IBRE.
O economista do IBRE diz que em 2023 a tendência é de que os aluguéis não registrem novos picos. Tampouco a alimentação deverá ter o mesmo destaque, salvo outro choque como o provocado em 2022 pela guerra na Ucrânia, afetando preços de commodities e insumos como fertilizantes. Na estimativa de Braz, a inflação se manterá acima da meta, fechando o ano em 5,3%, mas com uma composição diferente, na qual devem ganhar destaque os preços administrados, especialmente com o fim ou revisão de desonerações, e as políticas no campo fiscal. “Preocupações relacionadas à gestão dos gastos e da evolução da dívida pública podem afetar o câmbio, encarecendo nossas importações e abrindo margem para um desequilíbrio no abastecimento de produtos que o Brasil exporta, o que pode provocar uma nova pressão nos preços de alimentos, diz. Braz reforça que ainda será um ano de cuidado no combate à inflação. Mas que, ainda assim, poderá ser de menor pressão para a camada mais pobre da população.
Não alimentícios, principais altas

Não alimentícios, princiais quedas

Fonte: IBGE.
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