Mundo em desaceleração econômica: Barômetros caem a níveis de 2009; Banco Mundial revisa PIB global para 1,7% em 2023

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Duas divulgações realizadas ontem (10/1) consolidam a perspectiva de desaceleração econômica global em 2023. Os Barômetros Globais – indicadores produzidos pelo FGV em parceria com o Instituto Econômico Suíço KOF, da ETH Zurique – de janeiro recuaram a níveis que, excluindo o pico da crise de Covid-19 – não eram vistos desde 2009, na crise financeira global. Já o Banco Mundial anunciou a revisão de sua projeção para o PIB global de 2023 para 1,7%, contra os 3% anunciados em junho do ano passado, alertando para a possibilidade de a economia global cair em recessão.  Inflação elevada, altas taxas de juros, redução do nível de investimento e disrupções causadas pela guerra na Ucrânia são os principais motivos apontados pelo Banco. “A persistência do processo inflacionário ao redor do mundo nesse início de ano reforça a expectativa que o ciclo de aperto monetário iniciado em 2022 seja ainda mais longo. A desaceleração resultante do nível de atividades é o custo desse processo de desinflação”, reforça Paulo Picchetti, pesquisador do FGV IBRE.

No caso dos Barômetros Globais, a piora foi puxada pela região da Ásia, Pacífico e África, onde a China é a economia de maior peso. As demais regiões registraram variações positivas. O indicador Coincidente – que mede as expectativas quanto à situação atual –, registrou queda de 3,3 pontos, para 76,5 pontos. A contribuição da Ásia, Pacífico e África foi de -3,6 pontos; Europa e Hemisfério Ocidental – onde se destacam os Estados Unidos – registraram uma sensível variação positiva, de 0,2 e 0,1 ponto, respectivamente. Já o indicadorAntecedente, que reflete os ciclos das taxas de crescimento mundial em três a seis meses, perdeu 2,1 pontos e fechou em 79,6 pontos. Neste, as variações foram um pouco maiores, tanto para cima quanto para baixo, com a Ásia retrocedendo 3,8 pontos, e Europa e Hemisfério Ocidental avançando 0,7 e 1 ponto.

Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, ressalta que tanto na Europa quanto nos Estados Unidos os bancos centrais fecharam o ano comunicando a expectativa de recessão suave na virada para 2023, o que colabora a aterrissar o debate econômico este ano. No caso dos EUA, ainda que o discurso de Jerome Powell, presidente do BC americano, na conferência do Banco Central da Suécia (Riksbank) nesta terça-feira (10/1) não tenha sido de novidades, Ribeiro lembra que vários membros do FED têm comunicado que o trabalho a ser feito para combater a inflação ainda não está concluído, ainda que já comecem a surgir sinais de que a política monetária esteja funcionando. “O inverno rigoroso pelo qual passa o país neste início de ano também tende a influenciar nessa conta, colaborando para uma desaceleração da atividade”, diz. No caso da Europa, Ribeiro lembra que o BC fechou 2022 com uma importante mudança de avaliação, antecipando a estimativa de uma recessão “ breve e suave”, para entre o quarto trimestre de 2022 e o primeiro de 2023. “Vale destacar que os dados de atividade da região, tanto do varejo quanto do mercado de trabalho, surpreenderam positivamente em novembro o que pode indicar que esse declínio será mais suave do que está previsto, ou que o trabalho do BCE ainda está longe do fim”, diz.

Barômetros Globais: queda puxada pela China 
Barômetro Coincidente – variações mensais, por região

 

Barômetro Antecedente – variações mensais, por região


Fonte: KOF, ETH Zurich e FGV IBRE.

No caso das perspectivas de desaceleração da atividade na China –  onde a recuperação da demanda doméstica não tem acontecido no ritmo desejado, mesmo com políticas expansionistas operadas pelo governo chinês–  tem sido revisada pelo mercado desde a mudança na política de combate à Covid-19 na China no início de dezembro, mas com resultados divergentes. “Há quem aposte que, passada a primeira alta de contágios provocada pela drástica redução das restrições, se registrará uma explosão de consumo, estimulado pelo represamento da demanda por tanto tempo”, diz Ribeiro. Ele, entretanto, considera que essa retomada se dará em ritmo mais inconstante e de maneira mais gradual do que se observou em outras economias ocidentais. Estimativa, aliás, alinhada com a do FMI em recente pronunciamento. Ele lembra que, até agora, as políticas de estímulo operadas pelo governo se concentram do lado da oferta, o que pode comprometer o impulso ao consumo pelos chineses, que desde o início da pandemia tem contado primordialmente com sua própria poupança atravessar as adversidades da pandemia. Cuja persistência no tempo – como destacado na coluna Nova Ameaça que vem da China? –, tem comprometido a entrada de jovens no mercado de trabalho, entre os quais a taxa de desemprego se aproxima dos 18%, enquanto a taxa de desemprego urbano na China estava em 5,7% em novembro.

Um dos testes de validade para esses prognósticos será as festividades do Ano Novo Lunar, também conhecido como festival da Primavera, que neste janeiro não contará com rígidas restrições de convívio registradas nos dois últimos anos. As primeiras notícias divulgadas pela agência Xinhua são de um aumento de 39% nas viagens em relação ao ano passado no primeiro fim de semana do mês. Como essa tendência avançará até fevereiro, e quais os resultados do ponto de vista sanitário, poderão dar mais pistas sobre o impacto do fim da política de Covid-zero na confiança da população.

Banco Mundial: revisão do PIB global para baixo
países selecionados 


Fonte: Banco Mundial.

Um indicador recente que pode ser visto com certo otimismo, diz Ribeiro, são os PMIs (índices que medem a atividade de forma mais tempestiva) de serviços e indústria chineses em dezembro.Mesmo que em ambos os casos a direção apontada seja de uma economia que fecha o ano em desaceleração, os resultados foram “menos sombrios” que os esperados por parte do mercado, diz Ribeiro. Ainda assim, o pesquisador se mantém cauteloso sobre o potencial de melhora da demanda – tanto interna quanto externa, com estimativa de crescimento do PIB chinês em 2023 de 4,5%. Tal projeção é alinhada à do Banco Mundial, que prevê uma expansão do PIB chinês de 4,3% em 2023, 0,9 ponto percentual menor do que a anunciada pelo Banco em meados de 2022.

Para o Brasil, os reflexos do que acontecerá na China dependerão não só do nível em que ela acontecerá, mas também do ponto de vista qualitativo. “Há vários cenários possíveis. Se a escolha do governo for de estimular a economia com investimento em infraestrutura, ganha o setor mineral”, diz, lembrando que as exportações de minério de ferro do Brasil, no agregado, registraram queda de 35,3% em 2022.“Desde o início de novembro, os contatos futuros de minério de ferro subiram 40%, em renmimbi”, ressalta. “Tivemos uma abertura para exportações de milho no mercado chinês em novembro, que foi positiva. Mas produtos relacionados a consumo, como proteínas, podem não ter variação significativa de demanda este ano”, afirma. E, no caso do petróleo, Ribeiro ressalta que será preciso observar em que medida o deslocamento de demanda chinesa para a Rússia irá se manter. “Somando esses elementos, ainda não é óbvio que contaremos com um canal claro de melhora nos termos de troca,  e uma maior ajuda do setor externo para a economia em 2023”, diz. O Boletim Macro do FGV IBRE de dezembro projeta um crescimento do PIB brasileiro em 0,7%. Já o Banco Mundial estima uma expansão de 0,8%.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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