Mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, que ganham 30% a menos que os homens, aponta Janaína Feijó

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

No final de 2024, o percentual de mulheres chefes de família – ou seja, que são referência financeira de um lar – superou o de homens, alcançando 51,7%, ou 41,3 milhões de pessoas. Do quarto trimestre de 2012 ao mesmo trimestre de 2024, foi um aumento de 87%, conforme mostra levantamento da pesquisadora do FGV IBRE Janaína Feijó, destaque do programa Fantástico no último domingo (veja aqui).

O estudo de Feijó repercutido no dominical será publicado no dia 16 de agosto, depois de atualizado com os microdados da reponderação da PNAD Contínua, cuja divulgação está prevista para o dia 15. Essa revisão, entretanto, não deve alterar algumas tendências identificadas pela pesquisadora a partir dos dados do IBGE atualmente disponíveis.  Por exemplo, de que a maior parte das mulheres que chefiavam seus lares era negra (53%) – nesse grupo, o crescimento foi de 104% em relação a 2012 – e, predominantemente, tinham baixa escolaridade, com 43% cumprindo apenas o fundamental completo. Além disso, o rendimento médio entre essas mulheres era 32% menor do que o dos homens. Em lares de mulheres com filhos e sem cônjuge – as chamadas mães-solo – a diferença de rendimento chega a 41% comparando com homens nas mesmas condições.

Evolução das mulheres chefes dos lares
em milhões


Fonte: FGV IBRE, autora com microdados da Pnad-C do IBGE. Total inclui mulheres em domicíios unipessoais.

Feijó aponta alguns fatores que podem ter contribuído para esse aumento da participação das mulheres na liderança financeira de sua família.  Entre eles, uma maior participação feminina no mercado de trabalho, para o qual jogam a favor desde mudanças no perfil do emprego com a expansão do setor de serviços, como políticas de inclusão e igualdade de gênero e a expansão de políticas sociais. Ela ainda aponta questões socioculturais, entre as quais um maior acesso a educação e redução da taxa de fecundidade, como elementos que contribuem para uma maior participação das mulheres como provedora de recursos e não só de cuidados. O fato de as chefes de família não terem crescido apenas entre as mães solo é ilustrativo dessa mudança de papel. No final de 2024, o maior percentual dessas líderes de família era entre as casadas com filhos (32%), seguido do de mães-solo (30%).  Outro elemento ilustrativo é que o fato de a maior expansão das mulheres como arrimo da família se deu entre as casadas e sem filhos, com 227%, passando de 1,9 milhão em 2012 para 6,1 milhões em 2024, seguido das casadas com filhos (143%, para 13,3 milhões). No período, o percentual de chefes de família entre mãe-solo cresceu 29%. Mesmo com uma expansão muito aquém dos dois primeiros lugares, quantitativamente esse grupo fica em segundo lugar, somando 12,3 milhões de mulheres. Outro elemento observado por Feijó é que as características das mulheres chefes de família mudam conforme a região Ao Fantástico, Feijó exemplificou que, em São Paulo, onde estão 22% das mulheres chefes de família do país, prevalecem as mulheres líderes casadas com filhos.  

Negras e menos escolarizadas 
composição racial e educacional de mulheres chefes de lar (milhões)  


Fonte: FGV IBRE, autora com microdados da PNAD-C do IBGE.

A questão salarial é a ponta de um iceberg de desigualdades que as chefes de família sofrem, mesmo em meio a uma mudança cultural que as favorece em termos de autonomia financeira: a taxa de participação dessas mulheres no mercado de trabalho estava 22,6 pontos percentuais abaixo dos homens chefes de família no final de 2024, quando apenas 53,6%dessas mulheres estavam empregadas ou buscando emprego, aponta Feijó. A taxa de desemprego era quase o dobro para essas mulheres, fechando o ultimo trimestre em 6,8%, e a informalidade também era maior, de 40,3% contra 38,3% para os homens chefes de família.

Mães solo ganham menos 
rendimento habitual real de todos os trabalhos de homens e mulheres que são chefes de lar - 4º tri de 2024º - em R$ 


Fonte: FGV IBRE, autora com ddos da Pnad-C do IBGE.

Ao Fantástico, a pesquisadora do IBRE destacam que as chefes de família enfrentam desafios comuns a outras mulheres no mercado de trabalho, que muitas vezes se somam a outras responsabilidades que também são desigualmente divididas, como o cuidado a crianças e idosos (leia estudo da pesquisadora sobre o tema). Entre as políticas a serem aprimoradas, Feijó defendeu que “a educação da mulher brasileira tem que ser o maior projeto que o país deve ter pela frente”.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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