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Postado por Conjuntura Econômica
Economia cresce. Questões estruturais persistem
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Dia 12 de setembro, no III Seminário de Análise Conjuntural que o FGV IBRE vai realizar junto com o jornal O Estado de S. Paulo, é provável, desde que nada mude de rumo aqui e no mundo – o que tem se tornado difícil, dada a volatilidade que aparece sem mais nem menos –, que se concretize a percepção de que a atividade econômica fechará o ano com mais vigor do que se esperava. Até lá, o IBGE já terá divulgado os resultados oficiais do PIB do segundo trimestre do ano, possibilitando uma melhor avaliação do que ocorreu e do que está por vir.
Um dos fatores que têm elevado as projeções do crescimento do PIB é o Rio Grande do Sul. Com a catástrofe que ocorreu por lá, as projeções eram de que a economia do estado, que tem um peso da ordem de 6% no PIB brasileiro, demoraria muito tempo para se recuperar. No entanto, a recuperação tem sido mais rápida e forte do que o esperado. E isso tem ajudado a atividade econômica do país, que cresceu 1,1% no segundo trimestre em comparação com o primeiro, segundo o Monitor do PIB do FGV IBRE.
Também contribuiu para esse aumento o avanço das importações. Ainda, segundo o Monitor, houve uma alta de 8,6% no segundo trimestre em relação ao primeiro e de 16,3% em comparação com o segundo trimestre de 2023, com destaque para máquinas e equipamentos. Maiores importações são sinal de aumento da capacidade de produção.
Os investimentos também cresceram 3,3% no segundo trimestre sobre o primeiro e 7,3% sobre o mesmo período de 2023, com destaque para máquinas e equipamentos. Mas é bom lembrar que o crescimento se deu sobre uma base bastante reprimida no ano passado.
Leia: Monitor do PIB aponta bom resultado do investimento no segundo trimestre do ano.
O Boletim Macro FGV IBRE de agosto credita parte dos bons resultados alcançados pela economia brasileira de fato aos menores danos causados na economia do Rio Grande do Sul, que teve como um dos pilares a ajuda recebida, especialmente do governo federal. Com isso, foi revisto para cima o crescimento do PIB brasileiro para este ano, de 2% projetados no início de junho para 2,3%, em função dos bons resultados do segundo trimestre da atividade econômica.
Segundo o Boletim, “a indústria brasileira, especialmente a de transformação, registrou crescimento robusto de 4,5% no trimestre. Setores como metalurgia, fabricação de móveis e veículos tiveram desempenho destacado, impulsionados pela reconstrução no Rio Grande do Sul. Por outro lado, o varejo restrito recuou 1,5%, reflexo da desaceleração em hipermercados e supermercados, enquanto o varejo ampliado cresceu 0,4%, puxado por veículos e materiais de construção. O setor de serviços cresceu 1,7%, com destaque para a recuperação no transporte aéreo, impulsionada pela retomada da demanda nas cidades gaúchas”.
E essa maior robustez da economia vai estar ancorada em, pelo menos, dois pilares: o consumo das famílias, que há algum tempo vem carregando nas costas o PIB brasileiro, e os investimentos, que já dão sinais de maior vigor. Também o mercado de trabalho dá sua contribuição, com a taxa de desemprego atingindo em junho último 6,9%, a mais baixa desde 2014 – no mesmo mês de 2023 estava em 8%. E a renda nominal tem aumentado cerca de 6% em termos reais, nos últimos dez meses, se utilizarmos uma inflação de 4% ao ano.
“Ou seja, há sinais claros de aquecimento do mercado de trabalho, sem sinais de desaceleração, de acordo com as previsões para julho”, sinaliza o Boletim, feitas na edição do mês passado.
Mas nem tudo é motivo para soltar rojões. Estudo feito pelo Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste, do FGV IBRE, mostra que, apesar do mercado de trabalho aquecido, os brasileiros hoje vivem mais com a renda de programas sociais do que com a recebida pelo trabalho.
Parte do estudo, publicado na edição do dia 20 último no jornal Valor Econômico (link exclusivo para assinantes do jornal), mostra que a participação do trabalho na renda caiu de 75,3%, em 2021, para 74,2%, em 2023. Já a de programas sociais, no mesmo período, passou de 2,6% para 3,7%. No Nordeste, esse percentual subiu de 6,8% para 9,7%. O que é um problemão, pois os recursos para custear isso não são finitos e mostram uma grave distorção estrutural de nossa economia.
Como já escrevi nesse espaço várias vezes, estamos repletos de problemas estruturais que travam o crescimento.
Na edição de agosto da revista Conjuntura Econômica, entrevistamos Roberto Castello Branco, ex-presidente da Vale, da Petrobras, primeiro doutor em economia a se formar pela FGV EPGE, que foi homenageado no último dia 23 por ocasião de seus 80 anos, na sede da FGV, no Rio.
Na entrevista, além de falar sobre petróleo, energias renováveis, entre outros assuntos, ressaltou sua preocupação com a questão fiscal e a forma com que o crescimento vem ocorrendo: “O que sabemos é que aumentos do gasto público focados no estímulo ao consumo podem trazer uma ilusão de curto prazo. O crescimento aumenta um ano, dois; depois temos as repercussões negativas dessa política, com aumento de taxa de juros, desincentivo ao investimento privado, baixa produtividade, e esse ganho de curto prazo acaba não compensando. Já experimentamos isso, e é algo que se repete em vários outros países também.”
Castello Branco também toca o dedo na ferida em outro problema que carregamos, acho, desde que por aqui Cabral chegou.
“Infelizmente, as reformas no Brasil são diluídas pelo populismo, pela vontade de agradar a grupos de interesse. Tome como exemplo o caso da reforma da Previdência de 2019. Conforme calculado por economistas, metade do efeito dessa reforma foi engolida pela nova política de salário mínimo.”
Lembra, também, do que aconteceu com a reforma tributária, tão necessária ao Brasil, que vive um manicômio tributário. “Esta é uma iniciativa que o governo passado não chegou a concretizar, e que o atual teve apoio do Congresso para ir adiante e aprová-la. O problema é que a regulamentação tem sido afetada por grupos de interesse constituídos. Então, são tantas exceções do imposto sobre valor adicionado (IVA – no caso brasileiro, um IVA dual formado por IBS e CBS), que a resultante é que o Brasil deverá ter um dos IVAs mais altos do mundo, o que acaba reduzindo muito do efeito da reforma tributária”.
Relembre: “Infelizmente, no Brasil as reformas são diluídas pelo populismo”.
O Boletim Macro coloca mais uma interrogação sobre a viabilidade de um crescimento com tantos problemas que vamos acumulando ao longo dos anos e não conseguimos, ou não se quer resolver. Desta vez, são os juros, uma vez mais.
“A má notícia é que, após um ciclo de queda, paramos com a Selic a 10,5% e tudo sugere que não retomaremos um ciclo de baixa tão cedo, com risco muito elevado de necessidade de subida de juros já em setembro. De fato, para o pesquisador José Júlio Senna (chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE), parecem claro os sinais de que o Copom promoverá uma elevação da Selic (provavelmente de 50 pontos) na reunião de setembro. Se a atividade cresce acima do seu potencial, a inflação não cede e precisamos de mais taxa de juros para controlar a inflação. Mesmo com muita incerteza sobre o valor da taxa de juros neutra no Brasil, tudo indica um valor mais elevado. A política fiscal expansionista cobra o seu preço. E, pelo menos por enquanto, não há sinais de reversão”, diz o Boletim.
Leia a íntegra do Boletim Macro FGV IBRE de agosto
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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.


