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14 Jul 2023

Em Foco

Por que somos tão improdutivos?

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

O saudoso Regis Bonelli, que nos deixou em dezembro de 2017, dedicou boa parte de sua vida a procurar entender por que somos tão improdutivos. Um dos projetos que marcam sua dedicação ao tema é o  livro Anatomia da Produtividade no Brasil, que ele organizou com Fernando Veloso e Armando Castelar, pesquisadores do FGV IBRE, que tive a honra de coordenar e editar. Lançada quando a doença que ceifou sua vida ainda não havia se manifestado com toda a sua agressividade, a obra reúne a contribuição de vários economistas para compreender a nossa baixa produtividade.

Regis se foi, depois de dedicar e compartilhar seu grande conhecimento no FGV IBRE. Seu legado levou à criação do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, que continua avaliando a produtividade, suas causas e consequências.

Mas por que somos tão improdutivos? O livro, embrião do Observatório, deixa patente a multidimensionalidade desse tema na economia brasileira. Na coluna Ponto de Vista, publicada na revista Conjuntura Econômica deste mês, já em circulação, Samuel Pessôa, menciona reportagem da revista inglesa The Economist que indaga “por que os trabalhadores latino-americanos são tão surpreendentemente improdutivos”. Ele diz: “Como costuma acontecer, a revista foi ao que interessa. A compreensão do subdesenvolvimento brasileiro passa por conseguir descrever e entender nossa improdutividade. Uma hora trabalhada no Brasil gera cinco vezes menos do que uma hora trabalhada nos EUA”.

A baixa produtividade brasileira é fruto de um conjunto imenso de instituições que produz má alocação do investimento, gera baixíssima eficiência no setor público e desestimula a competição e a boa gestão. Isso é amplamente apontado no livro Anatomia da Produtividade.

Um dos nós a desatar para sairmos dessa armadilha da baixa produtividade é o sistema tributário brasileiro que, após décadas, parece que vai mudar. Proposta nesse sentido, costurada por Bernardo Appy, que tem um capítulo no livro e hoje é Secretário Extraordinário da Reforma Tributária do Ministério da Fazenda, foi aprovada pela Câmara e seguiu para o Senado onde, provavelmente, deve sofrer mudanças. Mas já é um enorme caminho andado.

Na edição de dezembro de 2019, quando do lançamento do Observatório da Produtividade Regis Bonelli, a revista Conjuntura Econômica trouxe uma ampla radiografia sobre a produtividade. Em entrevista à revista, Appy já afirmava que que “não adianta ajustar as contas públicas sem mexer na produtividade”.

Além do sistema tributário, há um conjunto de problemas que o País não consegue desamarrar. A fragilidade do mercado de trabalho, a informalidade, a baixa escolaridade, os baixos níveis de investimento, a falta de segurança jurídica, o que atrapalha o ambiente de negócios, a desigualdade de renda, políticas distorcidas de subsídios, ambiente político conturbado, especialmente nos últimos anos.

Como diz Pessôa no Ponto de Vista, a “péssima qualidade da rede pública de educação básica, gestão ruim das empresas e má alocação do investimento resultam de regras, instituições ruins e de um mau funcionamento do setor público. Por exemplo, a mesma The Economist tratou em artigo recente do sucesso do sistema educacional do Vietnã, país cuja renda per capita é hoje 75% da brasileira (há duas décadas, era 30%). Os alunos vietnamitas entre os 10% piores do país, segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês), que é divulgado a cada três anos pela OCDE, têm desempenho melhor do que os 10% melhores entre os alunos brasileiros. Aqui a agenda é de reforma do Estado, para que nossa rede pública de educação básica seja mais efetiva… Ou seja, aparentemente, má alocação de capital e trabalho, em empresas com baixa produtividade, e falta de estímulo para que as empresas adotem as melhores práticas de gestão explicam a outra metade da nossa baixa produtividade”.

No primeiro trimestre deste ano, com o ótimo desempenho do PIB, que avançou 1,9%, a produtividade cresceu 1,3% em relação ao primeiro trimestre de 2022, sob a ótica de horas trabalhadas. Foi a primeira alta desde o segundo trimestre de 2021, quando se interrompeu o ciclo de aumento de produtividade provocado pelo afastamento de trabalhadores informais e menos produtivos do mercado de trabalho, devido às medidas de isolamento social para controle da pandemia. Com esse resultado, a produtividade efetiva, que estava abaixo da observada pré-Covid, passou a ficar 1,4% acima.

O que deve ser comemorado, mas com ressalvas. O problema identificado pelos pesquisadores do Observatório é que esse salto não reflete um ganho estrutural disseminado. Eles indicam que, tal como aconteceu com o PIB do período, esse resultado deveu-se ao setor agropecuário. Mesmo sendo uma atividade que emprega poucas horas de trabalho quando comparada a outras – ocupa 8,5% das horas trabalhadas contra 70% dos serviços, por exemplo – a produtividade efetiva do agro registrou um crescimento tão expressivo, de 23,5% no primeiro trimestre comparado ao mesmo trimestre de 2022 – nesse período, a produtividade da indústria cresceu 0,6% e, a de serviços, recuou 1,1% –, que foi capaz de fazer muita diferença no resultado agregado. Sem o agro, afirma Fernando Veloso, coordenador do Observatório junto a Silvia Matos, a produtividade efetiva teria registrado queda de 0,8%.

Ver: Boas e más notícias que os estudos sobre a produtividade brasileira revelam.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.