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07 Jul 2023

Em Foco

Erros e incertezas sobre o PIB

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Tem havido muitas surpresas nas projeções sobre o PIB brasileiro. As previsões dos analistas, em sua grande maioria, não têm se concretizado. Hoje há muita incerteza sobre como deve se comportar a economia neste e no próximo ano. Há uma corrente mais otimista, que chega a prever crescimento do PIB acima de 2,5%. Outra, mais pessimista, faz projeções de um crescimento ainda modesto, não superando os 2%.

Como sabemos, os resultados do primeiro trimestre do ano surpreenderam, com o PIB crescendo 1,9%, puxado pelo excelente desempenho da agropecuária que avançou mais de 20%, com destaque para a soja, hoje o principal produto agrícola do Brasil. De acordo com dados da Produção Agrícola Municipal do IBGE (PAM), a soja representava 16% do valor da produção agrícola em 2000; em 2021 esse percentual chegou a 46%. Para 2022, estima-se que a participação tenha sido de 40%.

Veja: Soja deve explicar 20% do crescimento do PIB brasileiro em 2023.

Mas já sabemos que isso não vai se repetir, pois deve diminuir significativamente a contribuição da agropecuária para a atividade econômica, o que deve levar a um PIB mais magro no segundo trimestre do ano, embora as Sondagens divulgadas pelo FGV IBRE tenham mostrado um aumento da confiança de consumidores e empresários no desempenho da economia.

Veja: Pela primeira vez desde o início da pandemia, Índice de Confiança do Consumidor supera os 90 pontos.

Mas o que tem levado os analistas a errarem suas previsões, especialmente a partir de 2020? A Carta do IBRE, que foi tema de matéria de capa do jornal Valor Econômico na edição de ontem (6/7), traz algumas pistas sobre o que teria levado o PIB brasileiro a passar de expectativas negativas para positivas.

A Carta pontua como foram as previsões e os resultados finais do PIB, divulgados pelo IBGE:

• 2018 começou com expectativa de crescimento de 2,7%, e o resultado atingido foi de +1,8%. Em 2019, estimava-se alta do PIB de 2,5% no início do ano, e chegou-se a apenas +1,2%. Essa tendência começou a mudar em 2020. Em junho de 2020, quando o efeito econômico da pandemia já podia ser aquilatado, a projeção média era de queda do PIB de 6,5%, mas o recuo foi de apenas 3,3%. Em 2021, projetou-se crescimento de 3,4% no início do ano, e se atingiu +5%. Em 2022, o pessimismo levou a uma projeção inicial de alta do PIB de apenas 0,3%, e o crescimento foi de 2,9%. O mesmo enredo parece se repetir este ano: de uma projeção mediana em janeiro de apenas +0,8%, já se evoluiu para +2,2% (em meados de junho).

Uma das principais contribuições para que o PIB fosse maior que o esperado foi o aumento da renda gerada pelas commodities – durante a pandemia, o Brasil se beneficiou da escassez de comida e minerais no mundo, devido à quebra da cadeia logística, acirrada, depois, pela guerra na Ucrânia. De 2020 até o primeiro trimestre deste ano, o aumento dessa renda acabou gerando um crescimento adicional acumulado da ordem de 8% no PIB. Esse impacto positivo, porém, vai perder fôlego daqui para frente, já que há uma queda nos preços das commodities e uma valorização da nossa moeda, o real.

Brasil: participação das commodities no PIB/renda
Em %


Fontes: Banco Mundial e IBGE. Elaboração própria Bráulio Borges.

Com o vento mudando, de onde virá um crescimento mais forte da atividade econômica até o final do ano? Quando olhamos com mais atenção o PIB do primeiro trimestre, vemos que ele foi, basicamente, sustentado pelo excepcional desempenho da agropecuária e setores que se beneficiaram da grande safra, como o de transportes. O que, como mencionado, já está perdendo o fôlego.

A queda na taxa de juros, que parece que terá seu ciclo iniciado na próxima reunião do Banco Central, em agosto, não terá um efeito imediato, já que será uma provável redução a conta-gotas, com os juros reais da economia permanecendo em níveis bastante elevados. Mesmo com o aumento da renda da população, em grande parte devido a transferência de renda através de programas sociais, como o Bolsa Família, ainda é alto o endividamento das famílias. No primeiro trimestre, o consumo das famílias, que tem sido o principal componente do crescimento do PIB, avançou apenas 0,2%. A indústria não consegue se recuperar, perdendo cada vez mais participação dentro do PIB brasileiro. Há planos do governo Lula para iniciar a reindustrialização, mas os obstáculos para isso são enormes.

Anote: Indústria: à espera do corte de juros.

Os investimentos, especialmente em máquinas e equipamentos, estão em patamares negativos e não há luz no túnel de que possam se recuperar no curto prazo. Temos problemas de produtividade, extremamente baixa, como mostra o Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

Relembre: Boas e más notícias que os estudos sobre a produtividade brasileira revelam.

É verdade que temos uma economia um pouco mais arrumada, que poderia ter ajudado o PIB a ter resultados melhores que os esperados a partir de 2020, como menciona a Carta do IBRE.

• Uma hipótese aventada recentemente em artigos na imprensa é de que as reformas econômicas liberais realizadas no período de 2016-2021, nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, estejam começando a render frutos. Alguns dos exemplos mais citados de reformas são a autonomia operacional legal do Banco Central, as reformas da Previdência e trabalhista, melhorias no mercado bancário e de crédito (reforçadas pela emergência das fintechs), novos marcos legais em setores de infraestrutura, o PIX como redutor do custo de transação etc.

“Sem negar o mérito de boa parte dessas reformas, Braulio Borges, pesquisador associado do FGV IBRE, autor do estudo sobre o impacto das commodities no PIB, vê com ressalvas essa hipótese. Ele nota que algumas das reformas, como a criação da duplicata eletrônica, ainda sequer foram operacionalizadas, e que houve ‘contrarreformas’ no período, como a piora da execução orçamentária e o adiamento de pagamento de precatórios. O economista cita ainda a histerese econômica negativa gerada por uma economia operando abaixo do potencial por seis, sete anos, com possíveis danos persistentes e mesmo permanentes ao estoque de capital humano (via desemprego de longa duração e fuga de cérebros)”, enfatiza a Carta.

Parece certo que o governo Lula vai buscar alternativas para compensar a menor contribuição do setor agropecuário no PIB. Afinal, crescimento econômico é fundamental para a popularidade de qualquer governo. Como isso será feito e quais seus resultados, ainda são questões nebulosas. As apostas estão na aprovação do novo arcabouço fiscal e na reforma tributária, que têm levado uma certa euforia ao mercado, embora venham recebendo críticas em relação a sua execução.

Enquanto se aguarda os rumos da política econômica, Borges avalia que no médio e longo prazo, há “possibilidade de que a renda de commodities volte a se elevar, puxada mais por volume do que por preços”. Ele cita a perspectiva de que a produção de petróleo e gás no Brasil cresça quase 80% até o final desta década. Também lembra que a nova “corrida pelo ouro” associada à transição energética mundial vem impulsionando a demanda pelos chamados minerais críticos, tais como lítio, cobre e níquel. O Brasil possui elevadas reservas de boa parte desses minerais e, de fato, levantamentos do setor apontam para forte elevação dos investimentos na mineração em nosso país nos próximos anos, puxados por cobre e lítio.

Leia a íntegra da Carta do IBRE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.