“Precisamos incentivar o letramento em análise de dados na segurança pública”, afirma José Macedo, da UFC

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
No episódio de lançamento do Economia em 15, podcast da Conjuntura Econômica, a especialista em segurança pública Joana Monteiro (FGV Ebape) defendeu que avanços no combate à criminalidade e violência – um dos temas que hoje mais preocupam a população brasileira de acordo a pesquisas de opinião – dependem de estratégias como ampliação do policiamento preventivo e investigação de crimes em bloco. Para avançar nessas frentes, uma das ferramentas necessárias, afirma Monteiro, é o uso e gestão de ciência de dados.
No Brasil, ainda que haja iniciativas bem-sucedidas nesse campo, a avaliação dos especialistas é de que falta escala na adoção de soluções envolvendo ciência de dados. “Precisamos de mais letramento e incentivo no uso dessas ferramentas, para de fato termos uma cultura de dados dentro das secretarias de segurança pública”, afirma José Macedo, professor do Departamento de Computação da Universidade Federal do Ceará (UFC). Macedo foi cientista-chefe do governo do Ceará na área de Segurança Pública entre 2017-2019, época em que o estado teve que apresentar respostas institucionais consistentes para conter um boom de criminalidade violenta. Entre as ferramentas desenvolvidas por Macedo nesse período está o Sistema Policial Indicativo de Abordagem (Spia) – que a partir de imagens de câmeras de segurança faz reconhecimento facial e de placas de veículos, contribuindo, entre outros, para a detecção de carros roubados – e o Cerebrum, uma plataforma de big data que no Ceará interage mais de 60 bases de dados, permitindo a geração de mapas criminais georreferenciados. “Consolidando essa grande quantidade de informações – que vão do criminal, do sistema prisional, Detran às de companhia de água e esgoto –, é possível caracterizar contextos relacionados a alvos de crimes”, explica Macedo. Agora, o especialista trabalha em uma ferramenta de informações em tempo real, estendendo seu uso do campo da inteligência para as ações do dia a dia.
Macedo afirma que uma ação policial apoiada em evidências a partir da ciência de dados depende, em primeira instância, do comprometimento do gestor público – que pode oscilar de acordo ao governo de turno. Ele lembra que, quando começou a trabalhar para a área de segurança, foi comum identificar bases de dados inconsistentes fruto, por exemplo, do preenchimento incompleto de ocorrências pelos agentes, comprometendo a qualidade do dado e a integração estatística. “A valorização dessa cultura partindo do gestor principal é importante inclusive no convencimento de diferentes secretarias para a integração de bases – e mesmo na tarefa de convencer os municípios a fazê-lo, algo ainda muito difícil”, explica.
No campo preventivo, um caso ilustrativo é o uso do georreferenciamento na detecção das chamadas manchas de calor, onde se concentram os principais crimes de rua. “No Brasil e em vários lugares do mundo, já se comprovou que há uma alta concentração das ocorrências”, diz. A partir de uma ferramenta desenvolvida para o Ministério da Justiça, Macedo foi convidado a fazer parceria com especialista inglês em algoritmo de roteamento para o desenvolvimento de uma ferramenta de análise de hotspots que hoje é usado em cinco delegacias londrinas. “A partir das informações geradas, criam-se parâmetros para o desenho de rondas policiais específicas – para policiamento a pé, de carro – que permitam maior visibilidade dos pontos vulneráveis”, diz. “Em Londres, pude ver a compreensão dos gestores da importância do uso de dados intensivos para o desenho de políticas públicas mais assertivas”, reforça.
No âmbito nacional, Macedo lembra que a lei do Sistema Nacional de Segurança Pública (Sinesp) estabelece a integração das bases de dados de todo o Brasil, mas que essa agregação não tem acontecido a contento. “Cheguei a atuar junto ao Ministério da Justiça, e nesse momento conseguimos integrar todos os boletins de ocorrência do Brasil – algo muito útil, posto que uma pessoa que comete um crime num estado pode migrar para outro, dificultando a ação da polícia.Também precisamos da liderança do governo federal para fazer o Sinesp funcionar para interligar mais dados de todos os estados, e fazer com que ele de fato funcione – o que também poderia incentivar os estados a trocar experiências e coordenar estratégicas comuns”, avalia.
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