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23 Set 2025

Seja quem for o próximo presidente, precisará endereçar a estabilização da dívida pública, afirma Samuel Pessôa em evento

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Em participação no evento Macro Day 2025 do BTG Pactual, Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV IBRE e pesquisador macroeconômico do BTG, destacou a tarefa que o próximo presidente terá para estabilizar a trajetória da dívida pública. “Esse é nosso bode na sala”, definiu. Pessôa fez o alerta ao comentar a apresentação do ministro da Fazenda Fernando Haddad, na abertura do evento, em que este contextualizou a evolução recente das despesas e receitas do governo, destacando obrigações que foram contratadas antes da entrada do governo Lula.

“Para termos uma eleição decente no ano que vem, com propostas e ideias, teremos que nos debruçar sobre o que é real”, afirmou Haddad. Em seu retrospecto fiscal, o ministro destacou que a receita como proporção do PIB está 0,2 ponto percentual (pp) abaixo da média de 2011-13. Destacou o impacto da chamada tese do século – a retirada do ICMS da base de cálculo do PIS Cofins, que levou a uma perda de arrecadação estimada em R$ 629,9 bilhões no período 2019-2024, e medida que retroagiu a 2019, gerando impacto em compensações tributárias que só deverão se encerrar entre 2026 e2027. “Estimo que 10% do PIB de nossa dívida pública seja consequência dessa decisão do STF, num placar de 6x5”, afirmou.  Pelo lado das despesas, Haddad destacou que a previsão para 2026 é de estas alcancem 18,8% do PIB, cerca de 0,7 ponto percentual (pp) acima de 2022, último ano do governo Bolsonaro. “Dessa diferença, entretanto, 0,5 pp são de Benefício de Prestação Continuada (BPC) e Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), pela mudança dos critérios de elegibilidade do BPC e da emenda constitucional do Fundeb. Somados, trata-se de mais de R$ 70 bilhões contratados em 2021”, ilustrou.

Na avaliação de Pessôa, a fala do ministro ilustrou o desafio, que cabe ao mandatário de turno, de conseguir coordenar duas agendas de decisão política no Congresso. “Há as escolhas sociais dos grupos de pressão, relacionadas às emendas parlamentares, a toda a agenda de gasto tributário, e uma segunda agenda que podemos chamar de escolha social que reflete a vontade média da sociedade, onde entram políticas mais abrangentes, como a política de valorização do salário mínimo e o programa Bolsa Família”, descreveu. “Minha leitura da fala do ministro foi de que ele apontou a necessidade de medidas que afetarão a escolha social do eleitor mediano – mudar a regra de reajuste do mínimo, o indexador do gasto mínimo com saúde, educação, uma nova reforma da Previdência –, mas que não é possível discutir isso sem simultaneamente debater a agenda dos grupos de pressão”, disse. “Tem que fazer o pacote completo, senão a sociedade não digere. Veremos o que o sistema político conseguirá processar no ano que vem.”

Em sua participação em painel com Eduardo Loyo, Mansueto Almeida, Tiago Berriel e Stefanie Birman, todos do BTG Pactual, reforçou o alerta feito no III Seminário de Análise Conjuntural do FGV IBRE / Estadão sobre o fato de a economia brasileira hoje apontar a uma taxa natural de desemprego menor do que no passado, dado o contexto de desemprego baixo sem grandes pressões inflacionárias. “Essa taxa que antes era de 10% deve estar mais baixa, mas não em 6%, o que significa que ainda temos um mercado aquecido”, afirmou, apontando o diagnóstico para uma política monetária ainda restritiva.

Quanto às perspectivas para a economia dos EUA, Pessôa indicou a tendência de um juro real mais baixo e um câmbio mais fraco por mais tempo, por escolha de política econômica. “Haverá troca de diretoria no FED, e o Executivo escolherá pessoas para compor o BC americano que tenham essa visão”, disse. Quanto tempo essa política mais condescendente com uma inflação mais alta é uma pergunta ainda sem resposta, apontou Pessôa. Trata-se, entretanto, de uma direção já dada. “O consumo está voltando. O índice de incerteza, que explodiu no início do ano, já recuperou cerca de dois terços da alta em relação ao pré 2 de abril”, ilustrou, reforçando as dúvidas quanto ao prazo de validade das escolhas do governo Trump.

 


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