Queda da inflação: ainda é preciso moderar o otimismo, alerta André Braz

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) do IBGE confirmou as projeções de deflação em agosto, marcando queda de 0,11%. Foi o primeiro resultado negativo desde agosto de 2024, quando o índice registrou contração de 0,02%. No acumulado de 12 meses, o IPCA ficou em 5,13% e, nos oito primeiros meses de 2025, marca alta de 3,15%.
Ainda que tenha fechado dentro das expectativas do FGV IBRE, André Braz, coordenador dos Índices de Preços do IBRE, aponta que é preciso tomar o resultado com otimismo moderado. A começar porque uma das principais contribuições para essa deflação, vinda da energia elétrica residencial (-0,41%), é fruto do pagamento do bônus de Itaipu. “Tais bônus são mais frequentes – o último tinha sido em janeiro – mas se trata de um alívio temporário”, lembra.
Além disso, a deflação dos alimentos por três meses consecutivos, fechando agosto em -0,83%, pode não receber a ajuda estimada do tarifaço do governo Trump – cuja isenção não se estendeu a produtos como café e carne bovina –, para sustentar essa trajetória nos próximos meses. “Inicialmente, as tarifas de Trump jogaram a favor para os preços, ao encolher o mercado para esses produtos e, com menos mercado, esperava-se aumento de oferta e queda de preços”, descreve Braz. “Considero que essa expectativa motivou inclusive revisões mais tempestivas dessa inflação no curto e médio prazo”, diz, destacando a revisão para baixo do IPCA no Boletim Focus para 2025, 2026 e 2027. “Vínhamos de um cenário em que o Focus apontava aceleração contínua da inflação em vários horizontes de tempo, indicativa de desancoragem das expectativas, e a colaboração da agricultura jogou a favor para uma mudança rápida desse quadro.”
Braz destaca, entretanto, que o Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) de agosto ligou uma luz amarela para essas expectativas. “Observamos que itens como bovinos – que se refere ao boi vivo – o café em grão, a soja e o milho inverteram o sinal e registraram alta”, afirma. Somente no café em grão, o IPA aponta a saída de uma retração de 22,52% no preço em julho para alta de 1,44% nesse mês. “Esses movimentos podem antecipar uma queda menor do preço no varejo, ou mesmo aumento de preço, sugerindo que as portas que os EUA estão fechando para o produto brasileiro não necessariamente impedirão exportações vigorosas desses produtos para outros mercados”, avalia Braz, citando como exemplo a boa recepção da carne brasileira em países asiáticos.
Como contrapartida, os bons resultados da safra de grãos este ano e a desvalorização do dólar frente às demais moedas – também reflexo da política comercial de Trump, contribuindo para o fortalecimento do real – colaboram para uma inflação mais comportada. Neste segundo semestre, o clima favorece a colheita de produtos in natura como frutas e folhas, que tendem a registrar deflação. “Trata-se, entretanto, de um efeito temporário, diferentemente do que acontece com o café e a carne bovina, que são produtos de ciclo produtivo mais longo, afetando o preço por mais tempo”, lembra Braz. Além disso, ele lembra que “a desvalorização do dólar foi generalizada, a alta do real não foi tão grande, o que significa que os produtos brasileiros ainda têm preços competitivos – podendo ajudar nessa concorrência por mercados alternativos”, completa Braz.
Outro fator destacado pelo economista é que a inflação de alimentos é menos sensível à política monetária – posto que o elemento que de fato influencia no nível de preços desses produtos é a oferta. Questões climáticas que afetem safras fazem o preço subir independentemente do nível de juros praticado.
Por ora, Braz mantém a projeção de que o IPCA feche 2024 em torno de 4,7%. “Como se trata de dados de apenas um mês, ainda é cedo para fazer qualquer revisão. Mas o espalhamento dessa alta chamou a atenção e demandará um monitoramento mais tempestivo.” Caso persevere, será um desafio adicional para o governo, posto que iniciar o último ano de governo com alta de preços em alimentos pode jogar contra sua popularidade.
O economista do IBRE também ressalta a persistência da inflação de serviços, alinhada ao mercado de trabalho aquecido. Observamos, entretanto, que essa resiliência acontece em especial nos serviços que absorvem certa indexação, dos quais é mais difícil abrir mão, como alugueis, condomínios e mensalidades escolares. Nesses casos, a variação de preços está acima da meta, alcançando os 6% em 12 meses. Quando olhamos os serviços não-subjacentes – como de cabeleireiros, para citar um exemplo – o aumento é menor, em torno de 2%.
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