Novo boletim destaca panorama do crédito para o financiamento de obras de infraestrutura
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Foi divulgada nesta terça-feira (1/7) a segunda edição do Boletim de Infraestrutura, parceria do FGV IBRE com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT), publicação trimestral com análise de indicadores setoriais e sondagens especialmente produzidas para o Boletim. Neste número, um dos destaques é o panorama do financiamento do setor que, especialmente no caso das infraestruturas de transportes, em geral demanda grandes montantes de recursos e longa duração.
Como apontam os autores do Boletim, os elementos que contribuem ao desenvolvimento de estruturas de financiamento diversas e adequadas ao perfil desses investimentos vão da estabilidade macroeconômica, que influencia em fatores que vão de maior clareza na projeção de demanda ao custo do crédito, ao equilíbrio fiscal, sem o qual a participação do Estado em obras de maior impacto se vê limitada, bem como um mercado de capitais desenvolvido.
O foco da publicação foi demonstrar a percepção dos empresários do setor sobre a oferta de crédito. Pesquisa desenvolvida pela Superintendência de Estatísticas Públicas do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE) realizada em abril mediu a percepção sobre o acesso a crédito – com dados como finalidade, dificuldades no processo, sucesso na obtenção – e apontou as fontes mais utilizadas.
O principal motivo para a busca de crédito apontado pelas empresas consultadas (638 empresas da construção e 266 do setor de infraestrutura em todo o país) foi a necessidade de capital de giro, com 51,2% para obras de infraestrutura em geral, seguida de busca por expansão, seja de espaço físico ou investimento em máquinas e equipamentos, com 47% das assinalações – o questionário permitia mais de uma resposta em cada quesito. No caso das empresas voltadas à infraestrutura de transportes terrestres (rodovias, ferrovias, obras urbanas e obras de artes especiais, esses quesitos obtiveram 44,4% e 41,7% de assinalações, respectivamente). O segmento de infraestrutura de transportes ainda foi o que mais assinalações registrou quanto à necessidade de renegociar/ refinanciar dívidas, com 17,4%. Por sua vez, o segmento que mais apontou a necessidade de crédito para investir em pesquisa e inovação foi o de infraestrutura elétrica e de telecomunicações, com 17,4% de indicações. Nos demais segmentos, as assinalações para esse item ficaram abaixo de 10%.
Maiores dificuldades para obtenção de crédito

Nota: Respostas múltiplas permitidas. Fonte e elaboração: FGV IBRE.
Quanto às dificuldades para obtenção de crédito, taxas de juros elevadas foram o quesito que dominou as respostas, com 52,9%, seguido por aqueles que declararam não ter dificuldades (28,8%), e os que assinalaram burocracia e exigências bancárias 23,5%. A pesquisa demonstra que boa parte das empresas que realizam obras de infraestrutura lança mão de recursos próprios em seus projetos (44,4%), contratos em bancos privados (38,7%). O terceiro item com maior assinalação foram recursos públicos (16,7%); seguidos de Caixa Econômica/ Banco do Brasil 11,3% e BNDES 6,7%. A pesquisa reflete o ainda baixo uso do mercado de capitais, com 4,4% de assinalações.
Custos e multiplicadores
O Boletim também apresenta um panorama da evolução dos custos de projetos comparando um índice dedicado às obras rodoviárias, o DNIT-R, construído a partir da consolidação das matrizes de custos dos índices de reajustamento das obras de responsabilidade da autarquia, e o comportamento do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), do FGV IBRE. De janeiro a maio deste ano, destacou-se a influência da variação dos derivados de petróleo, tais como materiais asfálticos, óleo combustível e diesel, que representam em torno de 44% do peso do indicador do DNIT, levando este índice a fechar o mês de maio abaixo do INCC. No acumulado de 12 meses até maio deste ano, entretanto, o cimento asfáltico de petróleo (CAP) registrou alta de 14,62%, bem acima da alta de preço da areia (6,86%), que vem em segundo lugar, seguida da brita, com 5,02%. A evolução dos custos e da demanda de mão de obra, que é fonte de preocupação do setor, também é analisada em seção exclusiva.
A publicação destaca que o contexto de valorização do real frente ao dólar tende a contribuir positivamente para a operação do setor, em várias frentes. Pode reduzir os custos de importação de insumos e máquinas, contribuir para uma melhora do perfil de endividamento das empresas alavancadas em moeda estrangeira, contribuindo ainda para uma melhora da confiança na projeção de investimentos – ainda que esse fator demanda também do cenário macroeconômico.
Número de empregos criados para cada R$ 1 milhão investido

Elaboração: FGV IBRE/Centro de Estudos em Infraestrutura.
Os pesquisadores responsáveis pela publicação ainda elaboraram um exercício demonstrando o impacto das obras de infraestrutura na economia brasileira. A partir da Matriz Insumo-Produto do IBGE, estimaram quantos empregos podem ser criados diretamente (no próprio setor), indiretamente (em outros setores) e através do efeito renda em cada R$ 1 milhão investido. Mostra o texto que: “a construção civil destaca-se com o maior multiplicador total (33,25 empregos criados para cada milhão de reais investido), impulsionado principalmente pelo elevado efeito direto (15,10 desses 33,25 empregos foram criados no próprio setor de construção). Já os setores de transporte (31,77) e informação e comunicação (23,87) têm impactos relevantes sobretudo por meio dos efeitos indiretos e de renda”.
Em outro exercício, estima-se o multiplicado em termos de valoração de produção, tomando como base o mesmo investimento de R$ 1 milhão. Nesse caso, o setor de transporte, armazenagem e correio é o que aponta o maior multiplicador total (3,34), “indicando que cada R$ 1 milhão investido nesse setor é responsável por gerar R$ 3,34 milhões em produção na economia”, seguido da construção civil, com multiplicador total de 3,04; informação e comunicação (2,99) e eletricidade e gás, com multiplicador total de 2,86.
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