Por que é preciso estar atento à qualificação dos jovens brasileiros

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Estudo publicado este mês pelos pesquisadores do FGV IBRE Janaína Feijó e Paulo Peruchetti mostra que, apesar da resiliência do mercado de trabalho brasileiro, que se mantém com baixo nível de desemprego (6,8% no trimestre móvel terminado em fevereiro, de acordo à PNADC do IBGE), a situação laboral dos jovens continua demandando atenção.
No artigo, Feijó e Peruchetti demonstram que a evolução da população ocupada nos últimos anos foi positiva nos principais grupos etários. Quando se separam os trabalhadores mais jovens (entre 18 e 29 anos) do grupo adulto (30-59 anos), e se compara o último trimestre de 2019 com o mesmo período de 2024, observa-se uma queda da taxa de desemprego de 7,4 pontos percentuais entre os jovens, enquanto para os adultos foi de 3 p.p. O problema, entretanto, aparece quando se olha o ponto de partida: em 2019, 18,5% dos trabalhadores jovens estavam desempregados. Essa melhora observada, portanto, ainda não livrou esse grupo de uma taxa de desocupação de dois dígitos. Os trabalhadores mais jovens também continuam registrando maior nível de informalidade laboral (38,5% no quatro trimestre de 2024), e maior subocupação, ou seja, quando trabalham menos de 40 horas semanais e gostariam de trabalhar mais. A subocupação afeta 5,4% dos jovens, contra 4,6% dos trabalhadores adultos na ativa. “Esses indicadores podem sinalizar que os jovens têm encontrado mais dificuldade para encontrar emprego, mesmo com a economia aquecida”, diz Peruchetti.
Perfil do mercado de trabalho para jovens de 18 a 29 anos
dados percentuais - quarto trimestre de 2024

Fonte: FGV IBRE, com dados da PNADC.
À primeira vista, tais dados parecem conflitar com outro levantamento, feito por Janaína Feijó e Helena Zahar, que mostra que trabalhadores entre 18 e 24 anos são os que mais pedem demissão voluntária, representando quase 50% do total dos pedidos. Somente no acumulado do primeiro bimestre deste ano, essa participação equivaleu a 786 mil demissões voluntárias. Feijó afirma que alguns fatores colaboram para tal concentração. “O primeiro deles é que, para esse grupo, o custo de migração tende a ser menor, já que jovens em geral têm menos responsabilidades financeiras, como despesas de uma casa ou com filhos. Isso lhes permite uma maior disposição de migrar de trabalho, caso vislumbre uma oportunidade melhor ou simplesmente não estejam satisfeitos com a atividade que estão realizando”, afirma. Outra característica comum nesse grupo é o fato de, por ser um início de atividade laboral, muitos jovens ainda estão buscando compreender melhor cada ocupação e o que lhe satisfaz no âmbito profissional.
A pesquisadora destaca mais uma característica que vem sendo observada entre os trabalhadores jovens. “Vemos hoje uma geração que chega com exigências e preferências que vão além do vínculo, da carteira assinada”, afirma, indicando que essa característica, anteriormente muito valorizada, atualmente concorre com outras prioridades. “Vemos jovens que hoje se preocupam em como se exerce esse vínculo: com qual grau de flexibilidade, se é preciso respeitar uma hierarquia muito rígida, entre outros questionamentos como os valores éticos de uma empresa”, enumera.
Composição etária das demissões a pedido - 1º Bimestre

Fonte: Caged.
Por outro lado, excesso de rotatividade pode jogar contra o acúmulo de experiência e qualificação que um trabalho pode proporcionar. Para Feijó, esse é um elemento preocupante quando se leva em conta que a escolaridade de mais de um quarto dos trabalhadores brasileiros entre 18 e 29 anos - cerca de 10 milhões de pessoas - chega no máximo ao ensino médio incompleto. “Trata-se de uma defasagem importante, que acaba limitando o horizonte de oportunidades desse trabalhador”, diz, reforçando o alto nível de informalidade observado nesse grupo etário. O levantamento feito por Feijó e Peruchetti mostra que, entre as ocupações que mais concentram o trabalho dos jovens estão balconistas e vendedores de lojas, escriturários, trabalhadores elementares da construção, caixas e recepcionistas. Ocupações, lembra Peruchetti, que são consideradas de baixa complexidade, onde se observa informalidade e baixos salários.
Composição da PIA (%) por escolaridade - Jovens com idade entre 18-29 anos (4º tri 2024)

Fonte: FGV IBRE, com dados do IBGE.
Feijó alerta que esse cenário é especialmente preocupante diante da mudança do perfil demográfico da população brasileira. “Nossa força de trabalho está encolhendo com o envelhecimento populacional, e precisamos capacitar os jovens se queremos ter ganhos de produtividade e mitigar os impactos econômicos desse envelhecimento”, afirma, citando outra questão estrutural ainda não equacionada para suportar essa mudança: o sistema previdenciário. “O fato é que o país perdeu o período do bônus demográfico, quando o ideal era ter acelerado mais do que se conseguiu na melhora da qualificação dos jovens, para evitar uma retroalimentação da pobreza e da desigualdade”, diz, reforçando o diagnóstico de que cada vez se torna mais urgente estimular ganhos de escolaridade e a capacitação dos jovens no Brasil.
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