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20 Mar 2025

Ainda sem “efeito Trump”, saldo comercial brasileiro fecha bimestre menor que em 2024

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Mesmo que no primeiro bimestre as trocas comerciais brasileiras com o mundo ainda não estivessem sob a influência direta das medidas comerciais do governo Donald Trump, o superávit registrado em comparação ao mesmo período do ano anterior foi significativamente menor. O Icomex do FGV IBRE indica que, no acumulado de janeiro e fevereiro de 2025, o saldo foi positivo em US$ 1,9 bilhão, contra US$ 11,3 bilhões no primeiro bimestre de 2024. Em fevereiro, a balança foi deficitária em US$ 0,3 bilhão, contra um saldo positivo de US$ 5,1 bilhões em fevereiro de 2024. As principais influências no agregado do ano foram a queda nas exportações agropecuárias e o déficit comercial com a China.

Lia Valls, pesquisadora do FGV IBRE, afirma que saldos negativos não são incomuns em início de ano, especialmente quando os embarques agrícolas ainda começam a ser realizados. “Isso aconteceu em janeiro de 2020 e de 2019”, exemplifica, citando ainda que para o resultado deste ano contribuiu não apenas a redução do volume e valor exportados como o aumento das importações – em que se destacam a compra de uma plataforma flutuante da China, por US$ 2,7 bilhões, bem como o aumento das compras brasileiras de produtos agropecuários, com alta de 22,6% no bimestre em relação a 2024.

O Icomex indica que o encolhimento das exportações brasileiras neste começo de ano se deu principalmente no volume, com menor diferença na evolução de preços, que tanto no comparativo de 2025/24 quanto de 2024/23 registraram queda. Olhando por setores, a redução nos embarques em relação a 2024 se deu exclusivamente no campo das commodities, com uma retração de 10,3% em valor (que envolve tanto a variação de preços quanto de volume), enquanto em 2024 as exportações de commodities no primeiro bimestre haviam registrado alta de 29,5% em relação a 2023. Os produtos classificados como não commodities, por sua vez, tiveram variação positiva de 21,2% em valor.

Dentro do grupo das commodities – que respondem por 65% das exportações brasileiras –, a maior queda foi entre os produtos agropecuários, com retração de 7,6% no bimestre sobre o mesmo período de 2024, com extrativa recuando 2,5% na mesma comparação.

Exportações para a China no primeiro bimestre de 2025 x primeiro bimestre 2024
(variação %)


 

Exportações brasileiras de café 
(variação %)


Fonte: Secex/Mdic Base: Icomex.

Analisando o comércio por país de origem/destino das trocas brasileiras, alguns movimentos chamam a atenção. Entre eles, o aumento de exportações para nossa vizinha Argentina, em especial no setor de automóveis, de 172% em relação ao primeiro bimestre de 2024, correspondendo a 22% da pauta comercial com o país. Para União Europeia e Estados Unidos, destaca-se a liderança do petróleo bruto – aumento de 1,3% para os EUA, representando 15% da pauta comercial com o país, e de 52,6% para a União Europeia, com participação de 25% no total exportado para esse destino. Valls também chama a atenção para o aumento, em termos de valor, de café para ambos os destinos – 36,5% para os EUA e de 60,3% para a UE. Ela ressalta, entretanto, que esse aumento é exclusivamente resultado do aumento de preços do produto – que também no Brasil foi um dos que mais pressionaram a inflação de alimentos. “No bimestre janeiro-fevereiro, as exportações brasileiras totais de café registraram aumento de 67% em preço, mas queda de 5,2% em volume, resultando uma alta de 58% em valor”, destaca.

Mas é a China que se destaca no resultado do semestre, com uma reversão significativa do resultado quanto comparado a 2024: déficit de US$ 3,2 bilhões no primeiro bimestre deste ano, contra superávit de US$ 5 bilhões no mesmo período do ano passado. A retração nas vendas de commodities, do lado da oferta, e a importação de plataforma do lado das importações explicam o resultado. Lia considera que, diante das boas projeções para a safra brasileira de grãos, esse resultado melhore a partir de março. “Por enquanto, nada na economia chinesa aponta a uma queda de demanda de soja, por exemplo”, afirma. Valls ressalta, entretanto, que as perspectivas de demanda do produto brasileiro podem mudar caso Trump reedite o acordo feito com a China em sua primeira gestão, que garantiam a compra pelo país de cotas mínimas de carne e soja americanas, entre outros produtos. “Para o Brasil, isso implicaria um impacto alto, mas por enquanto não há definições nesse sentido.”

No caso da tarifa de importação de 25% aplicada pelos Estados Unidos a produtos siderúrgicos e de alumínio importados pelo país de qualquer origem, Valls cita no Icomex estudo do Ipea que calcula o impacto negativo dessa medida em 0,01% do PIB e 0,03% das exportações. No caso das exportações totais para os Estados Unidos, o recuo estimado seria de 36,2%.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.