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14 Jun 2024

Em Foco

Experiência internacional para lidar com catástrofes climáticas

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

A catástrofe no Rio Grande do Sul – cálculos preliminares indicam perda de 0,2 ponto no PIB brasileiro e maior pressão sobre os preços, além de piorar as já combalidas contas públicas – começa a ser captada pelas Sondagens do FGV IBRE, como relatou a editora Solange Monteiro em publicação neste Blog. No mês passado, a confiança do consumidor na capital gaúcha despencou 17,7 pontos, para 63,4 pontos, o menor nível desde a pandemia.

Reveja: Sondagens de maio: o impacto das enchentes no Rio Grande do Sul.

No dia 12 de junho, o Banco Itaú, em seu Boletim “Rio Grande do Sul: monitor da calamidade” que faz acompanhamento diário das transações financeiras no estado, através do banco, de cartão de crédito e PIX, pelo indicador IDAT-Atividade, mostra que entre 14 e 16 de maio foram os piores momentos, com forte retração nas transações em serviços, de bens restritos, tirando materiais de construção e veículos, e do IDAT ampliado. No dia 16 de maio, por exemplo, em comparação à média dos sete dias anteriores, o IDAT-Atividade recuou 27,9%. O indicador de bens restritos caiu 11,3%, enquanto o ampliado teve retração de 15,2%. Em junho o banco já notou uma recuperação: no dia 9, apenas o IDAT-Atividade teve queda de 10%. Os demais se recuperaram, com alta de 4,3% e 16%.

As expectativas de que haveria uma forte queda na produção agrícola no Rio Grande do Sul não estão se confirmando. Embora a previsão é que de a safra de grãos no Brasil deva ter uma queda de 7,7%, segundo a Companhia Nacional de Abastecimento – Conab – devido a problemas climáticos – secas e chuvas –, os efeitos da catástrofe do Rio Grande do Sul não serão muito fortes. A maior preocupação era com a produção do arroz, já que o Estado é responsável por 70% da safra brasileira. Como 99,2% da colheita já havia terminado, os impactos serão pequenos. Mas, ssegundo a Conab, as chuvas no Sul vão acarretar uma queda de produtividade média de 2%, entre o oitavo e nono levantamento realizado pela Conab, saindo de uma produção de 6,66 quilos por hectare para 6,5 quilos.

Para a soja – o Rio Grande do Sul é o quatro maior produtor –, deve haver uma quebra de safra de 1,7 milhão de toneladas. Setenta e cinco por cento da safra estavam colhidos, e as chuvas prejudicaram um pouco o fim da colheita. Mas nada tão catastrófico como se esperava. Ou seja: não há grandes motivos para aumentos significativos nos preços dos alimentos, se olharmos os dados das colheitas. O que pode ocorrer é que, com a infraestrutura do Rio Grande do Sul bastante afetada pelas chuvas, haja problemas de escoamento da produção. Só para reconstruir estradas no estado, os gastos previstos estão na casa dos R$ 10 bilhões, que sairão dos cofres públicos: foram mais de 8,4 mil quilômetros de estradas afetadas, segundo dados do governo federal,

No caso da indústria, no II Seminário de Análise Conjuntural (assista o evento), Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro FGV IBRE, ressaltou que com o impacto na produção industrial e no setor serviços no Rio Grande do Sul, a projeção de crescimento do PIB do segundo trimestre foi reduzida de 2% para 1,4% na comparação interanual, o que deve ter um impacto negativo de 0,2 ponto percentual no PIB brasileiro para o ano fechado.

Luciana Costa, diretora de Infraestrutura, Transição Energética e Mudança Climática, em entrevista à Conjuntura Econômica deste mês, já em circulação e com acesso gratuito (acesse a revista), enfatiza que a tragédia no Rio Grande do Sul deverá implicar um aumento dos desembolsos para este ano, jogando mais pressão sobre as já combalidas contas públicas. E faz um alerta: “ O Brasil é altamente vulnerável, e a tendência é de que muito mais catástrofes aconteçam”.

Leia: “Diante de um mundo com pressão fiscal, investir na adaptação das cidades às mudanças climáticas é a melhor decisão”.

Buscar experiências no exterior de ações que deram bons frutos no combate às mudanças climáticas é um bom caminho para aprendermos como lidar com o problema. E é disso que lançam mão os pesquisadores do FGV Ceri, Luiz Firmino Pereira e Rafael Souza, citando o Plano e Programa Delta, depois que, em 1953, os Países Baixos foram atingidos por uma forte tempestade concomitantemente com uma maré alta. A combinação dos dois eventos provocou uma elevação do nível do Mar do Norte ao sul da costa neerlandesa e atingiu em cheio um conjunto de diques enfraquecidos por falta de manutenção. Como resultado, houve o alagamento de uma grande parte do país, conhecido pela sua batalha para domar as águas. Cerca de 9% das áreas de agropecuária foram atingidas, 47,3 mil construções foram danificadas, das quais 10 mil foram destruídas. As perdas fatais estimadas foram de 1.836 pessoas e 187 mil animais. Diante da tragédia, os Países Baixos decidiram formar uma comissão para pesquisar as causas e desenvolver ações para prevenir a repetição de desastres daquele porte. Foram criados dois planos.

O primeiro, o  Plano Delta, foi um plano defensivo contra as inundações. As autoridades tomaram uma série de medidas de engenharia para dirimir os danos de eventos tão danosos. As ações para aumentar a resiliência incluíram o aumento do tamanho dos diques; o bloqueio das saídas dos estuários de três rios, de forma a reduzir a faixa de exposição dos diques ao mar; e a manutenção da abertura das bocas de rios para a preservação da navegação nos portos de Rotterdam e Antuérpia. O Plano Delta não se limitou a obras de engenharia. Ele contou também com uma série de avanços que contemplam medidas legais, ações de governança e protocolos de uso e manutenção.

Firmino e Souza lembram, também, que mesmo com essas ações a natureza não deu trégua. “Novos eventos climáticos registrados na década de 1990 encontraram alguns corpos hídricos assoreados. Veio o alerta de que o Plano Delta deveria ser reexaminado. Estes acontecimentos deram início a algumas reações. Dentre elas, podem-se destacar o programa ‘Espaço para os Rios’, um conjunto de 39 projetos de ampliação da capacidade de escoamento de rios ao custo de 2 bilhões de euros”.

Em 2008 foi anunciada a criação do Programa Delta, influenciada por um impactante relatório publicado pela Segunda Comissão Delta sobre os riscos trazidos pelas mudanças climáticas ao país.  “O programa, também conhecido como o new-style Delta Plan, se antecipa aos desafios anunciados por essas mudanças, como a elevação do nível dos oceanos e aumento da severidade e frequência de fenômenos climáticos extremos”.

Para os autores, “a tragédia do Rio Grande do Sul foi, em extensão, a maior tragédia ambiental já registrada em solo brasileiro. Embora, evidentemente, todos nutram as melhores esperanças de que eventos desta magnitude não voltem a ocorrer, os registros oferecem larga evidência de que fenômenos similares se repetirão. Aprender com as melhores experiências internacionais sobre o que já foi e o que está sendo feito para lidar com estas ameaças certamente irá fazer com que o Brasil poupe tempo, recursos, e vidas, em seu processo de adaptação às mudanças climáticas. O Plano e o Programa de Delta ilustram a importância do planejamento e da governança para a boa execução. E de como as soluções devem atentar para os aspectos sociais, ambientais e os avanços tecnológicos”.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.