Reflexos do envelhecimento da população brasileira na taxa de participação no mercado de trabalho

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Uma das questões que têm chamado a atenção de pesquisadores do mercado de trabalho brasileiro é o fato de, mesmo com o mercado de trabalho aquecido, a taxa de participação, ou seja, a parcela da população em idade para trabalhar que está na ativa ou procura uma vaga, ainda está abaixo do nível observado antes da pandemia de Covid-19. Dos cerca de 9,5 milhões de pessoas que saíram da força de trabalho em 2020, quando eclodiu a crise sanitária, no final de 2024 ainda havia 2,7 milhões de pessoas a menos em relação a 2019, quando a taxa de participação alcançou 63,8% da população em idade ativa (dado do terceiro trimestre daquele ano).
Várias hipóteses têm sido testadas para explicar esse fenômeno, entre as quais o aumento do valor dos benefícios sociais, o que poderia desestimular alguns trabalhadores de voltar ao mercado de trabalho. Na Conjuntura Econômica de maio (acesso gratuito aqui), o economista Bruno Ottoni, especialista sênior da FGV Projetos, demonstra que o envelhecimento dos brasileiros também pode estar por trás desse resultado.
Ottoni destaca que a maior queda de participação entre 2024 e 2019 ocorreu entre os jovens de 14 a 29 anos (-1,1 ponto percentual), para 60,6%, e a dos idosos (65 anos ou mais) subiu 0,3 ponto percentual, para 15,8%, de acordo a dados da PNAD-Contínua do IBGE. “Contudo, a população jovem recuou 2,5 milhões, e a idosa cresceu 4,2 milhões, aumentando o peso desses últimos na população total”, ressalta.
Para verificar essa influência demográfica, Ottoni realiza uma simulação “em que a taxa de participação de cada faixa etária evolui conforme o observado ao longo do tempo, porém, a distribuição demográfica entre os diferentes grupos de idade é mantida constante nas proporções que foram observadas no quarto trimestre de 2019, antes da pandemia da covid-19”. O resultado foi uma diferença de 0,8 ponto percentual acima da taxa real observada no quarto trimestre de 2024. Isso significa, destaca Ottoni, 1,3 milhão a mais de pessoas na força de trabalho, e uma taxa bem mais próxima (63,3%) do patamar pré-Covid (63,8%).
Ottoni conclui que, “embora a participação de idosos no mercado de trabalho esteja aumentando, o crescimento desse grupo na população em idade ativa é tão acelerado que ‘puxa’ a taxa geral para baixo”. Essa conclusão não exclui a contribuição de outros fatores, como o próprio aumento dos benefícios sociais, para essa redução de pessoas na força de trabalho. “No entanto, a simulação sugere que fatores como o envelhecimento demográfico também podem estar contribuindo para que a taxa de participação permaneça até hoje em um nível inferior ao observado no pré-covid”, afirma.
Taxa de participação real e contrafactual entre 2019 e 2024

Fonte: PNAD-Contínua Trimestral (IBGE). Elaboração: Própria.
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