Quadro de desaceleração da economia com inflação pode travar recuperação do rendimento do trabalho

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Há duas semanas, o IBGE apontou que em 2021 o rendimento médio dos brasileiros, considerando todas as fontes, caiu para o menor nível desde o início da série histórica da PNAD Contínua, em 2012.  Cenário que, como apontou o pesquisador Paulo Peruchetti, do FGV IBRE, este ano ainda não apresentou melhora suficiente. Ao Blog da Conjuntura Econômica, Peruchetti indicou que no trimestre móvel encerrado em abril a renda do trabalho estava cerca de 7% abaixo do mesmo período de 2019. Um dos elementos apontados por Peruchetti para justificar esse resultado é a baixa qualidade das vagas criadas no recente movimento de recomposição do mercado de trabalho depois do primeiro choque de Covid-19, oferecendo salários igualmente baixos.

Outro fator de peso nessa equação é a dificuldade dos trabalhadores em conseguir uma recomposição salarial que compense a escalada inflacionária. “A grande oferta de trabalho desocupada reduziu o poder de barganha no setor privado em 2021, levando a uma reposição salarial abaixo da inflação e uma queda gradual desse rendimento em comparação ao final de 2020”, compara Sandro Sacchet, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea. Salários referenciados no salário-mínimo conseguiram alguma proteção, o que coincide com o fato de que entre trabalhadores menos qualificados a evolução da renda do trabalho tenha sido “menos pior”. Recente estudo publicado por Sacchet  mostra, por exemplo, que a queda do rendimento médio habitual individual registrada no primeiro trimestre deste ano em relação ao primeiro trimestre de 2021 é a menor de todas, de 3% - iguala-se à variação observada no penúltimo nível de renda e ganha das demais, especialmente a da mais alta renda salarial, que registrou queda de 8% no mesmo período.  

Sacchet destaca que, mesmo entre os trabalhadores conta-própria, que em 2021 mostraram recuperar-se do baque sofrido no início da pandemia – com uma queda de 16,6% na renda efetiva observada no segundo trimestre de 2020 na comparação interanual –, observou-se queda de -2,9% no rendimento médio efetivo, contra -1,9% no setor privado com carteira assinada, também na análise interanual. “Em tese, como são autônomos, esses trabalhadores podem fazer seu próprio preço, e uma melhor posição para repassar aumentos do que seus empregadores, desde que tenham demanda aquecida”, afirma. Nos dois últimos trimestres de 2021, esse grupo foi o único a registrar variação interanual positiva do rendimento médio real efetivo, com os demais – setor privado com e sem carteira assinada e setor público – marcando retração, depois de um resultado positivo para todos no segundo trimestre do ano passado.

PNAD Contínua: rendimento médio habitual real por faixa de renda
(em R$ de maio de 2021)


Fonte: PNAD Contínua/IBGE. Elaboração: Grupo de Conjuntura da Dimac/Ipea.

 

Taxa de crescimento do rendimento médio real efetivo e habitual, por tipo de vínculo
(variação interanual, em %)


Fonte: PNAD Contínua/IBGE. Elaboração: Grupo de Conjuntura da Dimac/Ipea.

Diante de um cenário de crescimento desacelerando e inflação alta, o pesquisador do Ipea alerta que será mais difícil retomar a reposição salarial. “Mais preocupante ainda é o aumento da proporção de pessoas que relatam estar sem qualquer renda do trabalho devido à pandemia”, diz. No segundo trimestre de 2020, esse grupo havia crescido 6,2 pontos percentuais (pp), estabilizando em torno dos 28,5% o ano. No segundo trimestre de 2021, passou a cair, conforme a recuperação da população ocupada, voltando ao nível pré-pandemia. “No primeiro trimestre deste ano, entretanto, esse grupo já cresceu 1,1 pp, para 23,3%”, indica Sacchet. “Se a expectativa para a atividade no restante de 2022 se confirme como de menor dinamismo econômico, é provável que a recuperação do nível de ocupação não avance e a proporção de pessoas sem renda do trabalho se mantenha acima do nível pré-pandemia”, diz.

Um elemento positivo ressaltado pelo técnico do Ipea dentro desse quadro ainda alarmante é a convergência entre a evolução da renda habitual e a efetiva, o que mostra que, em termos de dinâmica, o mercado de trabalho já dá sinais de ter voltado ao seu comportamento habitual, ainda que com um nível de renda mais baixo. “Em situações normais, geralmente acompanhamos somente a evolução da renda habitual, não tanto a renda efetiva – que, no caso dos trabalhadores com carteira assinada, soma ganhos como 13º salário, adicional de férias, comissões”, explica. “Sazonalmente, a renda efetiva tem um pico no primeiro e quarto trimestres do ano, mas na média acabam registrando uma evolução parecida. Na pandemia, entretanto, enquanto a renda média habitual registrou aumento porque os trabalhadores menos qualificados acabaram saindo do mercado, sendo os mais afetados durante os períodos de restrição mais dura, a renda efetiva teve grande queda, provocando um descolamento”, explica. Reforçando que, com a atividade econômica ajudando, o nível de renda poderá se recuperar também.

Outro destaque no estudo de Sacchet refere-se ao desempenho do rendimento do funcionalismo público. Esse grupo registrou o pior impacto no primeiro trimestre de 2022 com queda da renda habitual e efetiva de, respectivamente, 12,9% e 10,9% o que, por sua vez, explicou parte da queda desigualdade de renda captada pelo índice de Gini, tendo atingido 0,51 para a renda domiciliar do trabalho e 0,481 para a renda individual. Isso se justifica pelo fato de a renda dos servidores estar relacionada à dos domicílios de renda mais alta do país. Como mostra levantamento da pesquisadora do FGV IBRE Janaína Feijó, ainda que o universo dos servidores públicos brasileiros não seja homogêneo, com diferenças salariais importantes entre eles, na comparação entre profissionais com a mesma ocupação do setor público e privado, o prêmio salarial por estar no setor público é significativo. O levantamento feito por Janaína indica que as maiores diferenças se encontram no Amapá (302%), Roraima (237%), Acre (224%) e Rio Grande do Norte (198%). E, as menores, em São Paulo (53%), Maranhão (91,2%) e Minas Gerais (91,5%).

Indicadores de desigualdade do rendimento habitual de todos os trabalhos:
renda individual e domiciliar (Índice de Gini)


Fonte: PNAD Contínua/IBGE. Elaboração: Grupo de Conjuntura da Dimac/Ipea.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

Subir