Em Foco

O gosto amargo

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

No domingo último, peguei o metrô com destino ao Leblon para encontrar minha filha e genro. Vieram ao Rio, moram em Niterói com os filhos. Eles pedalam praticamente todos os dias, inclusive nos finais de semana, e tiraram o final de semana para se dedicarem inteiramente aos meus três netos – tenho mais uma, que mora em São Paulo –, com direito a jantar na sexta, praia no sábado, almoço e teatro à noite. Uma farra.

Quando estava almoçando com eles, depois de uma espera de uma hora e meia para conseguir uma mesa em um bar/restaurante do Leblon, apinhado de gente aguardando, me lembrei de uma jovem no metrô, com um filho pequeno, de uns 4 anos, vendendo balas de menta. Dizia que estava desempregada, que tinha enviado currículos para uma infinidade de lugares e que tinha outro filho menor, que ela ainda amamentava. Pedia qualquer ajuda. Teve sucesso, pois as balas acabaram rapidamente. Seu filho, ao receber uma nota de dois reais, correu para entregar à mãe, cheio de orgulho: “mãe, veja, estamos ficando ricos”. Lembrança que me deixou com um gosto amargo, sentado em um local com um dos metros quadrados mais caros do país. Assim como ela, há uma crescente legião de pessoas pedindo ajuda, um prato de comida, morando nas ruas, sem emprego. É só sair de casa para ver gente enrolada em cobertores, dormindo sob pedaços de papelão. De onde moro até o metrô, são uns 400 metros. Contei mais de dez nessa situação. Se tornou uma coisa corriqueira pelo país afora.

Essa semana, saíram os dados da Pnad Contínua, calculada pelo IBGE. A taxa de desemprego, se for levado em conta o trimestre móvel encerrado em abril último, recuou para 10,5% – estava em 11,5% no trimestre anterior encerrado em janeiro. Toda melhora é um alento, embora ainda existam cerca de 11,3 milhões de pessoas desempregadas, conforme os dados da Pnad.

Apesar do resultado positivo, puxado pela volta de atividades que foram fortemente afetadas pela pandemia, especialmente o setor de serviços, que tem uma participação da ordem de 70% do PIB, ainda vivemos uma situação bastante preocupante com relação ao mercado de trabalho.

Paulo Peruchetti, pesquisador do FGV IBRE, aponta dois fatores que têm contribuído, negativamente, para que milhões de pessoas continuem desempregadas.

• No final do ano passado tínhamos cerca de 3,5 milhões de pessoas procurando emprego há dois anos ou mais – o que corresponde a quase 29% do total de desempregados (leia mais). Pessoas essas que, por estarem tanto tempo fora do mercado de trabalho, acabam tendo muitas dificuldades para conseguirem um emprego. Na maioria dos casos, quando arrumam uma colocação, se sujeitam a salários bem mais baixos.

• Outro ponto que merece destaque é a dificuldade de recuperação da taxa de participação – é a proporção de pessoas qualificadas para participar da força de trabalho que realmente participam dela trabalhando ou procurando trabalho –, em função da recuperação mais lenta da força de trabalho. Após queda muito forte durante o período mais crítico da pandemia, tem havido uma recuperação gradual, mas ainda distante dos patamares observados antes da pandemia. No trimestre móvel encerrado em abril último, a taxa de participação foi de 62,4%, cerca de 2,1 pontos percentuais menor do que no mesmo período de 2019, que havia sido de 63,6%, o que mostra certa dificuldade de absorção de pessoas na força de trabalho.

Taxa de desemprego


Fonte: IBGE – FGV IBRE.

Mas se a taxa de desemprego esboça uma melhora, a renda do trabalhador está em níveis historicamente baixos. Peruchetti lembra que “no trimestre móvel encerrado em abril deste ano o rendimento de 2.569 reais estava cerca de 7,1% abaixo do mesmo período de 2019, quando era de 2.768 reais. A queda pode ser explicada pela inflação e por uma mudança na composição na mão-de-obra com a volta dos trabalhadores informais e menos escolarizados, que no período mais crítico da crise haviam sofrido mais com a queda do emprego e que, em média, recebem menos que os demais trabalhadores formais e mais escolarizados. Este cenário de aumento do emprego e queda de renda demonstra certa fragilidade na criação de vagas no mercado de trabalho”.

Insegurança alimentar: em 2021, 36% dos brasileiros não tiveram dinheiro para se alimentar ou a sua família em algum momento.

Rendimentos


Fonte: IBGE – FGV IBRE.

Ontem, 2/6, saíram os números do PIB do primeiro trimestre deste ano. Como já era esperado, a economia engatou uma recuperação nesses três meses pela volta à quase normalidade, depois de ficar emperrada durante a fase aguda da pandemia. O PIB cresceu 1% sobre o último trimestre de 2021, praticamente o mesmo número estimado pelo Boletim Macro IBRE de maio (0,9%).

Qualquer crescimento deve ser comemorado, ainda mais depois da fase mais crítica da pandemia, com a guerra na Ucrânia que já completa mais de 100 dias, da inflação disseminada pelo mundo e das projeções de menor crescimento mundial. Mas, se colocarmos uma lupa nos números, eles não são muito favoráveis. Silvia Matos, coordenadora do Boletim e pesquisadora do FGV IBRE, sinaliza alguns pontos:

• O PIB positivo do primeiro trimestre pode ser explicado por fatores temporários, como a reabertura da economia, a normalização do consumo do governo e a expressiva contribuição externa. O consumo das famílias cresceu 0,7%, o do governo 0,1% e as exportações 5%.

• A desaceleração da economia mundial, que vem sendo observada com o aumento dos juros para conter a inflação, terá impactos por aqui.

• O investimento caiu 3,5% no primeiro trimestre do ano. O que é péssimo para um crescimento sustentável.

• Apesar do número positivo, o PIB no ano dever ficar ainda abaixo de 1%. O mercado estava mais otimista e revendo as previsões para o ano para cima, mas a estagnação da demanda doméstica privada no trimestre deve levar a novas revisões, mas mais para baixo.

• Não dá para comemorar um crescimento da economia este ano – o PIB deve crescer cerca de 0,9%, o que é uma taxa medíocre –, sem olharmos os grandes desafios que já estão se acumulando para 2023.

Se olharmos o gráfico abaixo, vemos que estamos engatinhando, presos na cilada do baixo crescimento. Algumas vezes, negativo.

Variação trimestral do PIB
(em relação ao trimestre anterior – %)


Fonte: IBGE.

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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