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24 Abr 2025

Política de Trump ainda não prejudica crescimento do Brasil em 2025. Boletim Macro aponta alta para PIB e exportações

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A guerra comercial incentivada pela política tarifária de Donald Trump ainda não afetou as estimativas para a atividade econômica brasileira em 2025. É o que aponta a edição de abril do Boletim Macro do FGV IBRE. No Boletim, a projeção de alta para o PIB de 2025 aumentou de 1,7% para 1,9%. Em entrevista para o Valor Econômico (acesso restrito a assinantes do jornal), a coordenadora do Boletim Silvia Matos destacou a força da demanda interna, com revisão para o crescimento do consumo das famílias (1,2% para 1,8%). Do lado da demanda, também as exportações tiveram revisão positiva, de 3% registrado no Boletim de março para 4,2%. Para o saldo comercial, entretanto, a expectativa se mantém de um resultado menor do que em 2024. Pela perspectiva da oferta, a estimativa para a indústria se manteve estável em 2%; para os serviços, subiu 0,4 ponto percentual (p.p.), para 1,5%, e para a agropecuária houve recuo de 1 p.p., para 5,7%, influenciada pelo setor de carnes.

No campo externo, Lia Valls, pesquisadora associada do IBRE, destacou que os ganhos possíveis para o Brasil sob o contexto da guerra tarifária se concentram no setor agropecuário. “Na transformação, se os países asiáticos, exceto China, continuarem com tarifas de 10%, os ganhos em calçados e vestuário, muitas vezes citados, podem não ocorrer”, afirma. Ainda assim, Valls alerta sobre o risco de a adequação tarifária entre China e Estados Unidos acontecer repetindo as condições observadas no acordo feito entre os países no primeiro governo de Trump, quando a China se comprometeu em ampliar as compras agropecuárias de origem americana – o que não se cumpriu devido à pandemia. Isso, destaca, poderá prejudicar o Brasil.

O Icomex do FGV IBRE aponta que em março a balança comercial brasileira ainda não sentiu os efeitos das medidas de Trump. O saldo da balança comercial nesse mês foi de US$ 8,2 bilhões, US$ 1 bilhão maior do que em igual período de 2024. O destaque no mês foi o resultado superavitário com a China, depois de dois meses de déficit, o que leva a uma redução do superávit com esse país na comparação do primeiro trimestre deste ano com o mesmo período de 2024, de US$ 8,7 bilhões para US$ 745 milhões. Para esse resultado, contribuíram uma queda tanto de volume exportado (-5,9%) quando de preços (-8,2%). Os envios de soja que ainda acontecerão nos próximos meses, entretanto, devem contribuir para uma melhora do superávit, aponta Valls. No agregado das exportações, o Icomex aponta que “a melhora no desempenho da agropecuária em relação aos meses de janeiro e fevereiro de 2025 está associada às exportações de soja, que cresceram em volume (16,5%) e explicaram 70% das exportações da agropecuária em março”.

Evolução (%) das projeções para o PIB Brasil 2025 
Boletim Macro IBRE


Fonte: FGV IBRE.

Em sua análise, Valls reforça que as perspectivas para a balança comercial em 2025 ainda estão dependentes de como a política tarifária de Trump evoluirá, e qual será a reação dos demais países. No Boletim Macro, a pesquisadora destaca as diversas análises que apontam erros na política comercial de Trump – Samuel Pessôa e Livio Ribeiro, do FGV IBRE, têm contribuído a esse debate –, e a tendência de que comportamentos erráticos como os observados tendam a “enfraquecer o poder dos Estados Unidos na arena internacional”. Ela lembra, por exemplo, os impactos já observados dessa política na área monetária e financeira, “com percepção de aumento de risco nos títulos do governo e no porto seguro do dólar”. E complementa:

“Por último, é bom lembrar a assimetria das posições entre China e Estados Unidos. A participação da China nas exportações dos Estados Unidos é de 7,5%, e nas importações, de 17%. A participação dos Estados Unidos nas importações chinesas é de 6,6%, e nas exportações, de 16,2% - dados do Banco Mundial de 2022. Demora relativamente menos à China encontrar novos mercados para os seus produtos do que os Estados Unidos substituírem os seus fornecedores chineses.”

Saldos Comerciais em US$ bilhões: primeiro trimestre 2024 e 2025


Fonte: Secretaria de Comércio Exterior/MDIC.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.