PIB 2023: não há surpresas no segundo semestre para conter a desaceleração

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Novos dados da economia brasileira corroboram que as surpresas positivas para o PIB de 2023 ficaram concentradas no primeiro semestre, e que não há carta na manga para conter a desaceleração já esperada para esta segunda metade do ano. Dados do Monitor do PIB divulgados ontem (21/11) indicam uma atividade estagnada no terceiro trimestre em comparação ao segundo, com setembro apontando a uma retração de 0,6% em relação a agosto. “Esse é um reflexo da fragilidade da sustentação do crescimento da economia brasileira”, diz Juliana Trece, coordenadora do Monitor do PIB. 

Nesta edição do Monitor – que incorpora a revisão do PIB de 2021 pelo Sistema de Contas Nacionais (SCN) do IBGE, de 5% para 4,8%, e a elaboração de uma nova estrutura de pesos para 2022 a partir desses dados –, destaca-se a desaceleração da agropecuária e do setor de serviços. Ainda que não afetado pelo ciclo da política monetária, o agronegócio tem sua maior pujança concentrada nas safras de grãos do primeiro trimestre, o que justifica tal desaceleração. Já o setor de serviços, que está contido no grupo de atividades que fazem parte do chamado PIB cíclico, mais sensível à trajetória da Selic, dá sinais de que não repetirá o papel que teve na normalização da atividade pós-pandemia, quando representou um importante impulso para o PIB. “Vemos uma desaceleração importante em segmentos como “outros serviços”, grupo onde estão muitos serviços prestados às famílias como de bares e restaurantes a saúde e educação privados”, diz Juliana. Outro destaque negativo foi o setor de transportes, que se beneficiou desempenho do agro na primeira metade do ano, e no terceiro trimestre apresentou com retração de 2% em relação ao trimestre anterior. O único segmento que registrou a melhor variação do ano em relação ao trimestre anterior foi o de serviços imobiliários, com 0,9%.

Composição (em p.p.) da taxa de variação trimestral interanual do Consumo das famílias - %


Fonte: Monitor do PIB, FGV IBRE.

A perda de fôlego dos serviços também pode ser observada do lado da demanda, no consumo das famílias. Ainda que este se mantenha variando no terreno positivo, também apresenta desaceleração, com redução da participação dos serviços.  Enquanto no terceiro trimestre de 2022 a fatia dos serviços representava 78% do crescimento do consumo das famílias, que então havia crescido 4,3% na comparação interanual, no terceiro tri deste ano essa contribuição caiu para 48%, para um crescimento também menor, de 2,5%. Juliana considera que fatores como inflação controlada, mercado de trabalho resiliente e com maior participação do trabalho formal – o que implica mais renda no fim do ano, com o décimo-terceiro salário –, e a oferta de renegociação de dívidas do programa Desenrola, com possibilidade de retorno dos hoje inadimplentes ao mercado de crédito, a tendência é de que a demanda das famílias ainda se mantenha este ano. “Mas é um cenário que nos mantêm em observação”, afirma.

O principal ponto de preocupação adiante é a situação do investimento, diz Juliana, reforçando o alerta dado na divulgação do Monitor de outubro (leia aqui). O Monitor aponta queda de 5,3% na Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) no terceiro trimestre em relação ao mesmo período de 2022, devido quase exclusivamente ao segmento de máquinas e equipamentos, ainda que também o setor da construção tenha registrado resultado negativo, aponta o Monitor. “Além de considerar que a taxa de investimento brasileira é historicamente baixa, esse comportamento chama a atenção porque mostra que nossa capacidade produtiva futura, e a expansão econômica advinda desta, podem estar comprometidas diante de um resultado tão ruim”, afirma.

Taxa trimestral
(em relação ao trimestre imediatamente anterior %) 


Fonte: Monitor do PIB, FGV IBRE.

Projeção de PIB mantida

Em prévia do Boletim Macro do FGV IBRE de novembro, dada com exclusividade ao Valor Econômico (leia aquiacesso restrito a assinantes do jornal), Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro, apontou que o IBRE prevê contração de -0,1% no PIB do terceiro trimestre. Para o ano de 2023, foi mantida a projeção de crescimento de 2,7%, e de 1,2% para 2024.

Na entrevista, Silvia destacou um carregamento estatístico de -0,2% da agropecuária para o próximo ano, indicando que após crescer quase 15% em 2023, espera-se uma expansão de 1,7% do setor em 2024. Isso, afirmou, se não houver comprometimento das safras de soja e milho por questões climáticas – o que poderia levar o PIB brasileiro a menos de 1% no ano que vem.

 


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