O imbróglio do endividamento

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Como tenho escrito nesse espaço, o endividamento das famílias brasileiras é um enorme imbróglio que o próximo presidente terá pela frente. Nos últimos anos, o consumo das famílias tem garantido crescimento do PIB, mesmo que modestos. A inadimplência tem subido de uma forma generalizada, mas é maior nas camadas de mais baixa renda que buscam empréstimos sem garantia, já que muitos estão na lista negra do SPC, com juros bem mais elevados.

Esse quadro é ainda mais preocupante se olharmos outro trabalho, esse sobre a pobreza no Brasil, dos pesquisadores do Insper, Ricardo Paes de Barros, o PB, Laura Muller Machado e Laura Almeida Ramos de Abreu. Depois de um período de prosperidade, com redução da pobreza, a partir de 2014 esse quadro começou a virar de ponta cabeça, e os mais pobres que na última década foram os que mais ganharam, agora são os que mais perdem. Nos últimos 7 anos a perda dos 10% mais pobres é de 7,5% per-capita ao ano. A expansão econômica tem sido acompanhada do aumento da pobreza, sinal claro de que o país não está conseguindo compartilhar a prosperidade com os mais pobres.

A decisão de liberar empréstimos consignado aos beneficiários do Auxílio Brasil, é outro elemento que pode levar a uma sensível piora desse quadro de endividamento, já que são os mais pobres que vão em busca desses créditos, com juros altíssimos. Nos próximo meses, saindo estatísticas, saberemos o impacto disso sobre a renda dessas pessoas.

Relembre: A cara da pobreza mudou.

Mas voltando a questão do crédito, dados do Sistema Central de Riscos do Banco Central referente a julho, último dado disponível, mostravam que as pessoas com alta renda concentravam 49% dos quase R$ 3 trilhões da carteira de crédito de pessoas físicas, enquanto só 19% eram de baixa renda. Mas era nessa faixa de renda que se concentrava o maior percentual de inadimplentes, 37%, enquanto 24% eram de alta renda. A taxa de inadimplência na faixa de baixa renda atingiu em julho de 2022 os níveis elevadíssimos de 10%, 13% e 13%, respectivamente, em linhas sem garantia como empréstimo pessoal, cartão de crédito e “outros” (onde está o cheque especial). Já para a alta renda, as mesmas taxas no mesmo mês foram de, respectivamente, 3%, 3% e 4%.

 Em setembro, o país tinha 68,4 milhões de pessoas com algum tipo de dívida, nível recorde, segundo dados do Serasa Expirian. Para procurar entender melhor o que acontece nesse mercado de crédito, onde a pandemia aprofundou o fosso entre ricos e pobres, pesquisadores do FGV IBRE mergulharam a fundo em uma base de dados do Banco Central, o Sistema Central de Riscos (SCR), que disponibiliza uma infinidade de informações valiosas, mas que precisam ser juntadas e analisadas. E foi isso o que uma equipe de pesquisadores se debruçou nos últimos meses.

Os resultados desse esforço é o tema da Carta do IBRE deste mês. Também foi manchete do jornal Valor Econômico do último dia 8, depois de uma apresentação do grupo do IBRE encarregado de esmiuçar a base da dados do BC, aos editores e direção do jornal.

Alguns dos principais pontos que os pesquisadores trouxeram à tona.

• Os produtos sem garantia, com taxas de juros mais elevadas, cresceram mais fortemente que os garantidos desde a pandemia. Tomando como base janeiro de 2020, as linhas garantidas cresceram em volume, até julho de 2022, 40%, enquanto as sem garantia tiveram expansão de 64,5%.

• Esse fenômeno, por sua vez, foi mais forte para a população de baixa renda do que para a alta renda. No caso do primeiro grupo, o aumento do volume de crédito sem garantia naquele período foi de 73%, e o com garantia de apenas 17%. Já na alta renda, o crescimento foi próximo: 49% para o sem garantia, e 40% para o garantido.

• No período compreendido entre janeiro de 2020 e julho de 2022, no segmento da baixa renda, houve aumento de 68,5% no endividamento em cartão de crédito e de 131% no empréstimo pessoal sem garantias. Fundamental notar que essas são as duas mais caras linhas de crédito disponíveis no país.  Em julho de 2022, o saldo das operações com cartões para a baixa renda atingiu R$ 114,3 bilhões, e o das operações de empréstimo pessoal chegou a R$ 46,9 bilhões. Já a inadimplência da baixa renda nessas duas modalidades oscilou bastante desde o início da pandemia, mas vem subindo preocupantemente no período mais recente. A do cartão de crédito saiu de 7% em maio de 2021 (mínima mais recente) para 13% em julho de 2022. E a dos empréstimos pessoais foi de 6% em outubro de 2021 para 10% em julho de 2022.

• O panorama na alta renda é distinto. Entre janeiro de 2020 e julho de 2022, o crescimento da dívida nas modalidades de cartão de crédito e empréstimos pessoal sem garantias foi de, respectivamente, 56% e 62%, atingindo os níveis de R$ 187,9 bilhões e R$ 120,6 bilhões. Já a inadimplência trafegou em níveis muito mais baixos do que os relativos aos da baixa renda, a despeito de ter tido alguma alta recente. A inadimplência referente a cartões de crédito para a alta renda saiu de 2% para 3% entre janeiro e julho de 2022, enquanto a do crédito pessoal seguiu a mesma trajetória, mas a partir de fevereiro deste ano.

• Entre a população de baixa renda, os perfis com renda mais volátil contraíram empréstimos mais concentrados nos produtos sem garantia, e apresentam maior inadimplência. Considera-se que os clientes com renda menos volátil são funcionários da iniciativa privada, servidores públicos e aposentados. As demais categorias foram classificadas como de renda mais volátil.

• A carteira referente ao grupo de alta volatilidade de renda tem 37% do volume em produtos sem garantia, contra 26% para aquela referente ao grupo de baixa volatilidade de renda. A taxa de inadimplência do grupo de alta volatilidade é de 7%, composta por taxa de 13% nos produtos sem garantia e de 3,3% nos garantidos. No grupo de baixa volatilidade de renda, os mesmos indicadores são de, respectivamente, 4%, 9% e 2,7%.

Crescimento da Carteira – Alta Renda


Fonte: Banco Central e FGV IBRE.

 

Crescimento da Carteira – Baixa Renda


Fonte: Banco Central e FGV IBRE.

Ver a íntegra da Carta do IBRE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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