Na China, desafio para a economia não é a inflação

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Enquanto nas principais economias do Ocidente os bancos centrais começam ou se preparam para reduzir balanços patrimoniais preocupados com o combate à inflação, na China a pressão dos preços ainda não é limitante para o governo trabalhar seu pacote de estímulos fiscais e monetários em busca de uma reação mais consistente da economia.  “A inflação realmente não é, neste momento, uma questão prioritária no debate econômico chinês, mas sim a carência de demanda e os riscos ao crescimento em 2022”, diz Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, sócio-diretor da consultoria BRCG.

Em maio, a inflação ao consumidor recuou 0,2%; em 12 meses, soma 2,1%. Ribeiro destaca que tanto serviços como o núcleo ex-alimentos e energia permanecem estáveis, e os preços de bens registram deflação de -0,3%. No caso da inflação ao produtor, o pesquisador aponta que as principais aberturas do PPI chinês indicam manutenção da tendência de desaceleração de preços no acumulado de 12 meses. Em maio, o avanço foi de 0,1%, reduzindo a inflação acumulada em 12 meses para 6,4%. “Como se tem observado nos últimos meses, a correlação histórica entre o PPI chinês e os preços internacionais de commodities se quebrou, com picos descasados e, neste momento, repasse limitado da atual aceleração (interanual) dos preços internacionais”, afirma.

Inflação China (%) – aberturas selecionadas


Fonte: NBS Elaboração: BRCG.

 

Concessões de crédito
(acumulado em 12 meses)


Fonte: PBoC. Elaboração: BRCG.

Como mostra a matéria de capa da Conjuntura Econômica deste mês, a expectativa sobre a reação da economia chinesa – cuja atual projeção de crescimento para 2022 está mais que 1 ponto percentual abaixo da meta inicial do governo, de 5,5% – está posta no comportamento das famílias a partir da flexibilização das medidas sanitárias impostas pelo governo nos últimos meses para conter o avanço da ômicron. Os dados relacionados à concessão de crédito amplo mostram um desempenho positivo em maio, com expansão de 42,9%, depois de uma queda de 51% em abril, em termos interanuais. Uma devolução que ainda é parcial, cujo ritmo de recomposição também pode ser afetado por novos focos de contágio, seguidos por outras rodadas de restrições. “Em meados de junho, Xangai está, de novo, sob lockdown, ainda que menos restrito, e no mercado de crédito ainda há notória incapacidade de estimular as concessões bancárias, ao menos no nível desejado pelo governo”, afirma Ribeiro. Ele ressalta que a bateria de dados de alta frequência de maio se mostrou menos negativa do que a observada em abril. A produção industrial cresceu 0,7% em termos interanuais. A retomada se concentrou na indústria de transformação, mas ainda preocupa o desempenho das indústrias de base, aponta o pesquisador, destacando a  forte contração interanual da produção de cimento, de -16,6%. Na mesma comparação, a produção de aço registra -2,9%. Já as vendas no varejo real (deflacionado pelo IPC chinês) contraíram -8,6% interanual em maio, ampliando sequência de resutlados negativos observada desde meados do primeiro trimestre do ano. 

No setor imobiliário e de construção, a reação é positiva, mas lenta. Em termos interanuais, as vendas imobiliárias registrou redução do nível de contração, para -31,8% (contra -39% em abril), e novas construções saiu de um resultado de -44,2% nos 12 meses fechados em abril para -41,8% em maio. Já o investimento imobiliário saiu de uma queda interanual na casa dos10% em abril para 7,8% no último mês. "Os indicadores de investimento e construção de maio confirmam desempenhos distintos entre o investimento total e aquele diretamente ligado à incorporação imobiliária, reforçando nosso prognóstico de que a política anticíclica já está em operação para minimizar a desaceleração da atividade em curso", diz Ribeiro. "Mas atingir a meta de crescimento do PIB de 5,5% continua sendo virtualmente impossível."  A estimativa atualizada de Livio Ribeiro para o PIB chinês é de retração de 0,6% no segundo trimestre e crescimento de 3,8% em 2022. 

O economista reforça o diagnóstico dado à Conjuntura Econômica, de que parte da lentidão da reação do consumo das famílias chinesas se dá pela necessidade de estas recuperarem parte da poupança que tiveram de usar para enfrentar a pandemia, já que o pacote de estímulos operado pelo governo chinês não incluiu medidas como o auxílio emergencial brasileiro, concentrando-se no lado da oferta. “Dados recentes apontam um crescimento significativo da poupança das famílias nos últimos meses, o que pode estar relacionado à grande compressão de consumo que é observada, seja por questões precaucionais diante do alto nível de incerteza, seja pela necessidade de recomposição a poupança usada para vencer o momento mais agudo da pandemia – que, no caso da China, se repete”, reforça Ribeiro.

Geopolítica, BRICS e Brasil

Outro elemento que poderá afetar o ritmo de crescimento chinês, ainda que não a curto prazo, é a confirmação de uma reconfiguração das cadeias globais de valor, postas em xeque diante dos choques da pandemia e da guerra na Ucrânia. Se do ponto de vista comercial esse cenário tumultuado recentemente tem favorecido o Brasil, com a elevação do preço de commodities superando a queda do volume de vendas à China no acumulado até abril, no campo diplomático demandará mais atenção. A principal agenda brasileira nesse campo é a 14ª Reunião de Cúpula do Brics, com a China à frente da presidência rotatória do bloco que reúne Brasil, Rússia, Índia China e África do Sul. Nas reuniões que antecedem a cúpula, o governo chinês já expressou o interesse de unir mais países ao bloco de forma permanente, tal com foi feito com a África do Sul, estratégia interpretada por Mauricio Santoro, professor da Uerj, como uma tentativa fortalecimento da posição internacional da Rússia e da própria China, diante de um contexto hostil alimentado pelo conflito na Ucrânia. Essa ampliação já tem se dado no Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco do Brics, sediado em Xangai, que conta com a adesão de quatro países: Uruguai, Emirados Árabes Unidos, Bangladesh e Egito.

Em recente webinar promovido pelo Cebri, Ana Maria Bierrenbach, coordenadora-geral de mecanismos inter-regionais e Sub Sherpa do Brasil para BRICS e IBAS, comentou que esse desejo de ampliação não é novo – em 2017, inclusive, foi batizada de a ideia de um Brics Plus, com o convite formal de participação de outros países às reuniões da cúpula de líderes. “Este ano, entretanto, estamos negociando um documento proposto pela presidência chinesa que propõe uma parceria mais extensa. Mas essa ampliação em caráter permanente o Brasil vê com cautela. Vivemos um momento de grandes turbulências e incertezas, seria precipitado e temeroso antecipar uma decisão nesse sentido. Ainda que continuemos apoiando uma ampliação do diálogo e maior institucionalização do Brics”, afirmou.

No webinar, o ex-embaixador do Brasil na China Marcos Caramuru, conselheiro consultivo internacional do Cebri, apresentou um estudo contratado pela embaixada chinesa ao Cebri que aponta a percepção da sociedade brasileira quanto ao Brics. O documento congrega as opiniões de representantes da academia, setor privado, setor públicos e sociedade civil, e servirá como subsídio ao governo chinês neste ano que está à frente do bloco. “Em linhas gerais, o estudo mostra que o Brics segue despertando interesse da sociedade, mas que há a percepção de que falta mais transparência e mecanismos de acompanhamento das decisões e proposições”, afirmou.

O resultado do levantamento aponta a visão de que o Brics precisa de maior definição sobre os objetivos que busca atingir – “além ampliar poder de voto nos organismos financeiros internacionais, o que foi conseguido”, ressaltou Caramuru –, e há a expectativa de que trabalhe na busca de novas oportunidades de cooperação. “As áreas de maior destaque mencionadas foram transição e segurança energética, sustentabilidade e transição digital”, citou. O documento também tratou do banco dos Brics (NDB). As observações, nesse caso, apontaram sobre a necessidade de aporte novo voltado ao  desenvolvimento de infraestrutura sustentável, a importância do órgão para o empréstimo em moeda local, reduzindo risco cambial, e a participação no esforço, já em curso, de coordenação entre instituições nacionais de financiamento do desenvolvimento. “O NDB pode ampliar o seu papel, tornando-se uma unidade de reflexão e proposição de ideias, essencial para atrair o setor privado para a agenda dos Brics”, afirmou Caramuru, o que trabalharia a favor da continuidade dos projetos dentro do bloco, que hoje podem ser alterados conforme muda-se a presidência temporária.

Quanto à possível mudança do cenário internacional, Caramuru afirmou que as observações reunidas no estudo levam à identificação do Brics como um canal para os países membros enfrentar essa nova realidade, em que o multilateralismo deve perder força, e cada país tenda a buscar o bilateralismo para executar sua agenda externa.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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