“Seja qual for o governo brasileiro em 2023, terá que lidar com um cenário diplomático tenso”, afirma Mauricio Santoro

Mauricio Santoro, professor Uerj

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

No livro Brazil–China Relations in the 21st Century, the Making of a Strategic Partnership (editora Palgrave MacMilllan), lançado este ano, o professor de Relações Internacionais da Uerj Mauricio Santoro mostra como países em posições intermediárias na liga mundial, entre os quais o Brasil, precisam estar preparados às voltas que a geopolítica dá. Os Estados Unidos que na década de 1970 se aproximou diplomaticamente da China para conter a União Soviética – movimento-chave na decisão brasileira de estabelecer relações com Pequim em 1974, no governo de Ernesto Geisel – hoje reforçam sua posição no lado oposto do campo, para o qual migraram desde o crescimento chinês como potência econômica. “Qualquer presidente que assumir o Brasil em 2023 terá que levar em conta o aumento das tensões entre Estados Unidos e China, reconhecendo a centralidade de ambos nos temas brasileiros envolvendo comércio exterior e investimentos”, diz Santoro, nesta conversa em que trata da conjuntura chinesa.

São frequentes as análises de que o Ocidente não está sabendo interpretar a conjuntura chinesa sobre temas como popularidade da política de Covid-zero, perspectivas de crescimento e posição chinesa em relação à guerra na Ucrânia. Concorda com essa avaliação?

A pandemia restringe viagens, e certamente há menos pesquisadores, empresários, ocidentais em geral observando in loco o que acontece. Por ora, o que temos é uma certa compreensão das direções gerais do governo. Estamos vendo que a tendência da política econômica de Xi Jinping, em especial a partir do início da pandemia, é um nível maior de controle do Estado sobre a economia e o setor privado. Particularmente, em algumas áreas-chave como o setor imobiliário e o de tecnologia da informação. E isso levou a questionamentos e a um cenário de incerteza econômica. 

Outro ponto que está bastante claro é a ênfase do governo chinês em manter a política de Covid-zero, usando lockdowns rigorosos, apesar da disponibilidade de vacinas que permitiriam políticas mais flexíveis. Mas ele se ateve ao que funcionou para no início da pandemia, mas que hoje é bem mais complexo, pois há variantes mais contagiosas, como a ômicron, difíceis de controlar simplesmente com isolamento. E também pelo desgaste psicológico-emocional das pessoas depois de dois anos de pandemia. As pessoas querem voltar para sua vida cotidiana, social. E isso tem consequências. 

Em relação à guerra na Ucrânia, qual considera o melhor desfecho para a China, diante de seu alinhamento com a Rússia?

A guerra colocou uma série de problemas para a China. Mesmo sendo aliada política próxima da Rússia, o país não está dando carta branca para a Rússia fazer o que quiser na Ucrânia. Por exemplo, não tem dito que a Rússia tem direito de conquistar territórios naquele país, e não está ajudando a Rússia militarmente, como ocorre com estados Unidos e Europa na Ucrânia. 

No caso chinês, o apoio tem se dado pela via econômica, abrindo mercado a produtos russos, compensando perdas que a Rússia vem somando por causa das sanções. E, até certo ponto, com apoio político em fóruns multilaterais, tentando evitar punições rigorosas contra a Rússia. Seu apoio tem se colocado mais pelo discurso de que a guerra é um problema, mas o culpado é o Ocidente. Mas isso acontece em meio a muitos problemas. Há vozes dissonantes na sociedade chinesa, entre formadores de opinião, acadêmicos, diplomatas, que estão fazendo críticas maiores à Rússia, e tendo suas declarações retiradas da internet chinesa, sofrendo algum tipo de restrição. Mesmo dentro da elite do país há a percepção de que a aliança com a Rússia tem custo econômico alto. Um grande exemplo foi em abril, quando surgiram rumores de que a China ajudaria militarmente a Rússia, e a resposta foi uma queda recorde nas bolsas de valores chinesas.

Desde a pandemia há o debate sobre uma redefinição das cadeias globais de valor, que se acentuou com a guerra. Como avalia a possibilidade de mudança significativa na ordem que vemos hoje?

Tivemos recentemente dois grandes choques de desglobalização: a pandemia e as sanções contra a Rússia devido à guerra. Isso está levando uma série de governos e empresas do Ocidente a repensar uma dependência que hoje parece excessiva com relação à China e à Rússia, tanto pela hostilidade política envolvendo esses países e o Ocidente, quanto pela segurança de abastecimento como o energético, no caso da Europa em relação à Rússia, ou de insumos básicos para a política de saúde dos Estados Unidos em relação à China. Mas não é fácil reduzir essa dependência. Nos últimos 30 anos, desde o colapso da União Soviética e a abertura comercial chinesa, houve uma nova divisão internacional do trabalho, com o movimento das indústrias para países em desenvolvimento, com desindustrialização na Europa e Estados Unidos, e consequências políticas.  Movimentos populistas como o Brexit na Inglaterra e o governo Trump nos EUA são exemplos disso, estão relacionados a um sentimento de insegurança de uma classe média-baixa operária com trabalho precário.

A pergunta que ficará por responder é se estamos vendo uma mudança de longo prazo que efetivamente vai se aprofundar nos próximos anos, gerar algum tipo de globalização mais controlada, ou se observaremos alguns espasmos diante da emergência e das crises, mas com um retorno ao habitual. Por enquanto, diria que estamos diante de uma mudança mais profunda.

Qual a estratégia da China diante dessa revisão do multilateralismo que nas últimas décadas colaborou para seu crescimento econômico?

O que a China tem tentado fazer nos últimos anos é reduzir sua dependência do comércio exterior, tentando aumentar a participação do consumo doméstico no PIB e a autossuficiência em vários segmentos industriais estratégicos, como o de semicondutores. Ambas são bandeiras importantes dos primeiros dois mandatos de Xi Jinping. Mas o mundo com o qual a China interage hoje é mais hostil do que décadas atrás. Além da chamada guerra comercial iniciada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Donald Trump, há disputa de fronteira no mar do sul da China, com a Índia, e relações mais tensas também com a Europa. Hoje, já se pensa sobre o que aconteceria na economia global se daqui alguns anos a guerra que hoje vemos na Ucrânia seja em Taiwan. Recentemente, o presidente dos Estados Unidos Joe Biden já se posicionou sobre isso (diz 23/5, em viagem à Ásia, Biden declarou que os EUA estariam dispostos a responder militarmente se a China invadisse Taiwan). Sempre houve ambiguidade em relação a esse tema, mas suas últimas sinalizações apontam o quanto essa relação está se deteriorando. 

Como considera que o Brasil deve conduzir sua política exterior diante do aumento das tensões entre importantes parceiros comerciais?

Qualquer presidente que assumir o Brasil em 2023 terá que levar em conta o aumento das tensões entre Estados Unidos e China. No governo Bolsonaro, o principal ajuste se deu em relação à China, levando em conta três principais momentos. O primeiro, quando Bolsonaro chegou ao poder, de ser o primeiro presidente desde 1970 a expressar uma posição declaradamente crítica ao país, mas levando o primeiro ano de governo numa relação mais ou menos normal. O segundo momento se dá no início da pandemia, em que o presidente começa a reproduzir no Brasil o discurso de Trump sobre a China, de tratar a pandemia como um exercício de guerra biológica. E a partir do ano passado, voltamos a ter uma relação mais estável, pois o governo brasileiro percebeu o alto custo econômico e político desse conflito com a China. O grande símbolo da busca por uma relação mais estável foi a permissão para a Huawei participar do leilão 5G no Brasil (o que acabou não ocorrendo), depois de um alinhamento do governo brasileiro à posição dos Estados Unidos em um conflito diplomático com a empresa naquele país.

Agora, será preciso reconhecer a centralidade de ambos os países nos temas brasileiros envolvendo comércio exterior e investimentos.

Como o Brasil deve se posicionar diante das manifestações chinesas de interesse em ampliar o Brics, como houve recentemente?

Quando foi criado, em 2000, o Brics (Brasil, Rússia, Índia e China, ao que posteriormente incorporou-se a África do Sul) tinha como objetivo ser um instrumento de política externa para promover reformas nas organizações econômicas globais. Essa agenda foi forte nos anos do boom global de commodities, em que o Brasil teve um comportamento mais ambicioso na pauta internacional, com uma agenda reformista. Com as crises vividas na última década, esse ímpeto se esvaziou, e foi momento de olhar para dentro. No governo de Michel Temer, ainda houve o pleito pela entrada na OCDE e a retomada da negociação do acordo comercial entre União Europeia e Mercosul. Que continuaram no governo Bolsonaro, mas de certa forma se tornaram mais complicadas pela tensão envolvendo Brasil, Estados Unidos e Europa pela questão ambiental.

Hoje, a questão para o Brasil é resolver a instabilidade política doméstica, nosso conflito interno.  Só quando isso estiver bem acordado é que poderemos voltar a ter uma política externa mais coerente com o que sejam os objetivos de desenvolvimento do Brasil.

Especificamente quanto ao Brics, é preciso esperar. Alguns problemas envolvendo tensões entre China e Índia, com conflito armado na fronteira no início da pandemia, alimentou certa tensão. Agora o problema é a Rússia, e a tentativa chinesa de promover respostas internacionais num momento hostil para esse país e a própria China. Neste momento, as partes percebem que focar em uma associação mais profunda com a Rússia tem custo político. O presidente Bolsonaro sentiu isso, com as críticas com sua viagem à Rússia antes da deflagração da guerra.

Mais a longo prazo, considera que o Brasil deveria apoiar uma extensão do Brics?

Minha avaliação é que, para o Brasil, o melhor seria fortalecer o G20, que reúne tanto países ricos quanto emergentes, e é importante alimentar o diálogo entre eles sobre várias agendas.  Na crise financeira global de 2008 o G20 ganhou um protagonismo maior, depois ficou de lado, mas é um fórum importante, especialmente para defesa das organizações multilaterais, do direito internacional, para se criticar protecionismos. E para chamar os efeitos sociais das sanções que estão sendo impostas em função da guerra, principalmente pela crise global de alimentos que está se desenhando, com consequências para a disseminação da fome e pobreza extrema. Não somos um país rico. Nossa diplomacia tem que ajudar a promover entendimentos e buscar respostas contra essas fragilidades. O próximo governo, seja qual for, terá de lidar com esse cenário diplomático tenso.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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