Monitor do PIB reforça alerta para queda no investimento em 2023

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Monitor do PIB do FGV IBRE divulgado nesta segunda-feira (19/2) reforça o alerta sobre o comportamento do investimento em 2023. O Monitor aponta uma queda de 3,4% da formação bruta de capital fixo (FBCF). “Ao se olhar o bom comportamento do PIB no ano passado é preciso prestar atenção de que foi ajudado por muitos fatores não conectados com a dinâmica do investimento”, diz Juliana Trece, coordenadora do Monitor. “Em um ano marcado por juros altos, a atividade cresceu devido ao desempenho de setores menos sensíveis à política monetária, como o agronegócio, a indústria extrativa, e até o setor elétrico, que também contribuiu para esse resultado”, completa.

O Monitor aponta uma queda de 8,5% no investimento em máquinas e equipamentos, segmento que costuma ser farol do potencial de expansão da atividade adiante.  A construção também contribuiu negativamente para esse resultado, com retração de 0,5%. O único componente a apresentar resultado positivo, aponta o Monitor, foi o “outros”, com alta de 3,7%. “Desse grupo, que reúne segmentos bem heterogêneos, destacam-se a participação de estoque de petróleo e gado, como o investimento em vacas leiteiras e bois reprodutores”, ilustra Claudio Considera, coordenador do Núcleo de Contas Nacionais do FGV IBRE.

Taxa de investimento – Série a valores constantes de 1995 (FBCF/PIB, anual, %)


Fonte: FGV IBRE.

Com esses resultados, o Monitor aponta para uma taxa de investimento da economia de 18,1% em 2023, abaixo da média histórica – calculada desde 2000 – de 19,2%.  Em termos monetários, a FBCF somou em torno de R$ 1,8 trilhão no ano passado. O maior nível a que o investimento chegou desde 2000 foi em 2013, com R$ 2,1 trilhões a preços de 2023.

Caminho oposto foi observado no consumo das famílias, que alcançou o maior nível da série, com R$ 6,9 trilhões. Os serviços foram o principal propulsor da demanda, que também registrou uma reação de bens duráveis - item que ficou em terreno contracionista por todo o ano de 2022 e início de 2023. No agregado, o consumo das famílias cresceu 3,2% em 2023, desacelerando ao longo do ano.

Consumo das famílias – Valores a preços de 2023 (R$ bilhão)


Fonte: FGV IBRE.

Tanto Considera quanto Juliana ressaltaram que uma reação dos investimentos dependerá em grande parte da retomada da confiança na economia. “A manutenção da tendência de queda de juros poderá colaborar para essa recuperação”, lembra Considera, destacando ainda que, no caso da construção, o contexto de eleições municipais tende a impulsionar obras de infraestrutura, colaborando para a recuperação do investimento nesse setor (leia também a análise de Ana Maria Castelo na Conjuntura Econômica). “Também será preciso observar quais medidas do governo federal poderá acionar para estimular o investimento e a atividade”, completa.

FBCF – Valores a preços de 2023 (R$ bilhão)


Fonte: FGV IBRE.

Em prévia do Boletim Macro do FGV IBRE divulgada pelo jornal Valor Econômico hoje (20/2) (leia aqui, acesso restrito a assinantes do jornal), Silvia Matos, coordenadora do Boletim, aponta um panorama desafiador para a atividade em 2024, com estimativa de um primeiro trimestre com queda de 0,1%, especialmente em função de uma menor contribuição do agronegócio comparativamente ao ano passado, e crescimento de 1,4% no fechamento do ano - contra 2,9% em 2023. Silvia destacou que um dos pontos de atenção para este ano é o ritmo de queda da inflação, lembrando que sinais de persistência inflacionária poderão levar a uma posição de maior cautela com relação ao corte da Selic. A economista também destacou que a tendência expansionista da política fiscal poderá ser outro entrave nesse caminho, ampliando as incertezas e a disposição ao investimento e ao consumo.

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