Maioria dos trabalhadores por conta própria gostaria de estar empregada em empresas, aponta nova sondagem do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

De acordo à PNADC do IBGE, no trimestre encerrado em outubro os trabalhadores por conta própria no Brasil somavam 25,4 milhões, representando 1/4 da população ocupada. Há uma década, eram 5 milhões a menos. E, desse grupo atual, a maioria (18,67 milhões) ainda é informal. Uma das questões que esse aumento de conta-própria faz emergir é em que medida isso ocorreu por necessidade – ao não se encontrar uma vaga no mercado formal de trabalho – ou por desejo de empreender, aproveitando, por exemplo, as vantagens de uma rotina mais flexível, cada vez mais possibilitada pelos avanços tecnológicos. Responder a perguntas como essa, reconhecem os especialistas, é fundamental para entender a real dinâmica do mercado de trabalho brasileiro, que este ano registrou uma recuperação positiva, mas ainda recheada de desigualdades (leia mais na coluna Em Foco).

Esta terça-feira (6/12), o FGV IBRE deu um passo adiante nessa busca, ao estrear um novo indicador: a Sondagem do Mercado de Trabalho. Diferentemente dos demais estudos do grupo das Sondagens do IBRE, a Sondagem do Mercado de Trabalho – cuja periodicidade será trimestral – é de caráter predominantemente qualitativo, focada em prover informações complementares às encontradas nas estatísticas existentes. O objetivo, conta Aloisio Campelo, superintendente de Estatísticas do FGV IBRE, é construir uma série histórica de temas que se repetirão em cada Sondagem, mesclada com outros quesitos especiais que perscrutarão tendências conjunturais. 

Conta própria por necessidade
% de trabalhadores por conta própria que gostariam ou não de estar empregados em empresa pública ou privada

 
Fonte: FGV IBRE.

 

Por que prefeririam estar empregados com carteira assinada 
(% de respostas)


Fonte: FGV IBRE.

O primeiro resultado da Sondagem, que tratou exatamente do trabalho por conta própria, aponta o tamanho do problema que já se imaginava: do total de respondentes que trabalhavam nesse regime, 69,4% responderam que preferiam estar empregados em uma empresa. “Quando se analisa esse resultado abrindo por faixa de renda, observa-se que entre trabalhadores com renda mensal de até 2 salários-mínimos esse percentual sobe a 74,9%”, afirma Rodolpho Tobler, coordenador da pesquisa. As principais justificativas desse grupo para essa preferência são ter rendimentos fixos (37,8% de respostas) e ter acesso a benefícios (31,8%). Por sua vez, entre o grupo de trabalhadores com rendimento acima de 2 salários-mínimos que afirmaram preferir ser conta-própria (43,3%), as motivações mais citadas foram ter rendimentos maiores nesse esquema de trabalho (21,1%) e ter flexibilidade de horário (17,6%).

Entre os empregados sem registro (empregado sem carteira assinada, conta-própria sem CNPJ e empregador sem CNPJ), 87,7% afirmaram que prefeririam estar registrado com carteira assinada ou ter CNPJ – novamente, o percentual sobe (para 89,5%) quando se trata de trabalhadores com rendimento até 2 salários-mínimos. 

Motivos para insatisfação no trabalho 
% entre todas as pessoas empregadas, múltipla escolha 


Fonte: FGV IBRE.

Esses resultados correspondem às coletas realizadas pelo FGV IBRE nos meses de agosto, setembro e outubro. Em cada mês, também foram realizadas perguntas pontuais. Em agosto, o tema foi satisfação com o trabalho, que apontou a um percentual médio de 72,2% de satisfação, bem como o perfil de insatisfeitos: em sua maioria, trabalhadores não registrados, com ensino até o fundamental e predominantemente mulheres (31,9% do total, contra 22,8% de homens). Os principais motivos de insatisfação citados foram remuneração baixa (64,2% das respostas, de múltipla escolha), e pouco ou nenhum benefício (43%).

Em setembro, o quesito especial tratou da percepção dos trabalhadores quanto ao impacto da tecnologia em seu trabalho. A maioria (54,8%) respondeu que considera que o efeito do avanço tecnológico nos próximos cinco anos será positivo, colaborando para sua atividade profissional e sua qualidade de vida. As maiores preocupações de longo prazo citadas foram relacionadas à estabilidade financeira, pessoal e da família. Quando analisado o perfil dos trabalhadores mais preocupados, destacam-se pessoas com ensino até o fundamental (61,8%), de 45 anos ou mais (60,5%), mulheres (57,5%) e pessoas com renda até 2 salários-mínimos (57%). A maioria dos trabalhadores pretos e não-ocupados (respectivamente 54,2% e 53,8%) também afirmaram estar preocupados com o horizonte de 5 a 10 anos adiante, nível acima da média dos respondentes (51,5%).

Preocupações de longo prazo
Quanto você está preocupado com as seguintes situações no horizonte entre cinco e dez anos à frente? 


Fonte: FGV IBRE.

Já em outubro, a pergunta adicional da Sondagem foi quanto ao receio dos trabalhadores em perder emprego ou a fonte de renda nos próximos 12 meses. No agregado, a maioria 58,7%) afirmou ser improvável ou pouco provável – percentual que sobe para 79,6% quando observa-se apenas trabalhadores que ganham até 2 salários-mínimos. Asse grupo também é o que afirmou ter o menor colchão para se sustentar até conseguir uma nova fonte de renda: 72,5% afirmam conseguir se sustentar até por três meses, enquanto os com renda acima de 2 salários-mínimos disseram conseguir se manter por um tempo maior que três meses.

Para o pesquisador do FGV Fernando de Holanda Barbosa Filho, parte do aumento do número de trabalhadores por conta-própria tende a ser permanente, especialmente devido à estrutura do mercado formal de trabalho brasileiro, que tende a encarecer a contratação em carteira. “A conjuntura de curto prazo impactou essa evolução, e novas tendências como a economia por aplicativo alimenta esse caráter dual do mercado de trabalho, em que o trabalho por conta própria deverá manter uma importante participação”, diz.

Por quanto tempo conseguem se sustentar em caso de perda de emprego
% de respostas


Fonte: FGV IBRE.

Fernando Veloso, também pesquisador do FGV IBRE, ressalta que esse resultado reflete os desafios que o país tem para aumentar a produtividade da economia, importante alavanca de crescimento. “Melhorar o perfil do mercado de trabalho depende de uma agenda focada no aumento da produtividade brasileira – que inclui políticas para reduzir a turbulência macroeconômica do país, como uma política fiscal responsável – e uma política de proteção social que também olhe para os trabalhadores informais”, afirma, ressaltando os resultados da pesquisa que apontam para sensibilidade dos trabalhadores de mais baixa renda quanto à falta de benefícios que lhe deem mais segurança. Fernando Veloso é coautor do texto que inspirou o projeto da Lei de Responsabilidade Social, do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), cujo conteúdo tem sido discutido pela equipe de transição. “Com o crescimento do chamado trabalho por aplicativo, essas questões ganharam ainda mais importância, e certamente estarão na agenda no ano que vem”, afirmou. 

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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