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A economia desacelera e a incerteza cresce

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

O voo da galinha, que no jargão econômico se refere à volatilidade da economia brasileira, parece que voltou a dar as caras no terceiro trimestre deste ano. O PIB cresceu 0,4%, depois de avanços de 1% e 1,3% no primeiro e segundo trimestre, respectivamente.

Embora tenha havido uma desaceleração, já esperada pelas projeções do Boletim Macro FGV IBRE, com o resultado e as revisões feitas pelo IBGE, o PIB alcança o maior patamar da série histórica, iniciada em 1996. Além de atingir o maior nível da série, o PIB ficou 4,5% acima do patamar pré-pandemia, registrado no quarto trimestre de 2019.

PIB – taxa de crescimento: 1948-2023


Fonte:IBGE e FGV IBRE. Os dados de 2022 e 2023 são projeções.

 

PIB em nível
 (dados com ajuste sazonal, média de 1995=100)


Fonte: IBGE e FGV IBRE.

O consumo das famílias, que tem sido o motor do crescimento do PIB, desacelerou no terceiro trimestre. Do lado das despesas, a alta do PIB foi impulsionada pelo consumo das famílias, que cresceu 1%, em meio à melhora do mercado de trabalho no país e ao maior número de brasileiros com renda (ver abaixo: Com a atividade econômica melhorando, cai a taxa de desemprego). Houve, porém, desaceleração desse avanço. No 1º e no 2º trimestres, as altas foram de 0,9% e de 2,1%.

Mas o que tem “salvado a lavoura”, como diz o ditado, continua sendo o setor de serviços, que representa cerca de 70% do PIB brasileiro. No terceiro trimestre houve uma expansão de 1,1%, depois de avanços em patamares semelhantes nos dois trimestres anteriores. O comércio, no entanto, teve perda de 0,1% no terceiro trimestre.

Além do setor de serviços, a indústria, com crescimento de 0,8%, puxada pela construção civil, ajudou a expansão de 0,4% do PIB neste terceiro trimestre do ano. Segundo o IBGE, a Agropecuária, depois de altas sucessivas, teve uma retração de 0,9%, por secas, chuvas e quebras de safras.

No setor de serviços, foram destaque os segmentos de informação e comunicação, com expansão de 3,6%; atividades financeiras, com 1,5%; atividades imobiliárias, com 1,4%, e outras atividades, que inclui alojamento e alimentação, avançou 1,4% no terceiro trimestre.

O desempenho dos Serviços


Fonte: IBGE e FGV IBRE.

Quem também cresceu neste terceiro trimestre:

• Consumo das famílias: 1%

• Consumo do governo: 1,3%

• Investimentos: 2,8%

• Exportações: 3,6%

• Importação: 5,8%

Alguns fatores podem explicar as projeções de que a economia brasileira vai desacelerar no ano que vem, um grande desafio para o próximo governo. O Boletim Macro FGV IBRE prevê um crescimento de apenas 0,2% do PIB.

• O primeiro deles é a política monetária contracionista, com juros na casa dos 13,75%, tornando o crédito mais caro e restritivo. O elevado endividamento das famílias é mais uma trava para o crescimento do ano que vem a taxas mais robustas.

Leia: O imbróglio do endividamento.

• O segundo são as projeções de um menor crescimento da economia mundial e de disseminação da inflação. A guerra na Ucrânia é outro fator imponderável sobre o futuro da economia mundial.

• O terceiro é a perda do ímpeto da reabertura da economia, alavancada por estímulos fiscais e monetários. Parte deles não deve se manter para 2023, como a antecipação do FGTS, do 13º, entre outros.

Há, também certo pessimismo de empresários e consumidores com o futuro recente. Segundo as Sondagens do FGV IBRE, a confiança dos empresários, em novembro, atingiu o menor nível desde fevereiro deste ano, ancorada nas preocupações da desaceleração da economia e sobre a política econômica a ser implementada pelo novo governo, a partir de janeiro, com ênfase no equilíbrio fiscal.

Ver: Queda disseminada da confiança:reflexos da desaceleração econômica.

Ou seja: a incerteza, que tem nos acompanhado desde que a pandemia desestruturou as cadeias produtivas e a vida das pessoas, continua firme e forte.

Com a atividade econômica melhorando, cai a taxa de desemprego

A taxa de desemprego continuou sua trajetória de queda, acompanhando a melhora observada na atividade econômica. No trimestre encerrado em outubro último, recuou para 8,3%, o que representa um contingente de 9 milhões de pessoas.

Taxa de desemprego


Fonte: PNAD e FGV IBRE.

Esse bom desempenho pode ser explicado principalmente pela recuperação do emprego em atividades presenciais, que tem ditado a dinâmica de recuperação principalmente ao longo de 2022, levando a população ocupada a atingir níveis recordes a cada mês que passa. Em particular, o número de pessoas ocupadas no trimestre móvel encerrado em outubro de 2022 foi de 99,7 milhões de pessoas. Além disso, tem havido uma melhora no emprego formal, invertendo a tendência anterior, quando a informalidade é que crescia mais rapidamente. No trimestre encerrado em outubro, a taxa de informalidade caiu para 39,1%, mas ainda está em patamares elevados.

Taxa de informalidade


Fonte: PNAD e FGV IBRE.

Paulo Peruchetti, pesquisador do FGV IBRE, ressalta que, apesar dessa melhora, ainda há questões que merecem um olhar mais atento sobre o mercado de trabalho.

• Em primeiro lugar, vale destacar um ponto em relação à taxa de desemprego, que embora esteja reduzindo bastante ao longo do ano, atingindo o patamar de 1 dígito, esconde certa heterogeneidade entre grupos.

• Quando analisamos alguns grupos de forma separada, vemos que, apesar da melhora ao longo dos últimos meses, alguns deles ainda registram taxas de desemprego girando na casa de dois dígitos. Como é o caso, por exemplo, das mulheres, cuja taxa de desemprego no último trimestre foi de 11%, bem maior que os 6,9% no caso dos homens.

• Outro ponto, destacado por Janaína Feijó, pesquisadora do FGV IBRE, em artigo recentemente divulgado no Blog do IBRE, é a taxa de desemprego dos pretos e pardos, que está girando em torno de 10,2%. No caso dos brancos e amarelos, essa taxa foi de 6,8%.

• Merece atenção, também, a dinâmica da taxa de participação, que é a razão entre a força de trabalho e a população em idade para trabalhar, que tem permanecido estável já há alguns meses, atingindo 62,6% em outubro de 2022. Neste último mês, ela ainda se encontrava abaixo da tendência que vigorava antes da pandemia (2012-2019), e parte disso pode ser explicada pelo elevado número de pessoas que ainda estão fora da força de trabalho.

Taxa de participação


Fonte: PNAD e FGV IBRE.

• O nível de desalento também parece ter parado de cair, permanecendo no patamar elevado observado antes da pandemia. Esta situação preocupa, pois mostra que ainda existe, para este grupo, certa dificuldade de inserção no mercado de trabalho, que faz com eles desistam de procurar emprego.

Pessoas desalentadas


Fonte: PNAD e FGV IBRE.

• Os dados revelam ainda que parte relevante dos desalentados (83%) alega estar nessa situação ou porque não conseguem trabalho adequado, ou porque não encontram trabalho na localidade onde mora.

É importante destacar, no entanto, a melhora recente do rendimento médio do trabalho.

“Após um longo período de queda entre meados de 2020 e o final de 2021, o rendimento médio do trabalho voltou a aumentar em 2022. Em particular, no trimestre móvel encerrado em outubro de 2022, houve aumento de 4,7% em comparação com igual período do ano anterior. No entanto, a renda média em outubro ainda ficou 2% abaixo do mesmo período de 2019”, explica Peruchetti.

 

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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