“IPCA-15 ainda não mostrou o tamanho do desafio que temos pela frente”

André Braz, FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A prévia da inflação de maio - IPCA-15 - divulgada pelo IBGE ontem (28/5) veio abaixo da expectativa do mercado, em 0,44%, mas obedeceu a tendência esperada, mais que dobrando a inflação registrada em abril, de 0,21%. As principais pressões para essa alta vieram dos grupos de saúde (alta de 1,07%), devido a um resíduo do reajuste de medicamentos, de 4,5% a partir de 31 de março e que não se esgotou em abril, e transportes, com alta de 0,77%, onde se destacaram as passagens aéreas.

“Os efeitos das enchentes no Rio Grande do Sul ainda não chegaram nos índices”, diz André Braz, coordenador do Índice de Preços do FGV IBRE, lembrando que 70% da coleta de preços foi feita antes das restrições à circulação e às atividades econômicas no Sul, segundo informou o IBGE. Isso significa que, com o complemento da coleta do mês, esse número ainda poderá subir, refletindo os impactos da tragédia climática no Sul, os quais ainda deverão deixar vestígios nos meses seguintes, além de reflexos espalhados pelo país.

Braz ressalta que a tendência de volta da aceleração da inflação medida em 12 meses também obedece a um efeito composição, frente aos resultados observados em 2023 – em junho do ano passado, o IPCA registrou queda de -0,08%. “Qualquer resultado positivo entre maio e junho faria o índice voltar a acelerar”, diz.

Para o fechamento do ano, o maior problema que até agora aparece no radar, afirma Braz, está nos alimentos. “A Inflação de 2024 ainda seguirá muito afetada pelas variações climáticas, que estão longe de aliviar o desempenho da agricultura, principalmente nas regiões Sul/ Sudeste”, diz, afirmando esperar uma surpresa desagradável para o final do ano, em especial para o calendário agrícola no segundo semestre. “No pior cenário, a inflação pode chegar a 4,5%; no melhor, se manteria em 4% ao ano”, diz. Ou seja, em um cenário negativo, a inflação já se aproxima do intervalo superior de tolerância da meta para 2024 – a meta é de IPCA de 3% para este ano, com intervalo de 1,5% para cima ou para baixo. “O próprio Boletim Focus está mostrando uma gradual alteração das estimativas (de 3,73% em 2024 há um mês para 3,86% nesta segunda (27/5). Na medida em que as informações vão se consolidando, a tendência é de que se aproxime dos 4%, que é minha projeção mais otimista”, afirma, reforçando as chances de que um cenário mais pessimista se consolide.

Diante desse quadro, Braz considera que no campo da política monetária o mais adequado é um freio cauteloso na sequência de corte de juros, “até para que se avalie com mais consciência e profundidade os danos no Rio Grande do Sul e suas implicações” – preocupação expressada também pelo presidente do BC Roberto Campos Neto no X Seminário de Política Monetária (leia aqui). Braz lembra que pressões de preços vindas do setor agropecuário fazem parte de um grupo onde a alta de juros tem menos efeito direto, mas que é preciso observar a evolução desse cenário sob um contexto de mercado de trabalho aquecido e a perspectiva da chegada de um pacote de políticas de incentivo para recuperação do impacto das enchentes. “Manter os juros estáveis por um tempo, nesse caso, tende a ser o mais adequado”, diz, indicando que uma reversão dessas perspectivas só aconteceria com alguma surpresa positiva sobre o prazo de recuperação dos impactos das enchentes, com uma retomada acontecendo a partir do terceiro trimestre.

 

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