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01 Mai 2025

IPA de abril sinaliza que alimentos ainda se manterão no foco da inflação

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

O Índice Geral de Preços-Mercado (IGP-M) divulgado pelo FGV IBRE dia 29/4 trouxe a alimentação novamente para o radar das preocupações coma pressão de preços em 2025. No Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA), considerado farol da inflação que o consumidor verá nos supermercados nos meses seguintes, alguns produtos agropecuários registraram altas significativas, contribuindo para que o IPA fechasse o mês com expansão de 0,13% em relação a março, depois de uma queda de 0,73% em março comparado ao mês anterior.

Como destacado no Boletim Macro do FGV IBRE, o IPA-10, primeiro indicador de abril, apontava queda de 12,14% no preço do arroz e de 2,28% para a carne bovina – ambos bons resultados, levando em conta que cada um representa um peso em torno de 5% no índice de Preços ao Consumidor (IPC). No fechamento do mês, o arroz confirmou o sinal (-9,49%), mantendo a trajetória do mês anterior (-9,11%). “As expectativas para o arroz foram mantidas graças ao volume produzido e à menor exposição ao comércio internacional, afetando menos o preço interno”, afirma Matheus Dias, economista do FGV IBRE. No caso da carne bovina, entretanto, o resultado se inverteu, fechando em alta de 1,81%, e os bovinos, em 3,17%. Em março, ambos haviam registrado deflação de, respectivamente, 5,50% e 3,99% em relação a fevereiro.

Dias destaca que, afora questões sazonais da produção, a carne bovina vinha de um período favorecido pela redução da demanda interna – em função das restrições alimentares dos católicos no período da Quaresma – e um câmbio favorável à deflação desse produto. Tudo isso, entretanto, foi superado por um aumento repentino da demanda externa. “No início de abril, época do IPA-10, ainda não se computava o impacto do Liberation Day (quando o presidente Donald Trump anunciou aumento de tarifas a 164 países, ao que se seguiu uma guerra tarifária com a China e o anúncio de trégua para os demais países) e o processo de reaceleração das demandas externas por produtos agropecuários, em especial, carnes”, afirma Dias. Dados da Secretaria de Comércio Exterior do MDIC apontam que até a quarta semana de abril as exportações de carne bovina fresca, refrigerada ou congelada aumentaram 31,8% em relação ao mesmo período de abril de 2024, e os preços médios registraram alta de 10,8% na mesma comparação.  

Alimentos no IGP-M de abril 
maiores altas em relação a março


Fonte: FGV IBRE.

Das cinco maiores altas de preços de produtos do IPA, todas foram de alimentos: além da carne bovina processada e dos animais, milho em grão, tomate e leite foram outros alimentos que se destacaram entre as maiores variações do mês. Já no Índice de Preços ao Consumidor (IPC), destacaram-se tomate e café em pó. No Boletim Macro, Dias e André Braz já destacavam o caso do tomate, que no IPC de abril teve alta de 23,7% em relação a março. “A onda de calor registrada no início do ano acelerou o amadurecimento dos frutos, antecipando a colheita e provocando uma queda abrupta na oferta. Esse desequilíbrio entre oferta e demanda elevou significativamente os preços do produto, com impactos indiretos sobre outros itens da cesta de hortifrútis”, afirmaram, destacando a importância cada vez maior dos eventos climáticos extremos no resultado das colheitas e na formação de preços. 

Ainda que outros produtos in natura tenham colaborado para uma perspectiva de inflexão na trajetória dos preços dos alimentos nos últimos meses, Dias ressalta que o nível de imprevisibilidade do comércio internacional é um adicional nessa conta ainda difícil de precisar. “Há uma trégua de 90 dias no aumento de tarifas divulgado pelo governo Trump a diversos países, mas ninguém sabe o que virá depois, tampouco o futuro das negociações com a China, importante parceiro comercial do Brasil”, lembra. Caso a pressão tarifária se mantenha, espera-se uma desaceleração econômica global, com menos comércio, o que levaria a um arrefecimento de preços por um canal que tampouco é virtuoso, que é o da redução das exportações, lembra Dias. “A percepção atual é de que, mesmo com uma extensão da atual trégua, há um impacto sobre as expectativas que já está dado”, diz, restando observar quais serão seus efeitos não só para os alimentos como para outros produtos de exportação brasileiros, como petróleo e minério de ferro.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.