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20 Mai 2025

Incerteza externa e desafios domésticos no campo fiscal exigem cautela, aponta Boletim Macro do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Após a trégua anunciada por Estados Unidos e China na cobrança de tarifas de importação recíprocas por 90 dias - com as americanas sobre importações chinesas reduzidas de 145% para 30%, e as da China sobre produtos americanos de 125% para 10% - , o temor sobre uma recessão global foi reduzido, mas as incertezas permanecem. No Boletim Macro do FGV IBRE de maio (acesse a íntegra), Silvia Matos, coordenadora do Boletim, e Armando Castelar, pesquisador associado do IBRE, destacam que os efeitos sobre a inflação ainda existem, e as perspectivas para o investimento continuam sendo de comprometimento devido ao aumento da incerteza econômica.

Para o Brasil, Matos e Castelar lembram que a estimativa de menor crescimento mundial tende a reduzir preços de commodities exportadas pelo país. Eles também apontam a possibilidade de o dólar voltar a se valorizar frente às moedas de países desenvolvidos, “com a

postergação do ciclo de redução de juros nos EUA devendo contribuir para este movimento”. Outro elemento que pode impactar negativamente a economia brasileira, indicam, são as chances de que a negociação entre EUA e China pós-trégua envolvam cotas de compras de produtos para os quais o Brasil é grande fornecedor, como os agrícolas, bem como o impacto do escoamento de produtos chineses pelo mundo caso os EUA imponham limites em suas importações do país. Os pesquisadores citam estudo do Itaú-BBA que aponta elevada semelhança na pauta importadora de Brasil e EUA, sendo que “os dez principais produtos importados pelo Brasil da China – que concentram cerca de 80% do total –representam aproximadamente 65% das importações dos Estados Unidos provenientes do mesmo país”.

Em entrevista para o Valor Econômico (link aqui, acesso restrito a assinantes do jornal), Matos destacou que, embora a turbulência externa tenha afastado do foco os desafios domésticos, eles ainda existem e precisam ser equacionados. “Com qualquer mudança de humor lá fora, a gente acaba sofrendo mais aqui. Então, estamos meio que empurrando com a barriga questões mais estruturais, que são difíceis de serem debatidas agora no ano pré-eleitoral”, disse ao Valor, apontando a necessidade de contenção de gastos mesmo com o bom comportamento recente da receita, lembrando que “a tendência é de desaceleração ao longo do ano, e há despesas subestimadas”. A projeção do IBRE para o resultado primário do governo central é de -0,6% do PIB em 2025. Os pesquisadores mantiveram a perspectiva de crescimento do PIB em 2025 em 1,9% e, para o primeiro trimestre, em 1,5% sobre o trimestre anterior, e de 3% na comparação com o mesmo trimestre de 2024. Nesta semana, a Secretaria de Política Econômica do Ministério da Fazenda também anunciou a atualização de suas projeções macroeconômicas, apontando uma estimativa de crescimento para o PIB em 2025 de 2,4%.

No Boletim, os pesquisadores também destacaram que a ação da política monetária via juros para desacelerar a atividade não será suficiente para levar a inflação para o centro da meta até o final de 2026.  Isso, ressaltou, mesmo com o esperado efeito desinflacionário da conjuntura externa no curto prazo. Os pesquisadores André Braz e Matheus Dias destacam no Boletim a aceleração da inflação no acumulado de 2025 até abril, com pressão de preços não só em alimentos, como em energia, medicamentos e serviços. Eles projetam que a inflação fechará o primeiro semestre em 5,6%, e que haverá pouco espaço para desinflação no segundo semestre, com o IPCA encerrando 2025 em 5,5%, “exigindo cautela de política monetária”.

José Júlio Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, destaca no Boletim que a expectativa é de que o impacto restritivo da política monetária tende a se aprofundar nos próximos trimestres “devido às habituais defasagens de política”, lembrando que o mercado de crédito já deu os primeiros sinais de reação. Diante da atual conjuntura internacional e doméstica, diz, “melhor (que o BC) evite sinalizar tanto alta adicional quanto queda de juros. Talvez igualmente importante tenha sido o fato de a ata de maio ter permitido ver que o objetivo do Banco Central é levar a inflação para a meta, no horizonte relevante, mas não a qualquer custo” afirmou.

Nesta segunda-feira (19/4), o presidente do Banco Central declarou em evento que não está no radar do BC um início de corte de juros, afirmando que a Selic ainda precisa permanecer “em patamar bastante restritivo por um período bastante prolongado”. Na próxima sexta-feira (23), o Galípolo participará do XI Seminário de Política Monetária do FGV IBRE, no Rio de Janeiro, junto ao diretor do BC Paulo Picchetti e um grupo de economistas que debaterão os desafios de política monetária nos EUA, seus reflexos para o Brasil, bem como a política monetária brasileira e suas interações com a política fiscal. O evento será presencial, com transmissão pelo canal do Youtube da FGV. Informações e inscrições aqui.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.