“Há fundamentos que indicam que a política tarifária de Trump veio para ficar”, afirma Samuel Pessôa em entrevista

Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV IBRE, participou do episódio da última sexta-feira (4/4) do podcast Foro de Teresina, da revista Piauí, para comentar o tarifaço anunciado pelo presidente americano Donald Trump na quarta-feira (2/4). A divulgação, que Trump chamou de “Dia da Libertação” americana, prevê a imposição de tarifas a mais de 180 países, agitando mercados financeiros e o comércio global.
No podcast, Pessôa avaliou que a tentativa de Trump de resgatar empregos industriais impondo barreiras tarifárias a produtos importados está fadada ao fracasso. “Se a indústria voltar, será com robôs,”, afirmou, destacando que o atual desafio não é comercial, mas tecnológico, e afeta diversos setores da economia. “Se os empregos de média escolaridade no chão de fábrica foram substituídos por robô, nos escritórios eles foram substituídos por computadores”, comparou.
O pesquisador destacou que a desindustrialização nos EUA – especialmente com o crescimento da concorrência chinesa – foi particularmente sensível por ter atingido determinadas localidades de forma desproporcional, como Detroit e Cleveland, exemplos de cidades que concentraram uma grande classe média em torno da atividade fabril. “Algumas localidades sofreram muito, pois trabalhadores perderam o emprego e o grande ativo dessas famílias, que era a casa própria, se desvalorizou porque a economia local foi desorganizada”, afirmou, ilustrando que esses grupos lideram a queda na expectativa de vida registrada nos EUA nas últimas duas décadas.
Mesmo considerando que a estratégia de Trump não renderá os frutos esperados para tornar os EUA uma grande potência industrial empregadora novamente, Pessôa afirmou que a tendência é de que a política tarifária operada pelo presidente “veio para ficar”. Para ele, apesar de ser o remédio errado para uma doença real, ainda há dois fundamentos que podem manter os tarifaços vigentes. “O primeiro é que se trata de uma fonte de receita, o que ajuda o Tesouro americano”, enumerou, lembrando que o déficit público americano é grande, e deverá permanecer alto, com a intenção já declarada de Trump de renovar uma série de isenções criadas no governo de seu antecessor, Joe Biden, que acabariam no final de 2025. “A expectativa de redução do déficit público no ano que vem já acabou. Com a manutenção dessas desonerações, e a intenção de cortar impostos, Trump precisa achar fontes de receita”, lembrou Pessôa.
O segundo fundamento citado pelo pesquisador é o de que, se de fato for conflagrada uma guerra tarifária, com o anúncio de retaliações dos demais países, os EUA estão entre os que menos perdem. “Devido ao tamanho de sua economia, os EUA têm poder de barganha. Eles podem aumentar as tarifas e depois sentar para negociar um meio termo em posição de vantagem, sem que haja muita retaliação”, disse. “Por isso, acho que essa política veio para ficar. Irá reduzir o comércio internacional, haverá um rearranjo das cadeias globais de valor, que não sei exatamente como se dará, e, no meio do caminho, muita turbulência.” Um dos elementos que precisarão ser observados neste caminho, destacou, é se a tendência histórica de se correr para o dólar em momentos de incerteza – como na crise financeira global de 2018 –, fortalecendo a moeda americana, se repetirá na mesma proporção desta vez.
Quanto aos impactos esperados para o Brasil, Pessôa apontou que o país tende a estar entre os menos afetados no campo comercial. “Lá nos anos 1990, tomamos uma decisão de nos mantermos fechados, não entramos nas cadeias globais de valor, ficamos bem isolados, e pagamos um preço grande de perda de bem-estar. Dado que já estamos pagando esse preço, não devemos ser uma economia particularmente afetada.” Ele destacou ainda que há espaços para negociação, e que o corpo diplomático brasileiro está bem preparado para fazê-lo. “Um terceiro ponto é lembrar que, na gestão Trump anterior, alguns setores brasileiros foram até beneficiados, em particular o agronegócio. Em seu primeiro mandato, Trump impôs uma tarifa na importação de produtos chineses, os chineses retaliaram tributando muito as exportações de grãos norte-americanos. Com isso, o grão brasileiro ficou numa situação melhor, com rentabilidade do agricultor, que vira renda local e tem impacto sobre a economia. Então, foi um efeito colateral positivo”, afirmou, sem minimizar o contexto de uma nova ordem internacional que se encaminha para ser muito ruim.
Para o Brasil, acrescentou pessoa, o grande desafio permanece o de administrar problemas crônicos estruturais que minam a produtividade da economia.
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