Flavio Ataliba (FGV IBRE) analisa tarifas de Trump do ponto de vista regional, e alerta para impacto no Norte e Nordeste
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Postado por Conjuntura Econômica

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Ainda que as exceções anunciadas pelo governo americano ao tarifaço de 50% às importações de produtos brasileiros pelos EUA tenham aliviado o quadro para uma parcela dos exportadores – cálculos do FGV Global Business apontam uma cobertura de 46,1% das vendas brasileiras ao país – a política tarifária de Trump ainda é tratada como importante ameaça a parte do setor produtivo brasileiro, e pode ter impactos qualitativamente diferentes conforme a região do país.
Estudo elaborado pelo pesquisador Flávio Ataliba, coordenador do Centro de Estudos para o Desenvolvimento do Nordeste do FGV IBRE, analisou os impactos potenciais do tarifaço a partir de um grupo de características, analisando o grau de vulnerabilidade regional à taxação dos EUA.
Ataliba avalia, por exemplo, que apesar de os Estados Unidos representarem, respectivamente, apenas 3,9% das exportações da região Norte e 11,1% do Nordeste, seu impacto é significativo por se tratarem de produtos intensivos em mão de obra e baixo valor agregado. “Isso acontece especialmente em cadeias com menor capacidade de absorção interna e forte concentração em pequenos produtores e cooperativa”, afirma no trabalho. Entre os exemplos estão o mel natural exportado pelo Piauí, e as frutas frescas embarcadas por Pernambuco e Bahia.
Entre os estados Nordestinos, o Ceará é o que concentra maior percentual de exportações para os Estados Unidos, com 44,9% em 2024, entre as quais estão pescados, calçados e artigos de couro, e ferro fundido e aço. A segunda maior concentração é da Paraíba (21,64%), que exporta açúcar, calçados e artigos de couro, seguida pelo Sergipe (17,1% do total), especialmente de sucos, resinas e óleos vegetais.
No Sudeste, que detém 71% do total das vendas brasileiras para os EUA, a pauta exportadora é mais diversificada, “e inclui tanto manufaturados de alto valor agregado quanto aeronaves e commodities estratégicas como o petróleo”, diz Ataliba, destacando que os dois últimos ficaram de fora da supertaxa de 50%.
Distribuição regional das exportações brasileiras aos EUA

Fonte: FGV IBRE, com dados de ComexStat e OEC (2024).
No trabalho, o pesquisador ressalta a importância de se observar as assimetrias decorrentes dessa composição da pauta exportadora e das estruturas produtivas locais, que também influenciam na capacidade de resposta. Ainda, o risco socioeconômico gerado pelo impacto às exportações, que no Norte e Nordeste, afirma, são alto e muito alto, exatamente pela característica das atividades, intensivas em mão de obra. O menor impacto socioeconômico, na avaliação de Ataliba, fica com a região Centro-Oeste, que possui baixa exposição relativa aos EUA, tendo seus principais mercados na China e Europa. Para ele, esse padrão desigual deve ser levado em consideração no momento de se desenhar políticas que mitiguem o impacto do tarifaço que, defende, precisam ser apoiadas em três eixos estratégicos: cooperação federativa para o desenho de políticas de promoção comercial regionalizadas; reforço à inteligência comercial subnacional; e qualificação e diversificação das cadeias produtivas regionais, “com investimentos em infraestrutura, inovação e acesso a certificações internacionais”.
Em entrevista ao Jornal Nacional de 31/8, Ataliba destacou o desafio nacional de ampliar seus parceiros comerciais e diversificar sua base de produção. E, em seu estudo, evidenciou a importância do desenvolvimento de políticas que mitiguem os riscos de que choques como o tarifaço aprofundem desigualdades regionais.
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