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12 Jun 2023

Estudo do FGV IBRE mostra que mercado de trabalho pode estar menos aquecido do que aparenta

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Estudo de pesquisadores do FGV IBRE, tema da Carta do IBRE de junho, foi destaque de capa desta segunda-feira do jornal Valor Econômico (acesso restrito a assinantes). O trabalho dos pesquisadores do Observatório da Produtividade Regis Bonelli Fernando Veloso, Fernando de Holanda Barbosa Filho, Janaína Feijó e Paulo Peruchetti mostra que o mercado de trabalho brasileiro pode estar menos aquecido do que aparenta. Uma das hipóteses levantadas é de que o aumento do valor dos benefícios sociais tenha afastado o grupo mais jovem, mais pobre e menos escolarizado da busca por emprego.

Primeiramente, os pesquisadores identificaram que parte da redução da taxa de desemprego observada mais recentemente teve entre seus componentes uma redução da taxa de participação, ou seja, das pessoas em idade ativa (mais de 14 anos) que estão trabalhando ou buscando emprego.

Desde a pandemia, a taxa de participação sofreu fortes variações: saiu de 63,4% em fevereiro de 2020 para 56,7% no trimestre desse mesmo ano até julho. Como aponta Fernando Veloso ao Valor, esse não é um movimento comum. Em condições normais, variações na taxa de participação ocorrem quando há mudanças de ordem demográfica. Passada a fase mais complexa do combate à Covid-19, a taxa de participação engatou uma trajetória de recuperação que durou até setembro de 2022, quando chegou a 62,7%. Depois disso, entretanto, voltou a recuar, e no trimestre móvel até abril ficou em 63,4%.

Queda da taxa de participação faz desemprego parecer menor 
(em %)


Fonte: FGV IBRE.

Na Carta, Luiz Guilherme Schymura, diretor do FGV IBRE, alerta que essa variação pode levar a uma interpretação de um aquecimento do mercado de trabalho maior do que de fato acontece. Para ilustrar esse descompasso, os pesquisadores fizeram dois cálculos. No primeiro, verificaram que, tomando como referência a taxa de participação média observada em 2018/19, de 63,4%, hoje haveria 3,4 milhões de trabalhadores a mais na força de trabalho.  Se todos eles fossem buscar uma vaga, e não conseguissem, o desemprego sairia dos 8,8% registrados no primeiro trimestre de 2023 para 11,4%.

O segundo exercício realizado pelos pesquisadores foi projetar a taxa de desemprego caso a força de trabalho tivesse acompanhado sua tendência de crescimento. Nesse caso, a taxa de desemprego seria ainda maior: de 12,1% em março, levando em conta que os 4,3 milhões de trabalhadores que se somariam ao total fossem malsucedidos em sua busca.

Variação da taxa de participação por ciclo escolar
(em pontos percentuais)

 

Variação da taxa de participação por faixa de rendimento em R$ do trabalho domiciliar
(em pontos percentuais) 


Fonte: FGV IBRE.

Para identificar hipóteses do que poderia estar por trás dessa queda de participação, os pesquisadores passaram então a analisar a composição dessa variação recente por escolaridade, faixa de rendimento do trabalho domiciliar per capita e faixa etária. O resultado obtido foi que a queda se deu de forma mais acentuada entre menos escolarizados – sendo a maior queda no grupo com fundamental completo e médio incompleto –; com menor rendimento – especialmente até a faixa de R$ 1,3 mil mensais –; e mais jovens, sendo a maior queda na faixa entre 18 e 24 anos.

Variação da taxa de participação por faixa etária
(em pontos percentuais)


Fonte: FGV IBRE.

Diante dos dados levantados, pesquisadores identificam indícios – ainda não comprovados – de que esse movimento esteja relacionado ao aumento do valor real do benefício do Auxílio Brasil / Bolsa Família, ocorrido a partir da segunda metade de 2022, quando a taxa de participação volta a declinar. Uma hipótese positiva seria a de que, com alívio financeiro na família, a população mais jovem estivesse em condições de se dedicar à sua formação escolar. Mas Veloso alerta que, “se a menor taxa de participação se tornar um fenômeno mais permanente, isso pode ter implicações para o PIB potencial do país”. Dois temas que precisam ser analisados, nesse caso, são o desenho do programa de transferência de renda, para que não gere incentivos ruins, prejudicando o bem-estar das famílias e a economia como um todo, e a necessidade de investimento em qualificação e requalificação de mão de obra, como destaca Fernando de Holanda Barbosa Filho.

Leia a Carta do IBRE de junho.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.