Em seminário, pesquisadores do FGV IBRE destacam desafios da política monetária no Brasil e EUA em 2026
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O IV Seminário de Análise Conjuntural do FGV IBRE em 2025, realizado dia 10/12 em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo, foi marcado pelas expectativas em torno das decisões de política monetária nos Estados Unidos e no Brasil. No webinar, moderado pelo repórter do Estadão Luiz Gerbelli, José Júlio Senna, Silvia Matos e Livio Ribeiro destacaram os desafios que os BCs terão em 2026 para lidar sob um cenário carregado de incertezas, dificultando as projeções para a trajetória da inflação no horizonte relevante – período estimado para que o efeito da atual taxa de juros chegue ao total da economia, que hoje vai até o segundo trimestre de 2027.
Senna, chefe do Centro de Estudos Monetários do FGV IBRE, destacou que nos EUA a previsibilidade da decisão do FED em promover um novo corte na taxa básica de juros dos EUA – confirmada no final do dia, em 25 pontos-base, para a faixa de 3,5% a 3,75% ao ano – não se repete quando se trata de pensar os passos do BC americano para 2026. “Reduzir o juro agora não é um uma grande questão, mas para o ano que vem acho que será preciso segurar o otimismo do mercado sobre novos cortes, que a meu ver não se justificam”, afirmou.
Senna destacou a resiliência da inflação de serviços no país e o fato de que há mais de um ano a taxa de demanda agregada nos EUA está acima da média histórica, fruto da escolha do FED em não apertar as condições financeiras. “Conseguimos ver isso com muita clareza, por exemplo, nos spreads corporativos, pois as empresas contraem empréstimos hoje a taxas muito próximas das contratadas pelo próprio Tesouro americano. Condições de crédito boas significa expansão de demanda”, ilustrou.
Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE, sócio da BRCG, acrescentou que o mercado de trabalho – outra frente a ser observada pelo FED em seu mandato dual – não registra deterioração grave. “Ainda que a taxa de desemprego seja um pouquinho mais alta, e a demanda esteja claramente mais baixa, há um novo equilíbrio nessa economia em que demanda e oferta de trabalho parecem andar de lado, o que não parece indicar a necessidade de atuação do BC”, afirmou, somando fatores que tornam a tomada de decisão por cortes ainda mais complexa. “O shutdown comprometeu a análise de indicadores, e o país tem emendado uma série de choques cujos efeitos ainda são difíceis de mensurar. Por exemplo, aqueles relacionados ao aumento das tarifas de importação sobre a estrutura de preços. Até que ponto serão permanentes? São dúvidas que permeiam o cenário, no qual até o momento o FED optou por um caminho de redução da restrição monetária”, diz.
Senna, por sua vez, destacou que o entusiasmo observado nas ações de empresas de tecnologia e IA em detrimento de um recuo no investimento em setores tradicionais “tem contribuído em parte para a atividade econômica, mas representa um fator de risco importante”, configurando-se, afirmou, outro motivo de cautela para o FED.
Ainda que tanto para Senna quanto Ribeiro a recomendação seria iniciar 2026 interrompendo a sequência de cortes, as divergências explícitas entre os diretores do comitê de política monetária (Fomc) e as expectativas quanto à mudança na presidência do FED em 2026 tornam o cenário imprevisível. “Acho que o que observamos até agora pode ser entendido como um movimento preventivo, e essa é uma das razões para a achar que daqui por diante, o FED não vai fazer novas reduções de juros”, afirmou Senna. Apesar de também defender a suspensão dos cortes, Ribeiro por sua vez considera a possibilidade de ainda haver mais duas reduções da taxa americana até março de 2026.
No Brasil – onde a decisão de manutenção da Selic em 15% ao ano foi unânime, mantendo a sinalização de manutenção de uma política monetária apertada – as expectativas se concentram na possibilidade de início de cortes em janeiro, diante da melhora nos índices da inflação, levando a uma ligeira revisão para o IPCA no horizonte relevante, de 3,3% para 3,2%, mais próximo da meta de 3% ao ano. No webinar, Senna reforçou a mensagem defendida em Boletim Macro de outubro, de que mesmo com a trajetória cadente da inflação, a medida mais prudente é resistir a um corte da Selic no início de 2026. Senna destacou as incertezas em torno de possíveis medidas que aumentam o gasto público em ano eleitoral. “Se mexe com expectativas, há impactos sobre a macroeconomia nos mais variados campos, seja no impulso de demanda, na própria expectativa de inflação e na percepção de risco”, afirmou, recomendando que nenhum corte aconteça antes de março. “Considero que o Banco Central continuará seguindo preceitos básicos do regime de meta de inflação”, disse, destacando a importância, para o próprio governo de turno, de que a inflação se mantenha controlada em ano eleitoral. “Vale a pena aguardar e verificar se as condições favoráveis que provavelmente teremos em janeiro se sustentam até março”, corroborou Ribeiro.
Reflexos na atividade
Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro do FGV IBRE, destacou os efeitos já observados da política monetária para a desaceleração da atividade. “É preciso qualificar investimentos do setor extrativo e o agro, que não são afetados pela política monetária contracionista. Mas quando a gente olha no consumo das famílias e o investimento excluindo importação de plataformas de petróleo, a gente observa uma desaceleração um pouco maior este ano. A previsão do IBRE para o PIB em 2025 é de expansão de 2,2% e, para 2026, de 1,8%.
No webinar, Matos também indicou preocupação com a adoção de uma política fiscal expansionista em 2026. Para o início do ano, ela lembra que estímulos como o do reajuste real do salário mínimo já tendem a contribuir para uma reaceleração do consumo das famílias. O aumento da faixa de isenção do Imposto de Renda também entra nessa lista, ainda que o horizonte desse efeito ainda seja pouco claro, mas ainda há outros canais possíveis, creditício, fiscal e parafiscal, por onde estimular a atividade e o consumo. “Ainda há incertezas sobre o ritmo de crescimento econômico em 2026 e seus efeitos sobre o mercado de trabalho e a inflação, em especial a inflação de serviços”, reiterou. “A eleição ainda não teve efeito nos preços e nos mercados, mas no início do ano essa precificação já poderá começar e trazer mais dificuldades no processo de desaceleração da inflação.“
A pesquisadora do IBRE também ressaltou as mudanças estruturais no mercado de trabalho, tanto na oferta quanto na demanda, que tornam os prognósticos mais difíceis dentro da equação macroeconômica. “Podemos ter uma taxa de desemprego mais baixa devido aos efeitos positivos da reforma trabalhista e as transformações com a chamada da gig economy desde a pandemia, trazendo muito mais flexibilidade e mais eficiência. Isso leva a uma taxa neutra de juros mais alta, mas uma taxa de desemprego neutra mais baixa”, ilustrou. O problema, afirmou Matos, é que juntamente a essas mudanças positivas do lado da demanda, há desafios relacionados à oferta, “tanto por questões demográficas como de políticas que impactas nos incentivos a trabalhar ou não”, destacou. Entre os fatores citados por Matos está o envelhecimento da população em idade ativa (PIA), e a tendência de que o maior valor do Bolsa Família desestimule a busca por emprego em determinados perfis etários, em regiões do Brasil em que a oferta média de salário é mais baixa. “São questões que levam a uma oferta mais restrita, que leva a uma taxa de desemprego mais baixa, que se reflete nos salários e no desafio do BC em conter a inflação.” Para Matos, esses são fatores que levam à necessidade de mais cautela sobre a sustentabilidade do crescimento, “pois ainda somos um país com baixa produtividade, e salários crescendo acima da produtividade não é bom para a economia.”
Fator China
No evento, Ribeiro ainda analisou as perspectivas para a economia chinesa, principal mercado das exportações brasileiras. Ele destacou a surpresa positiva do PIB chinês no decorrer de 2025 apesar do impacto das medidas comerciais do governo Trump, lembrando que o resultado se justifica pelo gigantesco impulso fiscal que o governo chinês começou a aplicar ainda durante as eleições presidenciais dos EUA. “A questão é que agora essa política contracíclica está perdendo fôlego de forma clara, e não se sabe muto bem qual a estratégia do governo para dar suporte ao crescimento econômico”, afirmou. “O país entrará em 2026 sob um cenário em que manter o crescimento em torno de 5% parece bem mais difícil do que foi em 2025.”
Ribeiro lembra que a China também enfrenta um cenário de rápido envelhecimento da população, em que os ganhos de produtividade não são uniformes entre os setores. Isso implica uma economia que roda em múltiplas velocidades, em que os jovens registram grande dificuldades em se inserir no mercado de trabalho. “O modelo que levou a China de rural e pobre a uma China de renda média, indo para uma renda alta urbana e tecnológica, começa a dar sinais de exaustão, e é preciso discutir qual é o próximo passo”, afirma.
Para o Brasil, mais além de monitorar as implicações para a demanda de exportações, Ribeiro defende que é preciso estar atendo às mudanças na forma como o China passa a se relacionar com os seus parceiros e seus competidores.
Reveja o IV Seminário de Análise Conjuntural.
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