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As disparidades do emprego

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

O mercado de trabalho teve forte recuperação este ano. No primeiro semestre, o número de pessoas ocupadas aumentou em torno de 2,5 milhões em relação ao segundo semestre de 2021. Com isso, a taxa de desemprego iniciou uma trajetória descendente no trimestre móvel encerrado em abril. No trimestre fechado em setembro último, essa taxa, que havia superado os 13%, despencou para 8,7%.

Mas essa melhora do mercado de trabalho tem se mostrado bastante concentrada, com muitas disparidades, como ocorre com a melhoria do PIB, ajudado por fatores temporários como a disparada dos preços das commodities, forte recuperação do setor de serviços, estímulos fiscais e redução de impostos. O PIB melhor deste ano – deve crescer entre 2,5% e 3%, segundo estimativas – é marcado por uma heterogeneidade, mostrando uma recuperação desigual entre setores e regiões do país, conforme levantamento realizado por Silvia Matos, coordenadora do Boletim Macro FGV IBRE, e pelas pesquisadoras do IBRE Marina Garrido e Mayara Santiago.

Reveja: Por trás de um PIB melhor, uma recuperação ainda desigual.

Mas voltando ao mercado de trabalho. A recuperação que temos observado está muito concentrada nos setores de serviços presenciais, os mais duramente afetados durante a pandemia da COVID-19. Segundo levantamento das pesquisadoras do FGV IBRE, das 2,5 milhões de vagas geradas, nada menos do que 70% estiveram concentradas em setores com essas características, com a seguinte distribuição: 28,2% vieram da Administração Pública, Educação e Saúde. Outros 20,4% do Comércio, 11,2% do setor de Alojamento e Alimentação. E o setor de transportes foi responsável por 10,5% dos empregos criados. Esses mesmos setores, em 2021, responderam por 31% das vagas geradas, conforme mostra tabela abaixo elaborada por Janaína Feijó, pesquisadora do FGV IBRE.

Mercado de trabalho – concentração setorial


Fonte: Elaboração própria FGV IBRE com dados da PNAD Contínua.

Como houve forte arrefecimento da pandemia, embora já haja sinais de aumento de casos em países da Europa, a demanda que estava reprimida por esses setores reagiu, gerando mais empregos, o que deve arrefecer, já que deve ocorrer redução dos estímulos fiscais. O alto endividamento das famílias também é um grande entrave para a manutenção do consumo.

Segundo aponta Silvia, além dessa concentração do emprego em serviços presenciais, há outros elementos que trazem preocupação.

• Muita intensidade de emprego e baixo crescimento do PIB, ou seja, queda da produtividade do trabalho.

• Taxa de participação ainda está baixa em relação ao nível e a tendência pré-pandemia. O número de subocupados por insuficiência de horas trabalhadas ainda está alto.

• Desemprego de longa duração ainda permanece elevado.

• Nível de subutilizados voltou ao nível pré-pandemia, mas continua elevado.

• Número de desalentados caiu, mas também continua elevado.

Ver: A estrela da recuperação.

Com previsão de baixo crescimento no ano que vem – o Boletim Macro FGV IBRE de outubro previa uma retração do PIB de 0,4% –, cenário externo mais hostil, juros elevados, endividamento das famílias –, Silvia prevê que taxa de desemprego permaneça acima dos 10% em 2023.

Taxa de desemprego


Fonte e PNAD e FGV IBRE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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