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A diversificação no DNA da Cagece
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Cagece, Companhia de Água e Esgoto do Ceará, começa a diversificar sua atuação. Responsável pelo saneamento do Estado, a empresa, sob a batuta de Neuri Freitas, que também é presidente da Aesbe, a Associação Brasileira das Empresas Estaduais de Saneamento, volta parte de suas atenções para a geração de energia através da criação de uma nova área na empresa que vem sendo chamada como “Área de Novos Negócios”.
Em 2013, com uma alteração na lei da Cagece, que mudou o estatuto da empresa para atuar na área de saneamento, ampliou o escopo de atuação da companhia que antes só trabalhava com água e esgoto. Abriu-se espaço para entrar na área de geração de energia, resíduos sólidos e drenagem.
Embora a questão dos resíduos sólidos seja complexa, especialmente agora que a taxa de lixo vem sendo muito debatida – Fortaleza e Sobral, por exemplo, tiveram as taxas de lixo revogadas, com o contribuinte não pagando mais taxas –-, mesmo assim a Cagece está preparada para fazer a gestão de aterros sanitários, coleta seletiva, reciclagem. O que emperra é a falta de recursos dos municípios.
“Mas antes de entrar nessa questão mais a fundo, vimos que a energia era mais relevante e necessária para a Cagece, que traria maior eficiência e redução de custos. Aí resolvemos criar uma Sociedade de Propósito Específico (SPE), a Sane Energia, em parceria como a Goener Participações, que é uma empresa de energia fotovoltaica limpa e sustentável, com capacidade de gerar 10 MW, através de dez plantas que estão sendo instaladas”, diz Freitas. A sociedade tem 15% de participação da Cagece e os outros 85% são da Goener.
A energia gerada será mais barata que a comprada no mercado livre e pela concessionária de energia que abastece o Estado. “Já estamos recebendo essa energia, mais barata, o que reduz nossos custos operacionais”, esclarece.
A Cagece também está com um projeto de autoprodução de energia. É uma planta que fica na localidade de Jaguaruana, localizada no Vale do Jaguaribe, distante 183 quilômetros de Fortaleza. Parte dessa energia gerada irá para a Cagece e o excedente poderá ser vendido, a preços mais baixos do que os oferecidos pela Eneel, concessionária que abastece o Estado do Ceará. A escala ainda é pequena, admite Freitas, mas pode ser ampliada em função dos resultados.
“Mas a ideia que levou o projeto adiante é entrarmos em uma área de novos negócios que trouxesse eficiência operacional, melhoria de custeio e uma nova receita para a empresa através da venda da energia excedente. Acredito que temos um grande futuro pela frente nessa nova área, quando a questão energética é tão discutida em todo o mundo”.
Não é uma aposta trivial. Há muitos obstáculos a serem superados. Como lembra Freitas, há fatores que não dá para controlar, como a questão da linha de transmissão do Nordeste para o Sul, onde há uma dispositivo que a Agência Nacional de Energia utiliza quando a rede está sobrecarregada: mandam desligar as geradoras do Ceará, sejam eólicas, fotovoltaicas. O que pode atrapalhar jogar energia na rede para venda para terceiros.
“Mas no nosso caso a gente tem a demanda pois é a própria necessidade. Ai não vamos comprar no mercado livre ou da Aneel se temos uma empresa gerando energia mais barata, que, inclusive, vai nos render dividendos, pois fazemos parte da sociedade”, pontua Freitas.
O projeto de geração de energia ainda não tem capacidade para vender energia para outros clientes, pois está em fase pré-operacional. Mas a ideia é quando o projeto estiver concluído, vender o excedente.
Na edição de setembro de Conjuntura Econômica, a editora Solange Monteiro detalhou outro projeto que tem a Cagece como um dos coadjuvantes: a utilização de água de reuso para a produção de hidrogênio verde no Complexo de Pecém, que requer grande quantidade de energia para ser produzido. No hub do Complexo Industrial do Porto do Pecém (CIPP), a previsão é de que essa demanda seja equacionada a partir da água de reuso, a cargo da empresa Utilitas, que hoje atua no complexo cuidando do armazenamento e adequado lançamento ao mar de efluentes tratados das empresas Arcelor, EDP Eneva e Crusoé Foods.
O projeto inicial prevê o uso dos efluentes sanitários da capital Fortaleza e dos municípios Maracanaú e Caucaia, suficientes para garantir uma demanda de 1,6 metro cúbico por segundo, equivalente à produção de 450 mil toneladas de hidrogênio verde por ano.
Tirar o projeto de reuso do papel demandará um investimento estimado em R$ 1 bilhão. Desse valor, cerca de R$ 600 milhões serão desembolsados pela Utilitas para a construção da estação de produção de água de reuso (Epar) no anel viário e também de outra planta, dentro do complexo, que realizará o chamado polimento dessa água, adequando-a às características de cada empresa contratante. Atualmente, a Utilitas tem três memorandos de entendimento firmados com empresas com projetos de H2V no Pecém: Fortescue, FRV e Casa dos Ventos.
Freitas, presidente da Cagece – a companhia detém 15% da Utilitas –, ressalta que além de garantir o fornecimento para as plantas de H2V sem concorrer com o abastecimento de água potável da população, o processo de reuso traz outros benefícios, como a redução do descarte de efluentes de esgoto no mar e nos rios. “Há uma população ribeirinha que vive de sua pesca, por exemplo, assim que evitar esses efluentes é uma questão de saúde pública”, reforça Telles, indicando ainda a vantagem operacional de se escalar gradualmente a operação, tornando-a financeiramente mais vantajosa em projetos como os do hub de hidrogênio verde. “Trata-se de um desenho modular, que permite começar com uma vazão baixa e aumentá-la conforme a demanda. No caso da dessalinização para uso industrial, por sua vez, iniciar com pequenos volumes se tornaria muito caro, pois a estrutura de captação de água do mar e retorno de rejeitos precisa apontar à vazão final esperada.”
Veja mais na edição de setembro de 2024 da Conjuntura Econômica.
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