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Projeções de inflação sobem e ameaçam meta
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Depois que o Copom elevou em 0,25 pontos percentuais a taxa básica de juros esta semana – considerada por muitos como acanhada em função do forte aquecimento da economia –, o Banco Central refez suas contas e sinalizou, ontem (26/9), que o risco de que a inflação suba mais do que o previsto é um novo fator que reforça a expectativa de aumentos maiores de juros nas próximas reuniões. Serão mais duas até o final do ano.
Segundo o comunicado do BC em seu relatório de setembro, “o ritmo de crescimento da atividade econômica tem sido forte e superado as expectativas, expresso pelo crescimento significativo do PIB no primeiro semestre”. Ao refazer suas contas, o Banco Central aumentou sua estimativa de crescimento do PIB este ano: de 2,3% para nada menos do que 3,2%.
No comunicado do BC há pontos preocupantes: a projeção para a inflação este ano, que era de 4% em junho último, pulou para 4,3%, ainda dentro do intervalo da meta que é de 3%, podendo oscilar entre 1,5% e 4,5%. Com isso, a meta de inflação será considerada cumprida. Mas a probabilidade de que isso não ocorra tem aumentado. Segundo a instituição, a estimativa de a inflação ultrapassar o limite superior do intervalo de tolerância da meta de inflação em 2024, ou seja, ficar acima de 4,5%, subiu de 28%, em julho, para 36%.
Também, como destacou o relatório do BC, mesmo com a inflação sendo menor no trimestre encerrado em agosto – naquele mês houve deflação de 0,19% – os núcleos e variações de doze meses, apontam “inflação corrente elevada”.
E, como todo mundo sabe, quanto maior a inflação, menor é o poder de compra das pessoas, principalmente das que recebem salários menores. Isso porque os preços dos produtos aumentam, sem que o salário acompanhe esse crescimento.
"Nos próximos meses, a inflação acumulada em doze meses deve permanecer próxima ao limite superior do intervalo de tolerância, que é de 4,5%, em meio a taxas mensais mais elevadas", acrescentou a instituição.
Ou seja: todos os indícios apontam para altas de juros nas próximas reuniões do Copom. Possivelmente, mais elevadas do que a da última semana, de 0,25 pontos. Enquanto o mundo parece entrar mais forte em uma desinflação, com corte de juros, estamos indo na contramão, elevando a Selic.
Já para o ano que vem, o BC espera um crescimento menor da economia, o que poderia amenizar a necessidade de uma política monetária mais austera. A previsão é de que o PIB cresça 2% em 2025, em função de um menor vigor da atividade econômica neste segundo semestre do ano. E conta para isso com menores estímulos fiscais (o que, a meu ver, pode ser politicamente complexo de ser executado), interrupção de estímulos monetários.
Há também outro novo fator que pode reduzir o ímpeto do consumo. Como vem sendo noticiado, famílias estão se endividando com as chamadas “bets” e jogos conhecidos como tigrinho. Pesquisa do Banco Itaú, mostra que a população perdeu quase R$ 24 bilhões em jogos e apostas online em apenas um ano. Outro levantamento, esse da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo, mostra que 22% da renda disponível das famílias brasileiras foi destinado a apostas no último ano.
Relatório do Banco Central sinaliza que, em agosto, as casas de apostas receberam pelo menos R$ 3 bilhões de apostas em “bets” de beneficiários do Bolsa Família. Num universo de 5 milhões de pessoas que recebem o benefício, a média gasta por aposta foi de R$ 100: 70% dos que apostaram são chefes de família. Juntos eles queimaram R$ 2 bilhões em apostas em “bets”.
Como o consumo das famílias é que vem impulsionando o PIB, crescendo, em termos reais, a uma média de 8% ao ano, ele pode ser impactado diretamente, já que muita gente pode estar consumindo menos para tentar ficar milionário nessa febre de jogos que precisa, com urgência, ser regulamentada no Brasil.
Mas a questão que se coloca é que só a política monetária não consegue domar esse inflação que começa a subir. A questão fiscal, onde os gastos continuam aumentando, é uma variável que o Banco Central não controla e tem peso essencial na inflação.
Como escrevi nesse espaço, a estimativa de se cortar R$ 15 bilhões feita em julho, acabou sendo reduzida para cerca de R$ 13,5 bilhões, o que agitou o mercado, aumentando a taxa de juros futuras. Na edição de ontem (26/9) do Valor Econômico, com base via Lei de Acesso à Informação (LAI), obtido pelo jornal, R$ 9,78 bilhões de receitas colocadas como outorgas ferroviárias no Projeto de Lei Orçamentária (PLOA) são considerados por técnicos como “incertas em relação aos valores estimados e aos cronogramas de operação”. Para os técnicos ouvidos pelo Valor, a recomendação é colocar apenas R$ 6,5 bilhões a título de concessões e permissões. Ou seja: são receitas que não se sabe se, realmente, virão.
E como escreveu Samuel Pessoa em sua coluna Ponto de Vista, publicada na revista Conjuntura Econômica e replicada neste Blog, parece não haver por parte do governo nenhuma preocupação com o corte de gastos, o equilíbrio fiscal.
Relembre: A conta vai chegar?
No entanto, é muito difícil cortar gastos neste país. Há muitas pressões, grupos de interesse. Um Congresso, em sua grande maioria, avesso a cortes. Especialmente em período de eleições, como vamos ter agora em outubro. Politicamente, cortar gastos é retirar privilégios, reduzir transferências sociais, subsídios.
Como me disse um economista outro dia: só há duas opções: ou deixa a inflação subir, já que no atual quadro só a política monetária não é suficiente para baixar o processo inflacionário. E o preço será alto. Ou se usa a política monetária junto com uma política fiscal crível, com sustentabilidade das contas públicas. Não há outra opção.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.