Em Foco

Alguns destaques do Boletim Macro

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

As últimas semanas foram pautadas por muitas confusões. E quando isso ocorre, especialmente na economia, a conta chega. Mesmo se formos tirar o humor e as especulações do mercado, que tem ficado agitado desde a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), onde houve uma divisão entre os diretores se mantinham o corte de 0,5 ponto na Selic. No fim, houve um corte de 0,25 ponto. Mesmo com a Ata do Copom, divulgada posteriormente, onde fica claro que todos os diretores do Banco Central se mostraram preocupados com a inflação. Não adiantou nada.

Ontem, 22, o ministro da Fazenda Fernando Haddad, em audiência na Câmara dos Deputados, jogou um pouco mais de gasolina na fogueira, ao afirmar que a meta de 3% de inflação é “inimaginável”. Isso contribuiu para nova subida do dólar, alta dos juros futuros e queda na Bolsa. No mesmo dia, o Fed, o Banco Central dos Estados Unidos, divulgou a Ata de sua última reunião: sinalizou para uma política monetária mais dura, ou seja, as taxas de juros vão continuar elevadas.

O Boletim Macro FGV IBRE já vem alertando para isso. Na edição de maio, explica que não há confiança entre os americanos de que a inflação do país caminha em direção à meta de 2%. Dizem Silvia Matos, coordenadora da publicação e Armando Castelar, pesquisador associado do FGV IBRE: “de fato, a chamada ‘última milha’ do processo de desinflação, que é levar a inflação do atual patamar de 3,4% (3,6% para o núcleo) para a meta tem sido bem mais desafiadora do que a autoridade monetária americana esperava. Um dos principais motivos para isso é que, a despeito dos sinais de moderação, o mercado de trabalho e a atividade econômica continuam mostrando bom desempenho. Com isso, a inflação de serviços se mantém pressionada, tornando o processo de desinflação mais demorado e incerto. Os pontos destacados pelos membros do Fed mostram que há um viés mais conservador; ou seja, há maior receio de errar com a redução prematura da taxa de juros do que com eventual atraso”.

Lembro que hoje, a partir das 14h, a política monetária será o centro de debates no X Seminário Anual de Política Monetária, que será realizado na sede da FGV, no Rio de Janeiro. O presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, o diretor de Assuntos Internacionais, Paulo Picchetti, e economistas, alguns ex-diretores do BC, vão traçar cenários e debater para onde caminhamos em termos de política monetária.

Embora o ministro Haddad tenha enfatizado a continuação de um diálogo profícuo com o Banco Central, o que nos últimos meses parece estar azedando cada vez mais, esse imbróglio monetário está ligado ao que vem ocorrendo na economia. Como menciona o Boletim Macro, “desde a reunião anterior (do Copom), houve uma piora do cenário externo e doméstico, que corrobora a necessidade de se manter a taxa de juros mais elevada e por um tempo mais prolongado. Em primeiro lugar, os dados de atividade vieram mais fortes no primeiro trimestre do ano, enquanto os dados referentes ao mercado de trabalho confirmaram o crescimento forte do emprego e da renda. De fato, revisamos a previsão de crescimento do PIB de 0,6% (TsT) para 0,7%. O que chamou mais a atenção foi a revisão na previsão de alta do consumo das famílias do primeiro trimestre, de 0,9% (TsT) para 1,5%. Se esse valor se confirmar, o consumo terá crescido em torno de 1% por trimestre desde o segundo semestre de 2021, ritmo superior ao crescimento do PIB, que foi de 0,7%”.

Com esse cenário, em que a atividade surpreende para cima, com forte crescimento da demanda, é necessária ainda mais cautela na condução da política monetária. Ainda mais quando as expectativas de inflação para horizontes mais longos estão não apenas acima da meta, mas subindo.

Há outra pedra no sapato, essa que não tem jeito de sair com o andar da carruagem. Como já escrevi por aqui, a política fiscal este ano será mais expansionista do que se previa anteriormente. Também ontem (22), mais uma informação que preocupa: o Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas referente ao segundo bimestre traz a informação de que o governo revisou para cima o déficit primário, que era de R$ 9,3 bilhões, para R$ 14,5 bilhões. As despesas obrigatórias, principal fator de risco para as contas públicas, cresceram R$ 20,1 bilhões. A explicação seria, em parte, pela ajuda ao Rio Grande do Sul. Estimativas ainda muito preliminares apontam um impacto de redução de 0,3 p.p. no PIB de 2024, segundo o Boletim Macro de maio.

Mas a real dimensão dos prejuízos provocados pelas enchentes no Rio Grande do Sul ainda é de difícil mensuração, bem como o tempo que levará para reconstruir o que foi destruído pelas águas, que não é pouca coisa. Como escreveu Solange Monteiro, nesse Blog, “em entrevista ao jornal Valor Econômico (link aquiacesso restrito a assinantes do jornal), os pesquisadores do FGV IBRE Claudio Considera e Juliana Trece, mostram que os 397 municípios afetados (listados até 7 de maio) respondem por 98% da indústria, 91% da economia de serviços, 88% da administração pública e 79% da agropecuária do estado”.

Manoel Pires, coordenador do Centro de Política Fiscal e Orçamento Público do FGV IBRE, defende que, do ponto de vista das contas públicas federais, o ideal é separar a discussão orçamentária estrutural, focada no equilíbrio das contas públicas, da administração dos recursos necessários para reerguer o Rio Grande do Sul.

Veja: “A melhor abordagem fiscal é separar a discussão Orçamentária estrutural da ajuda ao Rio Grande do Sul”.

Ao analisar mais detalhadamente a Ata, os analistas do Boletim afirmam que “a redução do esforço fiscal e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade.” Além disso, o “Comitê reafirma que uma política fiscal crível e comprometida com a sustentabilidade da dívida contribui para a ancoragem das expectativas de inflação e para a redução dos prêmios de risco dos ativos financeiros, consequentemente impactando a política monetária.”

Mas é bom lembrar que boa parte do rombo fiscal de 2023 tem a ver com pagamentos de precatórios que não foram honrados no governo Bolsonaro, tornando mais difícil ajustar as contas públicas. E que, em um ano eleitoral, o slogan que “gasto é vida” utilizado pelo governo atual deixa de cabelo em pé economistas e aumenta o grau de incerteza para os investidores.

Veja alguns destaques da seções do Boletim Macro de maio:

• Expectativa de empresários e consumidores: Os índices de confiança continuavam em trajetória favorável em abril, ainda que o ritmo de evolução seja lento. Pelo lado dos consumidores, a alta mais expressiva apenas compensa os resultados ruins do início de ano. A melhora foi puxada por expectativas mais positivas para a economia e para as finanças familiares nos próximos meses. Pelo lado empresarial, a estabilidade do mês teve influência da alta expressiva da confiança do Comércio e de queda moderada de Serviços e Construção. Uma prévia para maio aponta queda da confiança no mês, sob influência do desastre climático que afeta duramente o Rio Grande do Sul.

• Inflação: O IPCA de abril registrou aumento de 0,38%, impulsionado principalmente pelos preços dos alimentos in natura, medicamentos e gasolina. A tragédia climática no Rio Grande do Sul deverá afetar a inflação nos próximos meses, embora as perdas significativas na produção de alimentos importantes ainda não tenham influenciado fortemente a variação dos preços dos alimentos

• Política Monetária: Têm sido muitos os obstáculos enfrentados pelo Banco Central em sua luta para levar a inflação para a meta, de maneira sustentável. Fiscal expansionista, expectativas desancoradas, ambiente externo adverso, e variáveis como câmbio, juros prefixados, juros reais e inflações implícitas reveladoras de sérias preocupações com o futuro da inflação e das taxas de juros. Nesse cenário, ao BC cabia realmente reduzir o ritmo de queda da Selic para 25 pontos em maio e sinalizar a possibilidade de fim do ciclo de baixa dos juros. A divergência nos votos do Copom talvez não tenha se encerrado.

• Política Fiscal: A busca pela meta de resultado fiscal dependerá da capacidade de o governo manter o elevado padrão de arrecadação do primeiro trimestre – o que deve se mostrar difícil ao longo do ano, em função de uma série de atipicidades e não recorrências decorrentes das medidas tributárias aprovadas –, assim como do controle da despesa obrigatória. Em relação aos gastos, os itens que mais apresentaram crescimento foram Previdência, BPC, FUNDEB e gastos associados com a saúde.

• Economia Internacional: A inflação mais forte nos EUA gerou forte reprecificação das taxas de juros no interbancário americano, com os impactos usuais sobre a taxa de câmbio e, principalmente, sobre a curva de juros local. Porém, estudos de Ben Bernanke e Olivier Blanchard avaliam que tem havido um processo de redução do aperto no mercado de trabalho, um dos principais responsáveis pela elevada inflação. O estudo indica que o cenário de pouso suave ainda está sobre a mesa, mesmo com as três leituras mais salgadas da inflação americana no primeiro trimestre de 2024.

Leia a íntegra do Boletim Macro FGV IBRE de maio.

 

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As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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