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Divisão se acentua no Banco Central

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Como esperado, e já escrito neste espaço, o Banco Central diminuiu o ritmo de corte da taxa básica de juros da economia, a Selic. Depois de sucessivos cortes na casa de 0,5 ponto percentual (pp) a reunião da última quarta-feira (8/5) cortou os juros em 0,25 pp. O que chama a atenção na decisão foi a profunda divisão entre os integrantes do COPOM, o Comitê de Política Monetária, que definem para onde vão os juros da economia brasileira. A decisão foi de 5 a 4, o que mostra uma cisão entre os economistas do BC.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, já vinha sinalizando que com o aumento das incertezas do cenário mundial, mais a questão fiscal que empurrou para o ano que vem um maior ajuste nas contas públicas – o quadro deve ficar pior com as enchentes do Rio Grande do Sul, já que o governo está preparando medidas de auxílio ao Estado –, a pressão por gastos deve ser maior. A flexibilização da meta fiscal de 2025 e nos anos seguintes que o ministro Fernando Haddad anunciou dois dias antes da fala de Campos Neto em um evento da XP Investimentos, que deveria ser fechado mas acabou sendo público, com transmissão online por decisão da presidência do Banco Central, jogou mais gasolina na fogueira que arde há alguns meses.

Releia: A enrascada fiscal.

Não é de hoje que existe, por parte do governo, uma forte pressão sobre o presidente do Banco Central para acelerar a queda da taxa de juros. Na reunião da última quarta-feira, foi para o espaço um certo acordo de “cavalheiros” que estava em vigor, na busca de um consenso sobre a condução da política monetária. Ou seja: todos votariam de forma igual na decisão sobre o percentual do corte dos juros.

Na reunião, Campos Neto seguiu o voto dos quatro diretores antigos do Banco Central, que optaram por um corte de 0,25 ponto. Já os novos diretores, tendo à frente Gabriel Galípolo, que vem sendo apontado como possível sucessor de Campos Neto, todos indicados pelo governo Lula, acharam que os juros deveriam manter sua trajetória de corte de 0,5 ponto, como vinha ocorrendo desde agosto do ano passado.

Além de expor o que se poderia chamar de racha entre os diretores do Banco Central, a cisão deixa clara a disputa pela cadeira de Campos Neto, que deixa o cargo no final deste ano.

Na ata da reunião passada do Copom, chamou a atenção a falta de menção de quaisquer movimentos futuros, que vinha sendo colocada nas atas anteriores. Foi mantida a preocupação com o cenário externo, que demanda maior atenção – o FED, por exemplo, decidiu não cortar os juros em sua última reunião –, o que impacta decisões de política monetária em todo o mundo. A ata dessa última reunião sai na próxima semana.

Taxa de juros nos EUA


Fonte: FED.

Mas, pelo andar da carruagem, com a cisão exposta nesta última reunião, a próxima, nos dias 18 e 19 de junho, pode trazer novas surpresas. Mas, até lá, muita água deve rolar debaixo da ponte. Temos que ver o que irá acontecer com a atividade econômica. Como se comportará a questão fiscal e o humor do mercado com a flexibilização das metas fiscais. E como ficará a popularidade do presidente Lula para aumentar gastos nesse período eleitoral e turbinar a economia.

Como escrevi neste espaço, as mudanças que o mundo está vivendo têm tornado as coisas muito mais complexas.

Veja: Fazer a lição de casa ficou mais difícil.

 

Inscreva-se no X Seminário de Política Monetária, que contará com a presença do presidente do Banco Central e economistas convidados. Na ocasião será prestada uma homenagem ao professor Affonso Celso Pastore, falecido recentemente.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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