Em Foco
Eleições, guerras: cenário altamente volátil
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
O que nos espera este ano no campo econômico? Ninguém sabe, ao certo. Nas conversas que tenho por obra do ofício com economistas, sempre ricas, especialmente aqui no IBRE onde está reunido um grupo de excelência em várias áreas da ciência econômica, a diversidade e pluralidade de ideias e projeções nem sempre são as mesmas.
Na edição da revista Conjuntura Econômica de janeiro, procuramos reunir o pensamento de vários desses economistas, além de convidados que escrevem regularmente para a edição. Embora possa se perceber pontos comuns, como de que este ano não teremos as mesmas condições favoráveis de 2023, especialmente no caso da agropecuária que puxou a alta do PIB para 2,9%, segundo as projeções do Boletim Macro FGV IBRE – o IBGE só vai divulgar os resultados de 2023 em março –, as dúvidas e incertezas são muitas, especialmente neste ano eleitoral, onde a sustentabilidade fiscal pode correr riscos. Na verdade, já está bem difícil cumprir a meta de zerar o déficit primário este ano como quer o ministro Fernando Haddad: as receitas não crescem da forma esperada.
Na série de artigos que publicamos e que podem ser acessados na revista, Armando Castelar, pesquisador associado do FGV IBRE, pontua algumas questões importantes que, em seu entender, devem ocorrer este ano. A premissa de que o ambiente externo será menos adverso do que foi em 2023, pelo afrouxamento da política monetária e a gradativa queda da taxa de juros, especialmente nos Estados Unidos, fortalece a posição do Banco Central em seguir cortando os juros por aqui, sem que haja fortes pressões sobre o câmbio. E juros mais baixos podem ser a grande alavanca do crescimento este ano, desde que se arrume a casa no campo fiscal.
Outro fator que deve ajudar, como já ocorreu no ano passado, será o setor externo, embora em menor escala, já que a expansão da agropecuária será menor – já há previsões de menores safras de soja, principal componente do PIB agropecuário, devido às secas que atingiram regiões produtoras. Também é provável que ocorra um aumento das importações, com um aumento dos investimentos que foram muito ruins no ano passado. Em 2023, o saldo de nossa balança comercial chegou perto dos US$ 100 bilhões.
Castelar chama a atenção que “talvez mais importante ainda seja que as contas externas devem seguir bastante confortáveis, com saldos comerciais elevados, o que ajudará a manter o câmbio comportado e, possivelmente, o real mais valorizado. Devem contribuir para isso um certo enfraquecimento do dólar e a manutenção dos preços de commodities em patamar relativamente alto”.
Mas nem tudo são flores. Há potenciais fontes de incerteza que podem deixar o cenário deste ano mais morno.
Castelar cita, pelo menos, quatro:
• A primeira diz respeito ao grau de certeza de que o cenário “cachinhos de ouro”, ou pouso suave da economia mundial de fato se materializará. Há, de um lado, o risco de que a inflação não caia de forma tão bem comportada como se projeta. Em especial, a alta nos núcleos de inflação tem se mostrado bem mais resiliente do que a dos índices cheios e, em um quadro em que o desemprego segue baixo e a atividade aquecida, o espaço para cortar juros pode se revelar menor do que o projetado. De outro lado, também não se pode descartar uma desaceleração da economia mundial mais forte que a projetada, fruto dos efeitos defasados do aperto monetário realizado em 2023. Em especial, é possível que a economia americana entre em recessão em 2024.
• A segunda: as contas públicas americanas. Os EUA experimentaram um forte aumento do déficit público primário, que, nas estimativas do FMI, saltou de 1,3% do PIB em 2022 para 5,5% em 2023. O Fundo espera uma redução bem gradual desse déficit, que deve permanecer elevado em 2025-26. Em paralelo, o custo de financiamento do tesouro americano subiu bastante no último ano, o que deve seguir pressionando as despesas com juros sobre a dívida pública.
• A terceira: as eleições presidenciais americanas, em que a possibilidade de retorno à Casa Branca do ex-presidente Donald Trump gera incertezas de naturezas diversas. Em especial, ela pode aumentar a intensidade das disputas geopolíticas ente os EUA e a China, exigindo das empresas uma aceleração do processo de relocalização de unidades produtivas.
• A quarta: nossas próprias contas públicas também serão uma potencial fonte de estresse e volatilidade. É pouco provável que o governo consiga zerar o déficit primário em 2024, não apenas pela dificuldade em obter todas as receitas que considera essenciais para tal, como pela dificuldade de controlar as pressões por aumentos de gastos. Há uma tensão política crescente entre os partidos do chamado Centrão e o partido do governo em torno das eleições municipais de 2024, em especial pela influência que estas podem ter sobre o desempenho dos partidos nas eleições para a Presidência e o Congresso em 2026.
Como diz Castelar em seu artigo, o cenário externo favorável, a queda dos juros e o maior apetite por risco dos investidores externos e domésticos vão reduzir o impacto que a deterioração fiscal esperada para 2024 tenderia a ter sobre câmbio, juros e atividade. Isso, por outro lado, enfraquecerá os freios para se conter a piora das contas públicas. O problema, porém, não vai desaparecer e estará apenas aumentando. Em algum momento ele terá de ser enfrentado.
A ministra Simone Tebet, do Planejamento e Orçamento, em entrevista na revista de janeiro, disse estar empenhada em tornar o dinheiro público eficiente, através de acompanhamento e gerenciamento de gastos. As preocupações apontadas por economistas quanto à disciplina fiscal do governo este ano não desconcentram a ministra. Seu foco está em ajudar a equilibrar meta fiscal e demanda por políticas públicas, com uma disciplina de revisão de gastos.
Releia: “Agora é hora de o dinheiro se tornar eficiente”.
E aí que está a grande incerteza sobre o que poderá acontecer este ano. Há receio de muitos economistas de que, se a economia não deslanchar, o governo lance mão de instrumentos que aumentem os gastos públicos, piorando a já difícil situação fiscal.
Veja: Previsões e desafios para este ano.
Leia a matéria Perspectivas 2024 na edição de janeiro da revista Conjuntura Econômica.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.