Em Foco

A visita

Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro

Todos vivemos uma mudança significativa em nossas vidas com a pandemia. O mundo mudou radicalmente, num piscar de olhos. Coisas corriqueiras, como dar uma caminhada, ir à escola, ver os amigos, ir ao trabalho, ao cinema, a um restaurante, que fazíamos de forma habitual no dia a dia e achávamos comum, viraram grandes conquistas diárias para a maioria dos seres humanos.

Raquel, minha enteada que fez 16 anos essa semana, foi visitar uma amiga no último sábado. Mesmo com receio de deixá-la sair, o esgotamento e estresse de estar isolada, sem ver os amigos, a não ser virtualmente, falou mais forte. Além disso, a família de Bárbara, sua amiga, é extremamente cuidadosa.

Partiu às 14:30, com os olhos mostrando toda a ansiedade e felicidade de, finalmente, transpor as portas do apartamento e ir se juntar à amiga de escola que não encontrava há muito tempo. Quando voltou, lá pelas dez da noite, não parou de falar, extravasando toda a sua alegria. Ganhou um bolo em formato de coração feito pela amiga, receita de família que teria “ingredientes secretos”. Trouxe um pedaço para casa, numa gentileza dos pais de Bárbara – o bolo, realmente, é muito bom. Cantaram parabéns. Foi dar uma caminhada na praia. Ficou conversando durante horas. Uma felicidade sem tamanho.

Essa semana, a experiência que injetou tanta alegria e adrenalina, surtiu frutos: uma intensa troca de mensagens foi desencadeada para marcar uma outra escapada e encontrar outros amigos da escola, em lugar aberto, todos com máscaras.

Raquel está tendo aulas virtuais há mais de dois meses.

Sofia, minha neta que está prestes a fazer 14 anos, ficou deslumbrada ao visitar as novas instalações de sua escola, em São Paulo. Voltou para casa e me ligou, detalhando como será a sua nova sala neste segundo semestre, a quadra de esportes, a biblioteca, a distribuição das carteiras, com espaço entre os alunos, mantendo as regras de segurança, as cores da nova área, o cheiro de coisa nova. Os detalhes eram explicados em minúcias, com entusiasmo e grande alegria. Uma felicidade sem tamanho.

Sofia está tendo aulas presenciais duas vezes por semana, às terças e quartas, algumas vezes interrompidas pela piora da pandemia. Toda segunda, sua apreensão ao longo do dia é grande: quem sabe a escola não manda um WhatsApp avisando que a aula presencial do dia seguinte foi suspensa por suspeita de contaminação de algum funcionário ou aluno?

Outra grande expectativa, onde diariamente são contados os dias que faltam, é sua vinda para o Rio, no começo de julho.

Não há dúvida de que Raquel e Sofia e muitas outras crianças e adolescentes, com pais com condições de arcar com uma educação privada, são privilegiadas nesse momento trágico que atravessamos.

O estudo Cenário da Exclusão Escolar no Brasil – um Alerta sobre os Impactos da Pandemia da Covid-19 na Educação, lançado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), mostrou que o número de crianças e adolescentes de 6 a 17 anos que estavam fora da escola no Brasil saltou de 1,1 milhão, em 2019, para 1,5 milhão em 2020. A suspensão das aulas presenciais, aliada à dificuldade de acesso à internet e à tecnologia, entre outros fatores, fez com que esse número embicasse ainda mais para cima. Pelos cálculos do estudo, mais 3,7 milhões de crianças a adolescentes, embora matriculadas, não tiveram acesso a nenhuma atividade escolar, elevando para 5,1 milhões o total dos que ficaram sem acesso a educação no ano passado. Quadro que pode ter piorado este ano, com a volta mais feroz da pandemia a partir de março.

Henrietta Fore, diretora-executiva da Unicef, ressalta que “apesar das evidências esmagadoras do impacto do fechamento de escolas nas crianças e nos adolescentes, e as evidências crescentes de que as escolas não são os motores da pandemia, muitos países optaram por manter as escolas fechadas, alguns por quase um ano”.

E prossegue: “o custo do fechamento de escolas – que no auge dos lockdowns da pandemia afetou 90% dos estudantes em todo o mundo e deixou mais de um terço das crianças e dos adolescentes em idade escolar sem acesso a educação remota – foi devastador (...). O número das que ficarão fora da escola deve aumentar em 24 milhões, em 2021”.

No mês passado, houve uma mudança de rumo da vacinação no Brasil, com a inclusão dos profissionais de educação no Plano Nacional de Imunização (PNI), o que pode minimizar os estragos já feitos. A expectativa é de que no segundo semestre comece a haver uma progressiva volta às aulas presenciais, especialmente para aqueles que não têm acesso à internet e às tecnologias que possibilitem aulas remotas.

Outro estudo – Perda de Aprendizagem na Pandemia –, liderado pelo economista Ricardo Paes de Barros, do Insper, em parceria com o Instituto Unibanco, mostrou, entre outras questões, que os jovens perderam, ao logo do ano passado, proficiência em matemática equivalente a 10 pontos na escala Saeb (avaliação nacional que mede o desempenho dos alunos). E, em língua portuguesa, a perda estimada foi de 9 pontos, equivalentes à quase metade do que um aluno aprende em três anos do ensino médio em português, e a dois terços de tudo o que ele aprende em matemática no mesmo período. PB, como é conhecido Barros, uma das principais autoridades na questão educacional e de políticas públicas no país, em entrevista à BBC News Brasil, enfatizou que isso é uma perda econômica futura.

“As pessoas serão menos produtivas, e vão ganhar menos porque vão produzir menos (...). Portanto, o PIB vai ser menor (...), e essa perda vai depender de quanto o país investir e agir para recuperar a aprendizagem perdida”, afirmou PB à BBC.

Com isso, o fosso entre pobres e ricos, exacerbado pela pandemia, aumentará ainda mais. A última edição da revista Forbes, que publicou sua lista das pessoas mais ricas do mundo, destacou que, apesar da pandemia, o número de novos bilionários “explodiu” no ano passado no mundo, com um aumento de US$ 5 trilhões em riquezas acumuladas nas mãos de um punhado de pessoas. No Brasil, o número de brasileiros bilionários saltou de 45, em 2020, para 65 atualmente.

Outro ponto que tende a alargar mais essa diferença é o trabalho em home office ampliado enormemente com a pandemia. Estudo feito pelo pesquisador Fernando de Holanda Barbosa Filho, do FGV IBRE, mostra que o potencial de trabalhadores que desempenham funções passíveis de migrarem para o home office no Brasil é de apenas 25%, quando em países como os Estados Unidos e Reino Unido gira em torno de 40%.

A lenta vacinação no país e no grupo de países pobres e emergentes – somente pouco mais de 14% receberam as duas doses de imunizante no Brasil –, é outro componente para aumentar essas disparidades, criando dois universos paralelos, como disse o economista norte-americano Kenneth Rogoff, da Universidade de Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional (FMI), em reportagem publicada pela Folha de S. Paulo.

Falando em evento promovido pelo Bradesco BBI na 12ª London Conference para investidores internacionais, Rogoff ressaltou que nos EUA a pandemia está praticamente acabada, com a vida voltando ao normal e, consequentemente, a atividade econômica, enquanto o PIB per capita brasileiro ainda vai demorar cerca de um ano para voltar ao patamar antes da pandemia.

Amigos que moram nos Estados Unidos relatam a volta à normalidade. “Ontem (8), fomos ao supermercado sem usar máscaras pela primeira vez. E, há duas semanas, fomos a uma festa onde todos estavam vacinados. Tudo começa a retornar como antes desse pesadelo acontecer”, dizem.

Comentando estudo da OCDE sobre os países emergentes, Rogoff enfatizou que a desigualdade sempre esteve no radar dos políticos progressistas de seu país, mas somente dentro das fronteiras norte-americanas. “Mas isso está mudando, já que o mundo está percebendo que não adianta combater a desigualdade isoladamente.”

Quando o PIB per capita dos emergentes vai se recuperar*


Fonte: OCDE. *Recuperação antes da pandemia.

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Ficar escrevendo sobre a pandemia, como faço todas as semanas aqui neste espaço, é angustiante. Se aparecem alguns sinais de esperança, eles ainda são bastante tênues e podem mudar num piscar de olhos. A perda de amigos ficou mais perto de todos. E os números de contágios e mortes continuam em patamares bastante elevados já há alguns meses. Esta semana, o aumento das internações em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), em São Paulo e em outras capitais, acendeu o sinal de alerta de uma possível terceira onda. Nos nove primeiros dias deste mês, o número de novos casos voltou a subir, sendo o mais alto deste ano, superado, apenas, por abril. Enquanto nos Estados Unidos, que lidera o número de casos no mundo – o Worldometer não traz dados da China –, a pandemia está controlada –, no Brasil as coisas começam a piorar, novamente. E o pior: aumentam as internações e novos casos na população mais jovem, ainda não vacinada.

Covid-19 – Novos casos
(acumulado nos 9 primeiros dias de cada mês)


Fontes: Consórcio de veículos de imprensa brasileira. The New York Times.

Os estragos que essa pandemia está fazendo, além da perda de vidas – aumento da pobreza, da insegurança alimentar, do desemprego, da desigualdade, dos impactos sobre a educação, da economia como um todo, só para citar alguns –, mostra um outro lado que é preocupante: com a Covid-19, despencou a vacinação contra outras doenças, abrindo brecha para o ressurgimento de algumas que já estavam sob controle. Casos como a das vacinações contra hepatite B, a poliomielite, a tríplice viral, a BCG (tuberculose), entre outras, apresentaram preocupante queda, que já havia se manifestado em 2019, piorando no ano passado.

O sarampo, que havia sido erradicado e voltou a dar as caras em 2018, levou o país a ter surtos em pelo menos 21 estados em 2020, com o Pará respondendo por mais de 60% dos casos.

Se para as crianças o panorama é bastante ruim, a vacinação em adultos é ainda mais dramática. Não há muitos dados sobre isso, mas as poucas informações existentes apontam que apenas 60% das gestantes são vacinadas contra o tétano e a coqueluche. E apenas 50% dos adultos estão vacinados contra a hepatite B.

O que levou a isso? Uma das razões é a própria pandemia da Covid-19, que levou as pessoas a evitarem unidades de saúde com receio de contaminação pelo coronavírus. O Ibope Inteligência fez uma pesquisa mostrando que 29% dos pais não levaram seus filhos para serem vacinados desde que a pandemia começou. E 9% só levarão os miúdos a se vacinarem quando o quadro melhorar.

Mas não é apenas isso. Há, não só aqui, um movimento antivacina, ampliado com a pandemia. Muitos acreditam que a vacina pode ter efeitos colaterais nas crianças e, por não verem uma doença que não mostra sua cara, não tem a percepção dos riscos que isso pode trazer num futuro próximo. Na série Pandemia, que está na Netflix, já mencionada do Em Foco de 16 de abril, uma comunidade nos Estados Unidos é visceralmente contra a vacina. O caso, inclusive, foi levado à Justiça, já que mães entraram com uma ação para que a vacina fosse obrigatória, pois haveria risco para seus filhos que estavam em contato com crianças não vacinadas. Perderam.

É a mesma questão que se coloca com relação à vacina contra o coronavírus. Há uma legião de pessoas contrárias a se vacinar. Com uma pandemia mundial, a vacinação deveria, ou não, ser uma questão de saúde pública? Em países democráticos, é uma decisão complexa que esbarra na individualidade, no ir e vir das pessoas, no respeito às suas decisões.

Nos Estados Unidos, que já vacinou 94% da população com a primeira dose e 42% com duas, há campanhas oferecendo uma infinidade de coisas para quem for se vacinar: ingressos para jogos, hambúrgueres, compensações financeiras, bebidas, etc.

Por ser um tema complexo merece, sem dúvida, uma reflexão mais profunda da sociedade sobre o assunto.

Vacinação
(em % da população)


Fonte: Tabnet/Datasus. A linha laranja em 90% representa a meta de cobertura da BCG e Rotavírus, segundo o Plano Nacional de Imunização (PNI). A linha vermelha em 95% representa a meta das demais vacinas. *Tétano, Coqueluche, Difteria. ** Tríplice viral.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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