“Baixo potencial do Brasil para home office pode ampliar desigualdades”

Fenando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A transformação na maneira de empresas operarem produzida pela pandemia criou um divisor importante entre trabalhadores que aderiram ao teletrabalho durante o isolamento e aqueles que não puderam fazê-lo, devido às características de sua ocupação. No Brasil, a concentração do emprego em atividades de serviços de baixa complexidade, que exigem maior contato social, faz com que o percentual de trabalhadores que desempenham funções passíveis de migração para o home office seja baixa. De acordo a levantamento realizado pelo pesquisador do FGV IBRE Fernando de Holanda Barbosa Filho, esse potencial é de apenas 25,5%, quando em países como Estados Unidos e Reino Unido gira em torno dos 40%.

A análise feita por Barbosa, com base na Pnad Contínua e Pnad Covid, mostra que esse potencial no Brasil é ainda mais baixo quando se considera a infraestrutura que os trabalhadores têm para o teletrabalho. Desses 25,5% incialmente com potencial para trabalho remoto, 7,8% não têm condições adequadas para trabalhar em casa, reduzindo para 17,8% o grupo que efetivamente poderia fazer home office. “O que levamos em conta, nesse caso, é a disponibilidade de energia contínua, internet em casa e computador”, descreve Barbosa. 

 Trabalhadores que podem fazer home office (HO) – em %


Fonte: FGV IBRE, com dados da Pnad Contínua.

Esse percentual ainda sofre outras variações, conforme a região do país – sendo menor no Norte e Nordeste –; escolaridade – sendo mais de cinco vezes maior entre pessoas com ensino superior completo (62,4%, ou 52,9%, se considerada a disponibilidade de infraestrutura) em relação as que têm fundamental completo e médio incompleto (11,8% e 4,6%, respectivamente), por exemplo –; e é quase duas vezes maior nas atividades formais (31,7% e 23,6%, se considerada a infraestrutura) do que nas informais (respectivamente, 17,9% e 10,2). Barbosa também identificou que as ocupações em que mulheres são maioria têm maior potencial para o teletrabalho do “ainda que na pandemia tenhamos observado uma taxa de desemprego maior entre mulheres do que entre homens”, destaca. Outra característica observada no estudo é o alto potencial de home office nas atividades do setor público, mais que o dobro da verificada no setor privado, e que não mostra grande variação quando analisado por regiões, sem levar em conta a infraestrutura individual dos trabalhadores. “É uma característica relevante, que também se relaciona com o potencial aumento de produtividade que a digitalização pode proporcionar”, diz

Potencial de home office (HO) no Brasil em 2019 – setor público x privado – (%)


Fonte: FGV IBRE, com dados da Pnad Contínua de 2019.

Barbosa considera que a atual estrutura da economia brasileira não permitirá uma grande adesão ao home office, ou a modelos híbridos de trabalho, de forma permanente. De acordo à PNAD Covid, o pico de adesão ao teletrabalho verificado no país foi em junho de 2020, com 8,7 milhões de pessoas desempenhando suas atividades remuneradas de casa. Ele ressalta, entretanto, que a tendência de aumento da digitalização da economia provocará uma mudança gradual e inevitável no perfil das atividades, que demandará maior acesso e conhecimento de tecnologias de informação. Por isso, considera fundamental que o sistema público de ensino se adapte a essa demanda, ampliando sua conexão com o digital. “Se continuarmos com um sistema voltado à qualificação de pessoas para o mundo analógico, teremos um problema ainda mais sério adiante”, diz. Para o pesquisador, isso passa, de um lado, pela promoção de políticas bem estruturadas de ampliação do acesso digital entre crianças carentes, para que desde cedo adotem esse tipo de mídia. E, de outro, do aperfeiçoamento do sistema de educação a distância, explorando todas as potencialidades do ensino remoto, como complemento do sistema presencial de formação de crianças e jovens. “Se bem trabalhada, a educação a distância poderá inclusive ajudar na recuperação do tempo perdido na pandemia”, diz, citando iniciativas como reforço escolar.

O pesquisador reforça que o baixo potencial para o home office verificado na economia brasileira tende a ampliar desigualdades, o que deve se intensificar daqui para frente. “A diferença salarial observada entre as pessoas ocupadas em atividades passíveis de home office e as que não puderam adotar o teletrabalho já é alta. Levando em consideração que a economia digital tende a derrubar fronteiras nacionais na disputa pelas melhores vagas de trabalho, essa distância deverá ficar cada vez maior”, conclui.

Renda média do % de pessoas que podem fazer home office (em R$)


Fonte: FGV IBRE, com dados da Pnad Contínua de 2019.

 


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