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05 Set 2025

Em 2024, Brasil lidera investimentos chineses entre emergentes

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Levantamento anual do Conselho Empresarial Brasil-China divulgado esta semana revela que os investimentos chineses no Brasil em 2024 somaram US$ 4,16 bilhões, uma alta de 113% em relação a 2023. O levantamento leva em conta projetos classificados como confirmados, ou seja, que devem estar em operação ou fase de implementação. Tal evolução foi muito superior à do investimento estrangeiro no agregado que o país atraiu no ano passado, contabilizado pelo Banco Central, de 13,8%. Em número de projetos, o salto foi de 34%, com 39 confirmações.

Tulio Carriello, diretor de conteúdo e pesquisa do CEBC, autor do estudo, destacou na divulgação do estudo que o montante coloca o país como a economia emergente que mais recebeu investimento chinês no ano passado, e o terceiro lugar entre todos os países que tiveram investimentos produtivos chineses confirmados no período, ficando atrás apenas de Reino Unido e Hungria, onde se destacaram projetos ligados à cadeia de veículos elétricos. Na América Latina e Caribe excluindo Brasil, houve queda de 8% em relação a 2023. Já os desembolsos com destino aos Estados Unidos, por sua vez, mantiveram uma trajetória de queda verificada desde 2021, com uma retração de 11% em 2024 em comparação a 2023. “Uma tendência que ainda se mantém é a de ter os países em desenvolvimento entre os principais receptores de investimento produtivo: foram 7 entre os 10 principais em 2024; em 2023, foram 9 de 10”, descreveu Carriello.

No Brasil, foi o setor de eletricidade quem liderou a atração de investimentos chineses, com cerca de US$ 1,43 bilhão dedicados ao setor, ou 34% do total seguido pelo setor de petróleo (25%), fabricação de veículos automotores (14%) e mineração (13%). O diretor da CEBC também destacou maior diversificação regional do que no período anterior, com projetos em 14 estados. Ainda que em termos de estoque São Paulo continue dominando a atração de investimentos produtivos chineses, sua participação caiu 8 pontos percentuais em relação a 2023. Em contrapartida, no ano passado Rio Grande do Sul, o Mato Grosso do Sul, Bahia e Amazonas somaram aportes em seus portfólios. Desde 2007, o investimento direto da China no Brasil soma R$ 77,5 bilhões, em 303 projetos.

Principais receptores de investimentos chineses no mundo em 2024 (R$ bilhões)

 

Média anual dos investimentos chineses no Brasil em períodos de 5 anos


Fonte: CEBC.

O estudo do CEBC inclui uma análise da evolução desses investimentos desde 2010, dividida em períodos de cinco anos. Tal comparativo ilustra uma mudança no perfil de investimentos: no período mais recente (2020-24), observa-se um número maior de projetos, mas com desembolsos médios que representam a metade do registrado entre 2015-2019, por exemplo. “Enquanto o período anterior foi marcado por megaprojetos de infraestrutura elétrica, bem como de petróleo, agora vemos projetos menos intensivos em capital, como os voltados a energias limpas, indústria manufatureira e de tecnologia da informação”, comparou Carriello. Outra característica destacada por Carriello é a convergência dos investimentos absorvidos nos últimos anos com a agenda de industrialização (Nova Indústria Brasil - NIB) e de desenvolvimento correlacionado à transição energética (Plano de Transformação Ecológica – PTE) impulsionadas pelo governo federal. “O lançamento da NIB, em janeiro de 2024, vem na esteira de três anos consecutivos de aumento da participação dos investimentos chineses em sustentabilidade e energias verdes no Brasil, sendo que em 2024 representou 69% do total”, ilustrou, reforçando o momento de sinergias entre os interesses chineses e brasileiros. Fabiana D’Atri, diretora de Economia do CEBC, economista do Bradesco Asset Management, patrocinador do estudo, destacou no evento de divulgação do estudo que esse, tal como outros movimentos pelo mundo, reflete “as perspectivas do crescimento chinês, das dinâmicas que hoje conduzem a economia, a tecnologia, a industrialização de ponta, a preocupação com o fortalecimento do consumo, e o aprendizado com outros mercados”.

Divisão setorial dos investimentos chineses no Brasil (% do total)

 

Estoque de investimentos chineses por estado, 2007-2024
(% do total de projetos, 15 estados com maior participação)


Fonte: CEBC.

Presente no evento, João Tiusso, head de Estratégia de Projetos da Great Wall Motors - GWM Brasil, destacou o interesse da montadora em desenvolver sua cadeia de valor no país. Em agosto, a GWM inaugurou uma fábrica em Iracemápolis (SP), a partir da aquisição de uma planta da Mercedes-Benz, com investimentos de R$ 10 bilhões e capacidade para produzir até 50 mil veículos por ano. “Desde o início da produção já contamos com 18 fornecedores nacionais. Temos parceria com o Sindpeças em um programa de localização com o qual já temos mais de 100 empresas cadastradas. Também temos um processo bem interessante com um veículo da GWM, um RAV H6 completamente desmontado no Senai, permitindo que os potenciais fornecedores locais avaliem todos os componentes e proponham soluções, seja replicando ou mesmo adaptando/utilizando soluções locais já existentes para outros clientes” descreveu.

Para Sandra Rios, diretora do Centro de Estudos de Integração e Desenvolvimento (Cindes), a atração do investimento chinês é positiva, mas por si não resolverá o desafio brasileiro de diversificar a pauta exportadora, incluindo mais bens industriais. “Para isso, temos uma lista importante de reformas (da tributária a regulações) que impulsionem a atração de investimento que vise inclusive as exportações. Não dá para esperar que os chineses façam esse movimento simplesmente como gesto de cooperação com o Brasil”, destacou.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.