Com entrada dos EUA no conflito Israel x Irã, BC pode ampliar destaque ao fator geopolítico na Ata do Copom
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
A entrada dos EUA no conflito Israel x Irã, com o anúncio do ataque pelos EUA a três instalações nucleares do Irã, pode ampliar o destaque ao fator geopolítico na Ata do Copom que o Banco Central divulgará nesta terça-feira (24/6), afirma Livio Ribeiro, pesquisador associado do FGV IBRE. As incertezas vindas do cenário externo - que têm jogado um desafio extra na calibração da política monetária para banqueiros centrais em todo o mundo desde a eleição de Donald Trump, como destacou o diretor do BC Paulo Picchetti em entrevista à Conjuntura Econômica - ganhou um novo capítulo, com consequências inflacionárias ainda desconhecidas, a depender de seu desfecho.
A decisão do parlamento iraniano pelo fechamento do Estreito de Ormuz, corredor que concentra cerca de um terço do comércio marítimo de petróleo, e a quarta parte do comércio mundial do produto, levam analistas a prever um cenário em que o barril de Brent supere os US$ 100 – nos últimos cinco meses, esteve próximo de US$ 80. “No curto prazo, esse efeito não terá repasse direto à inflação no Brasil, pois a tendência é de que a Petrobras segure os preços”, afirma Ribeiro, lembrando da redução de preços da gasolina e do diesel nos últimos dois meses, contribuindo para o esforço de diminuir a inflação. “No caso do conflito, me pareceria um movimento correto, até se compreender os limites da guerra, e então pensar em movimentos posteriores de reajuste que aproximem os valores ao preço de paridade de importação (PPI)”, afirma.
Para Ribeiro, um elemento importante, a depender da evolução do conflito, será verificar se a demanda por outros ativos de proteção que não o dólar será suficientemente suprida. “Algo deverá vazar para o dólar, e isso poderá conter a tendência de apreciação do real, ainda que não estime um cenário de grandes saltos no curto prazo”, afirma. Em termos de inflação e política monetária brasileira, o pesquisador destaca que o risco geopolítico já havia sido incorporado no comunicado, “mas deve ganhar mais ‘tinta’ na Ata”, diz. “Mas enquanto a Petrobras não repassar qualquer impacto aos preços domésticos, e o câmbio não estiver mais elevado persistentemente, o efeito é neutro”, afirmou.
Na semana passada, o Comitê de Política Monetária do Banco Central (Copom) aumentou 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, para 15% ao ano. Também indicou em seu comunicado que essa decisão antecipa o fim do ciclo de alta de juros, deixando aberta a possibilidade de mudar de decisão depois de analisar os impactos do ajuste já realizado, e que a Selic deverá se manter alta por um bom tempo. A decisão foi interpretada como uma sinalização de que o compromisso do BC em levar a inflação à meta está acima de pressões políticas, o que elevaria a confiança do mercado. Para Ribeiro, entretanto, a estratégia ainda embute o risco de dificultar a contenção das expectativas do mercado quanto ao corte de juros para 2026, bem como de promover novos aumentos se julgar necessário. “Ainda que o Banco Central indique que estará fazendo uma “pausa para avaliação” dos efeitos defasados do ajuste já implementado, podendo retomá-lo em caso de necessidade, resulta claro que o sarrafo para novas elevações dos juros é bastante elevado”, afirmou, defendendo que o mais adequado seria deixar os próximos movimentos em aberto, sendo definidos a cada reunião.
Além das persistentes adversidades no campo externo, Ribeiro destaca que os sinais de desaceleração da atividade no nível doméstico ainda são insuficientes – d acordo ao Monitor do PIB do FGV IBRE, por exemplo, o consumo das famílias cresceu 1,9% no trimestre móvel findo em abril. “A projeção que tenho para a inflação no horizonte relevante também é mais alta que a do BC”, diz, citando a estimativa de 5% para o final e 2026, enquanto o BC projeta o IPCA em 3,6%.
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