Aumento recente da renda per capita se deve a fatores cíclicos e pode não se sustentar, alerta Silvia Matos

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Estudo divulgado hoje (24/10) pelo Observatório da Produtividade Regis Bonelli do FGV IBRE, repercutido pelo jornal Valor Econômico mostra que o celebrado aumento da renda per capita observado nos últimos 5 anos – com média anual de 1,7% –  é explicado primordialmente pela expansão da população ocupada. Ainda que mais pessoas trabalhando seja algo positivo, a alta dependência da dinâmica do mercado de trabalho para a sustentabilidade desse crescimento da renda implica, entre outras questões: que se trata de um movimento cíclico; e que tende a se reverter, levando em conta que se estima a atual taxa de desemprego acima do nível que não pressiona a inflação – tema abordado na Carta do IBRE de outubro –, o que significa que já ultrapassou sua margem para melhora.  

A decomposição da evolução da renda per capita feita pelo Observatório indica que a alta da taxa de ocupação explicou 70% do aumento observado entre 2020 e 2024. Já a expansão da produtividade, elemento que representa uma melhora mais perene nessa trajetória, respondeu por 20,1%. Mudanças na taxa de participação – aquela que indica a parcela da população em idade para trabalhar (14 a 64 aos) que está ocupada ou em busca de trabalho – representou 1,2% desse crescimento. Já o bônus demográfico, referência para a evolução do número de pessoas em idade para trabalhar em relação à população total, teve contribuição negativa de 3%

Silvia Matos, coordenadora do Observatório, observa que “o elevado crescimento da taxa de ocupação só foi possível em função da também elevada ociosidade da mão de obra no período anterior”, lembrando que o pré-pandemia brasileiro foi marcado pela recuperação de um período econômico recessivo. Entre 2015 e 2017, a taxa de ocupação registrou uma contração média de 1,1% ao ano. “Em suma, este fenômeno recente de elevado crescimento da taxa de ocupação só foi possível em função da elevada ociosidade da mão de obra no período anterior”, destaca o texto, indicando que entre 2019 e 2024, a população ocupada cresceu 8,1%, o que representou a incorporação de mais ou menos 7,5 milhões de pessoas no período. Matos reconhece a importância de um mercado de trabalho pujante, lembrando da influência da reforma trabalhista para esse resultado, possibilitando arranjos laborais mais flexíveis. Mas também alerta que a perenidade da melhora da renda per capita brasileira só será conquistada com melhoras também da produtividade da economia.

Decomposição da taxa de crescimento da Renda per capita (VA/POP)


Fonte: Observatório da Produtividade Regis Bonelli.

Para reforçar esse descompasso, o estudo mostra que enquanto a renda per capita cresceu 1,7% ao ano de 2020 a 2024, a produtividade do trabalho avançou bem menos, 0,3%, e a taxa de ocupação, locomotiva nessa história, 1,1%. Sem ganhos mais robustos de produtividade – considerando não só trabalhadores mais produtivos, mas o aumento da eficiência na combinação do trabalho com outros fatores de produção, como máquinas e adoção tecnológica –, e com a perda da contribuição da demografia – “o bônus demográfico terminou em 2018 e virou um ônus demográfico”, descreve o texto –, será difícil que a evolução da renda per capita repita o recente desempenho.

Para reverter essa tendência, Matos recorda análise recente de Samuel Pessôa, pesquisador associado do FGV IBRE, em que ele destaca que ineficiências estruturais no Brasil relacionadas ao marco legal e institucional do país entravam a concorrência e estimulam a má alocação de fatores de produção. Esse seria um dos fatores, por exemplo, pelo qual a melhora do capital humano brasileiro – soma de escolaridade e experiência laboral – não se reflete em uma maior produtividade do trabalho. O Índice de Capital Humano (ICH) medido pelo Observatório do IBRE registrou variação de 1,2% ao ano em média entre 2020-2024, período em que a produtividade do trabalho cresceu apenas 0,3% ao ano. Subsídios creditícios, isenções tributárias e políticas de conteúdo local implementadas sem a devida avaliação de impacto e posterior monitoramento – para correção os descontinuidade em caso de insucesso – são exemplos de práticas, diz Matos, que minam ganhos de eficiência econômica esperados com certas reformas. “Em suma, não estamos fadados ao fracasso, pois temos ainda uma longa agenda de reformas que pode impulsionar a produtividade no país. No entanto é importante compreender ‘Os Limites do Possível’ e não viver um autoengano”, conclui o texto.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.

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