Voltar
05 Set 2023

Cautela de empresários no horizonte de seis meses acende alerta para os investimentos

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Após a boa surpresa do resultado do PIB do segundo trimestre divulgado na última sexta (1/9) pelo IBGE, com expansão de 0,9% em relação ao período anterior, não faltam indicadores sugerindo cautela no otimismo quanto à tendência de novas surpresas positivas adiante. Tal como destacado por Paulo Picchetti, pesquisador do FGV IBRE, membro do Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace), em entrevista ao Valor Econômico (acesso restrito a assinantes do jornal), os sinais econômicos para os próximos meses são de desaceleração na virada do semestre, não o contrário.

A Síntese das Sondagens do IBRE relativa ao mês de agosto reforça esse diagnóstico. O bom desempenho do consumo das famílias (expansão de 0,9%) esteve espelhado nas consecutivas altas do Índice de Confiança registradas desde maio. “Ainda que qualitativamente o mercado de trabalho apresente desafios, há um momento favorável para quem está procurando emprego, refletido em uma taxa de desocupação que no trimestre encerrado em julho foi de 7,9%, a menor para esse período desde 2014. Ao que se soma a desaceleração da inflação especialmente de alimentos, que têm maior peso na cesta de consumo das famílias mais pobres”, diz Aloisio Campelo, superintendente de Estatísticas Públicas do FGV IBRE. Tal como destacado por Rodolpho Tobler ao Blog na semana passada (leia aqui), entretanto, as famílias ainda lidam com um orçamento apertado, “e nos próximos meses não teremos um novo aumento de benefícios sociais”, afirmou, ou mesmo sinais de avanço significativo na renda do trabalho.

“Mesmo com o impacto esperado de programas de renegociação de dívidas como o Desenrola, não dá para imaginar um impacto imediato no consumo. Ainda que ao limpar seu nome aos endividados se abre uma nova oportunidade de contratar crédito, essas pessoas ainda estarão pagando suas dívidas de qualquer forma”, completa Campelo, indicando a possibilidade de estas evitarem novas dívidas. Esse contexto, lembra, é especialmente complexo para o comércio de bens duráveis “cuja melhora tende a vir de forma mais consistente apenas ao longo do primeiro semestre de 2024”, como também no setor de serviços, onde segmentos como bens prestados às famílias já demonstra uma calibragem para baixo da confiança. “Olhando pelo retrovisor, parece que a última etapa da recuperação dos efeitos da pandemia, que esperávamos que acabaria em 2022, ainda se estendeu pela primeira metade deste ano. Mas o sinal dos indicadores sugere que esse efeito finalmente acabou”, diz, lembrando a importância os serviços prestados às famílias para a recuperação do setor ao longo de 2022.

Indicadores que medem o ímpeto de contratações e a evolução da demanda nos três meses seguintes seguem acima do indicador que mira um horizonte mais longo, de seis meses


Fonte: FGV IBRE.

A indústria, que também registrou expansão de 0,9% do PIB no segundo tri do ano, vinha em uma variação de confiança com cara de eletrocardiograma, com altos e baixos entre 92 e 94 pontos, caindo para a casa dos 91 pontos a partir de julho. Campelo destaca que, comparando agosto deste ano com o mesmo período de 2022, o índice de Confiança da Indústria registra queda de 9,6 pontos. O economista do IBRE afirma que um dos elementos que tem se somado à lista de preocupações dos empresários do setor é o contexto das exportações, diante dos sinais de desaceleração econômica na China, especialmente no segmento de alimentos e das expectativas quanto às eleições na Argentina, importante mercado para os manufaturados brasileiros, e que já vive um complexo cenário econômico. Esses fatores externos, por sua vez, também foram os principais motivadores da piora do Indicador de Incerteza da Economia-Brasil (IIE-Br), depois de chegar ao menor nível desde 2017 no mês anterior.

Um sinal de alerta que Campelo identifica nos resultados das Sondagens Empresariais, relacionado ás perspectivas de sustentabilidade de um crescimento da atividade mais robusto adiante, é a baixa confiança empresarial no horizonte de 6 meses, que em agosto fechou 4,2 pontos atrás do indicador que mede as expectativas para três meses à frente. “Isso pode ser reflexo de uma visão racional dos empresários de que elementos como o efeito da política monetária, com o início do ciclo de cortes de juros, não é de curto prazo. O problema, entretanto, é que esse horizonte é fator determinante para decisões como de investimento e contratação”, diz. No segundo trimestre do ano, a taxa de investimentos na economia ficou em 17,2, com aumento de 0,1% em relação ao período anterior. Apesar de um resultado melhor que o do primeiro tri, quando a Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF) registrou queda de 3,4% na mesma comparação, ainda está 1,1 ponto percentual abaixo da taxa registrada no segundo tri de 2022, de 18,3%. “Independentemente de estarem certos em suas percepções, essa cautela dos empresários pode acabar se tornando uma profecia autorrealizável”, diz, o que colaboraria para um menor dinamismo da economia no médio prazo.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.