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17 Ago 2023

Alimentos ainda podem compensar efeito do combustível na inflação, a depender do El Niño, diz André Braz

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

Com o aumento de 16,27% no preço da gasolina e de 25,82% para o diesel nas refinarias anunciado pela Petrobras há dois dias (15/8), muitos analistas revisaram suas projeções, levando o IPCA do final de 2023 para mais longe do teto do intervalo de tolerância da meta de inflação - de 4,75%, com o centro em 3,25%.

André Braz, coordenador dos Índices de Preços do FGV IBRE, destaca que a recomposição em relação ao preço internacional do petróleo ainda não aconteceu integralmente para a gasolina, restando ainda uma pequena defasagem que pode abrir margem a novas altas. “O preço do petróleo não é estático, e essa volatilidade que não nos garante precisão absoluta para prever os efeitos na inflação de 2023. A tendência, entretanto, é de alta ou ao menos sustentação no atual patamar”, afirma Braz, apontando a falta de sinalização de investimentos entre países da Opep para ampliar produção, e a tendência mundial de substituição da matriz energética mundial para fontes de baixa emissão de carbono, o que tem imposto um crivo adicional aos projetos relacionados a fontes não-renováveis mais poluidoras. “Assim, países com pouca capacidade técnica de ofertar mais petróleo têm revisado seus projetos, e os que têm capacidade têm administrado a oferta para garantir preços mais altos, o que alimenta esse viés de alta.”.

Braz lembra que o aumento dos combustíveis exerce efeito direto e indireto na inflação. O direto é observado no varejo; o indireto é o que afeta a estrutura produtiva de alguns segmentos, levando a repasses ao longo da cadeia. “Isso é mais fácil de ser observado no diesel, que é mais usado em fretes e na geração de energia. Um aumento de 25% do diesel na refinaria representa uma alta de 15% ou mais na bomba, o que não é desprezível. Se for mantido por longo prazo, pode estimular o aumento de preço de outros produtos. Além disso, há derivados de petróleo cujo preço não é regulado e que impactam os custos de produção de produtos como tubos de PVC, adubos, fertilizantes e defensivos, e alguns medicamentos. E isso acaba se transformando em inflação”, afirma.

No Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) do FGV IBRE, onde a evolução preços dos combustíveis é calculada pelo valor da refinaria, sem impostos e taxas, o diesel registrou queda de 46,28% em 12 meses até julho. “É um resultado que absorve completamente o aumento registrado em agosto, apontando que esse combustível fechará o ano mais barato do que em 2022”, afirma. No caso da gasolina, essa queda era um pouco menor, de 36,57%, mas também suficiente para absorver a recente alta de 16,27%. “No caso da inflação para o consumidor - medida no IPC, que considera o preço na bomba, e onde o diesel tem pouca participação - a história muda, já que houve uma volta de impostos”, diz Braz. Até julho, a gasolina acumulava queda de 10,74% em 12 meses. Com a recente alta, essa deflação cairá para em torno de 6%, “o que já aproxima o preço do praticado em agosto de 2022”. 

Quanto ao impacto do comportamento da inflação de combustíveis no IPCA de 2023, Braz considera que ainda há chances de um resultado próximo do teto da meta, graças à ajuda dos alimentos. Tal como destacou no Boletim Macro de julho, a boa oferta de grãos e o desaquecimento da economia mundial sustentam preços em dólar de importantes commodities alimentícias em níveis mais baixos. “Nossa coleta de dados de agosto antecipa uma queda de mais de 1% para alimentos no domicílio. Isso é importante neste mês, em que já vamos captar pelo menos 50% do aumento do preço da gasolina - levando em conta que a vigência do aumento começou na segunda metade do mês, dividindo esse impacto entre agosto e setembro”, afirma. No IPC, a gasolina tem peso de 5%, enquanto a alimentação no domicílio representa 15% do Índice. “Com a perspectiva dessa importante queda dos alimentos, pode-se compensar a influência da gasolina, abrindo espaço para que, mesmo com o impacto dos combustíveis, o IPCA ainda feche o ano dentro do intervalo de tolerância da meta.” Antes do aumento dos combustíveis, as projeções de Braz eram de o IPCA fechar 2023 em 4,5%. 

Da mesma forma que no campo do petróleo a volatilidade complica o cálculo dos economistas, nos alimentos ainda há um fator que pode afetar esse otimismo, que é o efeito do El Niño, marcado por temperaturas mais altas e mais chuva. “Ainda que seu efeito na safra de grãos só ocorra no ano que vem, para este ano ele ainda pode prejudicar a cultura de alimentos in natura, como hortaliças e legumes. Dependendo do impacto, mesmo um alimento que não tem muito peso no IPCA pode afetar o resultado”, diz, lembrando que a influência do El Niño poderá ser observada a partir do quarto trimestre.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.