Barômetros Globais registram melhora em agosto, disseminada entre as regiões
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
Depois de registrar um comportamento oscilante no primeiro semestre do ano, os Barômetros Globais começam o segundo semestre em trajetória de alta. Depois de os Barômetros Econômicos Globais Coincidente e Antecedente subirem 2 e 2,1 pontos, respectivamente, em julho, em agosto somaram mais 1,5 ponto e 2,9 pontos. O principal destaque nessa evolução é o fato de o Barômetro Antecedente, que mede a percepção dos analistas quanto ao futuro no médio prazo, chegou a 96,3 pontos, ficando mais perto de abandonar o pessimismo e atingir o nível neutro de 100 pontos.
Paulo Picchetti, pesquisador do FGV IBRE responsável pela divulgação, aponta que o resultado foi disseminado entre as regiões. Em sua avaliação, essas altas sequentes podem estar relacionadas à percepção de que a previsão de uma desaceleração econômica mais forte nas principais economias do globo perdeu força, ao menos por agora.
No caso do Barômetro Coincidente, a maior alta foi registrada na região Ásia & Pacífico e África, de 0,8 ponto – seguido por Europa (0,5) e Hemisfério Ocidental (0,2) – levando o Indicador a 87,2 pontos. A contribuição acumulada em 12 meses encerrados em agosto, entretanto, ainda é negativa em 2,4 pontos. A mesma dinâmica se repete no Barômetro Antecedente, com o bloco que inclui a Ásia registrando 1,2 ponto de alta, seguido por Europa (1 pontos) e Hemisfério Ocidental (0,7 ponto).
Ainda que a direção seja positiva, Picchetti ressalta que esses resultados ainda são insuficientes para indicar uma recuperação robusta.
Em análises recentes, Livio Ribeiro, também pesquisador do FGV IBRE, destaca que o cenário é desafiador, destacando três frentes. A primeira é a composição da inflação global, que ainda sugere persistência; isso, por sua vez, amplia o desafio de coordenação entre políticas monetárias e fiscais, que na avaliação de Ribeiro ainda estão descoordenadas; e, para fechar, é preciso lembrar de choques que ainda não podem ser antecipados, como a evolução da guerra russo-ucraniana. Sob esse contexto, ressalta, é mais difícil encontrar o nível ideal de calibragem de políticas produzindo uma taxa de sacrifícios que seja ao mesmo tempo suportável e eficiente no combate à inflação. No caso dos EUA – cujas projeções de crescimento para 2023 foram revistar para cima na virada do semestre, muitas na casa de 1,5% para cima – há expectativas sobre como o comitê de política monetária do FED (Fomc) irá capitanear novos aumentos de juro básico depois da alta da taxa referencial americana para 5,25%-5,5% ao ano em julho. Na Europa, por sua vez, o movimento de revisões foi na direção contrária com muitas projeções dos principais bancos indicando de 0,5% para baixo. Na região, lembra Ribeiro, o temos é de que a dinâmica de desaceleração econômica já esteja alcançando o patamar do excessivo. “Vale lembrar que, para a Europa, já foi sinalizado que o pico de juros será um platô, por tempo ainda indeterminado”, diz. Ele lembra que, no campo da energia, na região os preços já se recuperaram do choque de 2022. Há evidências de que, como em outras economias, o aperto no mercado de trabalho continua tendo peso significativo para explicar a pressão de preços.
Ribeiro indica que a tendência é de um biênio 2023-24 com crescimento moderado, e ainda muito dependente da Ásia – o que é um problema, já que o desempenho da China, locomotiva da região, tem dado constantes sinais de enfraquecimento. O pesquisador – que recentemente foi apontado pela Bloomberg entre os cinco principais analistas econômicos de China do mundo – destaca que, além da atividade chinesa no segundo trimestre ter fechado abaixo do esperado, sua composição preocupa. O setor manufatureiro é fortemente afetado pela desaceleração da demanda mundial e, no âmbito doméstico, o setor imobiliário tem registrado baixo desempenho, apesar das amplas medidas de estímulo operadas pelo governo. Ele destaca, entretanto, que essa queda da capacidade de crescimento estrutural da China deve ser interpretada como salutar. Do contrário – ou seja, se o governo mantivesse metas de expansão anual do PIB acima de 6% num prazo mais longo –, a chance de contratar problemas para famílias, empresas e estado será alta. Outra questão reforçada por Ribeiro é a ineficiência de estratégias focadas em estimular a oferta, quando o que a China vive hoje, afirma, é um problema de demanda. “O desequilíbrio entre pouco ganho de atividade econômica para a expansão de estímulos operada reflete ineficiências e risco de endividamento excessivo”, afirma.
A projeção de Ribeiro para o PIB chinês este ano é de 5,2% – “sobre uma base de crescimento de 3% em 2022, que favorece o desempenho deste ano” –, e para 2024, alta de 4,3% “com viés de baixa” – o que, alerta, ainda não está sendo observado pelo mercado em geral.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.