Em Foco
À espera do resultado das eleições
Por Claudio Conceição, do Rio de Janeiro
Com pouco mais de uma semana do segundo turno das eleições mais polarizadas desde a redemocratização, sem discussões ou projetos mais concretos para o país, a incerteza continua permeando o futuro recente.
O que não deixa de ser um componente que turva qualquer previsão sobre o que vai acontecer quando o novo presidente assumir. Quem estuda, acompanha e faz previsões sobre a economia tem que se desdobrar em suas análises, dada a precariedade de informações sobre o que será feito a partir do dia 1º de janeiro de 2023.
Como tenho escrito neste espaço, as cicatrizes deixadas pela pandemia, ainda não totalmente compreendidas, e a guerra na Ucrânia, que ganha contornos mais dramáticos e preocupantes a cada dia, tornaram tudo mais difícil, injetando mais adrenalina na incerteza que o mundo carrega desde que a pandemia começou, há mais de dois anos.
Como disse um executivo durante encontro de diretores de algumas grandes empresas de que participei esta semana: “Temos que prever uma coisa sem saber o que vai acontecer, como foi a pandemia, a guerra. O que vai acontecer lá? O que vai acontecer com o petróleo? Nunca foi tão frequente replanejar três, quatro vezes por mês. E continuamos nessa incerteza, tornando o planejamento extremamente difícil”. Grande parte dessa incerteza está, umbilicalmente, ligada com o resultado das eleições e qual será a condução da política econômica, especialmente na questão fiscal, tema recorrente de preocupação entre os executivos reunidos no encontro.
Veja: Incertezas e desafios
Como aponta o Boletim Macro FGV IBRE de outubro, já em circulação, depois de uma recuperação da atividade econômica que superou as previsões, há uma expectativa de forte desaceleração do crescimento econômico, com reversão parcial dos ganhos, tanto na atividade econômica como no mercado de trabalho. O PIB deste ano pode fechar com um crescimento entre 2,5% e 3%, o que é uma melhora significativa.
O Boletim sinaliza três fatores que podem levar a uma reversão de expectativas, com impactos negativos sobre a economia brasileira.
• O primeiro é a deterioração do cenário externo, com menos crescimento, dólar forte, menor liquidez e preços de commodities mais baixos. Mundo afora, e nas economias desenvolvidas em especial, a inflação continua persistentemente alta. A despeito da desaceleração na demanda global por bens, os núcleos de inflação seguem em patamares muito elevados.
Alguns exemplos são citados, para mostrar que a economia mundial desacelera no ano que vem. “Na China, as perspectivas não são nada favoráveis. O setor de serviços mostra contração, de acordo com o índice de gerentes de compras (PMI) Caixin, que marcou um resultado de 49,3 em setembro, contra 55,0 em agosto. Essa queda encerrou três meses de expansão na atividade, com o índice caindo abaixo de 50, valor que separa expansão de contração. E medidas adotadas recentemente para conter novos surtos de Covid-19 devem prejudicar ainda mais o setor. A expectativa é que a China cresça apenas 3,2% neste ano.”
O Fundo Monetário Internacional (FMI) reduziu em 0,2 ponto percentual a projeção de crescimento mundial no ano que vem, para 2,7%. É a expansão mais fraca desde 2001, excluindo o auge da Crise Financeira Global, em 2009, e a fase aguda da Covid-19, em 2020. Segundo o FMI, há possibilidade de um terço dos países que o Fundo acompanha entrarem em recessão em 2023. Entre os destaques negativos está a previsão de contração na Alemanha e na Itália, com o Reino Unido crescendo muito pouco e os EUA desacelerando para 1%, após expectativa de crescimento de 1,6% este ano.
Ainda segundo o FMI, “a saúde futura da economia global depende criticamente da calibragem bem-sucedida da política monetária, do curso da guerra na Ucrânia e da possibilidade de mais interrupções do lado da oferta relacionadas à pandemia, por exemplo, na China”.
• Um segundo elemento que vai contribuir para desacelerar nosso crescimento é o efeito defasado do aperto monetário realizado pelo Banco Central do Brasil. Isso tende a se dar especialmente por meio da perda de dinamismo do crédito às famílias, que se mostrou mais forte do que o esperado este ano, ajudando a alavancar o desempenho positivo da economia brasileira em 2022.
Diz o Boletim: “em um contexto de alta expressiva da taxa de juros reais, as famílias têm menor capacidade de rolar suas dívidas, com aumento da inadimplência, e consequentemente, o encarecimento do crédito à frente. Adicionalmente, os dados divulgados pelo Bacen mostram que o custo de captação tem aumentado e que as modalidades que mais crescem são as mais caras, denominadas emergenciais, como o rotativo do cartão de crédito e o cheque especial, que são mais acessadas em momentos de dificuldades. E, não menos importante, o endividamento das famílias brasileiras com o sistema financeiro fechou julho em 53,1% da renda (último dado disponível), novo recorde da série histórica. Em junho, era de 52,9%. Se forem descontadas as dívidas imobiliárias, o endividamento ficou em 33,6% da renda, também recorde na série. O comprometimento de renda das famílias com dívidas bancárias (juros e amortizações) terminou julho em 28,6%, um aumento em relação ao mês anterior e um novo recorde histórico”.
• O terceiro ponto, não menos importante, é a necessidade de colocar um freio no aumento dos gastos públicos primários, que este ano devem ficar cerca de R$ 200 bilhões acima do previsto pela regra do teto de gastos na sua versão original. O que se vê, porém, é forte pressão por novo aumento de gastos em 2023. O discurso eleitoral de ambos os candidatos vai na direção da aprovação de um waiver fiscal (suspensão temporária das regras fiscais) para viabilizar gastos públicos supostamente indispensáveis, mas não incluídos no PLOA referente a 2023. O que se teme é a possibilidade de um exagero em eventual aprovação do waiver, especialmente se essa ocorrer sem qualquer contrapartida em termos de fortalecimento de nossa estabilidade fiscal.
“A opção por nova expansão real dos gastos primários em 2023 complicaria ainda mais o cenário aqui traçado. De um lado, dificultaria o trabalho do Bacen, possivelmente exigindo novas altas da Selic para trazer a inflação para a meta. De outro, aumentaria o risco de insolvência pública. Ambos os efeitos levariam a um aumento da despesa com juros sobre a dívida pública, piorando o quadro fiscal, que também deve ser impactado pela desaceleração do crescimento e os preços mais baixos das commodities”, ressalta o Boletim.
Veja outros destaques do Boletim:
Atividade Econômica
Com as surpresas positivas no setor de serviços em agosto, e com o bimestre julho-agosto mais favorável do que antes esperado, revimos nossa projeção de alta do PIB no terceiro trimestre, de 0,4% para 0,6%, e, para o ano fechado, de 2,5% para 2,7%. A redução de tributos sobre combustíveis e lubrificantes deu um impulso no setor de transportes, mas nos próximos meses os serviços devem ter contração – mesmo com o aumento do valor dos auxílios (transferências de renda) e a melhora no mercado de trabalho – por conta da inflação que ainda não cedeu no setor. Para 2023 a previsão é de queda de 0,4% do PIB.
Confiança
Os dados de confiança vinham mantendo sua trajetória positiva até setembro, mas, pelo lado empresarial, começavam a dar sinais de possível desaceleração. A prévia de outubro mostra que isso pode já estar ocorrendo e sinaliza queda. Pelo lado dos consumidores, os resultados positivos de setembro parecem alinhados com a desaceleração da inflação e a melhora do mercado de trabalho. A tendência para o final do ano é incerta, mas já há sinais de desaceleração.
Inflação
O ciclo de taxas negativas do IPCA chegou ao fim. Entre julho e setembro, índice oficial recuou 1,3%. Essa sequência de quedas não ocorreu por efeito generalizado, mas sim pela redução do ICMS de preços administrados. Para o próximo trimestre, a tendência parece um pouco diferente. Segundo o Monitor da Inflação, o IPCA poderá subir em outubro, influenciado pela aceleração dos preços administrados e por nova pressão inflacionária que se forma entre os alimentos.
Política Monetária
Participantes do mercado e o público em geral esperam que o Banco Central possa dar início a um novo ciclo de baixa da taxa Selic em algum momento de 2023. Na seção sobre política monetária, argumenta-se que eventual movimento do BC nesse sentido dependerá essencialmente do encaminhamento que o novo governo vier a dar ao problema fiscal.
Veja a íntegra do Boletim Macro FGV IBRE. E acesse, gratuitamente, a revista Conjuntura Econômica de outubro com análises sobre “Os desafios do próximo presidente”.
As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.