Superávit brasileiro desacelera, puxado pelo minério de ferro, prenunciando desafios para a balança comercial em 2023
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O saldo da balança comercial brasileira no acumulado do ano até setembro fechou em superávit de US$ 47,7 bilhões, 16% menor do que no mesmo período de 2021, como aponta o Icomex do FGV IBRE divulgado dia 18/10. Essa desaceleração se justifica principalmente pelo resultado da indústria extrativa - em especial no segmento de minério de ferro -, indicando que a desaceleração do crescimento chinês e a queda dos preços dessa commodity, por ora, são os fatores de maior peso. A China continua respondendo por boa parte do superávit acumulado, contribuindo com US$ 24,3 bilhões para o resultado observado até o mês passado. Em volume, entretanto, observa-se uma redução de 10,9% nas exportações ao país em relação a janeiro-setembro de 2021.
De acordo ao Icomex, quando se analisado resultado por tipo de indústria, nos primeiros nove meses do ano a agropecuária registrou aumento de US$ 14 bilhões em seu superávit em relação ao ano passado, para US$ 53 bi; a indústria de transformação ampliou seu déficit em US$ 4,6 bi, para US$ 36,9 bi; e a indústria extrativa no agregado reduziu seu superávit em US$ 18,9 bilhões, para US$ 32,6 bi. Entre as principais commodities exportadas pelo Brasil, apenas o minério registrou queda nos termos de troca, de 32,3% na comparação interanual do acumulado do ano até setembro. O complexo de soja apresentou aumento de 25,6%, e as carnes, de 19,5%. No caso de petróleo e derivados, os preços das exportações subiram 54,1%, contra 71,6% dos importados pelo Brasil - o que comprava, ressalta o Icomex, que o resultado final para o país ainda é negativo.
Balança comercial do Brasil – principais regiões e blocos
janeiro a setembro de 2022, em US$ bilhões

Fonte: Secex, Ministério da Economia. Elaboração: FGV IBRE, base Icomex.
Lia Valls, pesquisadora associada do FGV IBRE, afirma que as recentes revisões para baixo do crescimento da economia mundial para 2023 - pelas projeções do FMI, no ano que vem o mundo crescerá 2,7%; a Unctad estima em 2,2% -, acentua as dúvidas sobre o dinamismo das exportações para o ano que vem. “A China lidera essa desaceleração, mas nosso segundo maior parceiro comercial, os Estados Unidos, também vão por esse caminho, tanto quanto União Europeia - o FMI prevê recessão na Alemanha e Itália - e a Argentina, principal parceiro comercial do Brasil na América do Sul”, enumera Lia. Isso, diz, deverá representar uma queda das exportações brasileiras tanto em volume quanto em preço.
Lia recorda que, no acumulado deste ano, o choque positivo de preço das commodities vendidas pelo Brasil - que representaram 68% do total das exportações de janeiro a setembro deste ano - colaboraram positivamente para a balança comercial, já que em volume tanto a indústria extrativa quanto a agropecuária registraram retração em relação a 2021 - respectivamente, -6,7% e -2%. Somente a indústria de transformação ampliou o volume exportado, em 8,8%, em relação a 2021. A pesquisadora afirma que, para ampliar a resiliência da balança comercial brasileira diante da volatilidade de preços de commodities não se deve defender uma redução das exportações destas, mas sim ampliar a competitividade brasileira em produtos de maior valor agregado, somando forças. “Não é um trabalho fácil, mas passa por incentivar a pesquisa de nichos diferenciados em que o país pode entrar de forma competitiva”, diz Lia. Ela também ressalta a importância da busca por melhorar a competitividade da economia como um todo, bem como do ambiente de negócios, para se fortalecer a posição do Brasil como hub de empresas multinacionais para o desenvolvimento de produtos para mercados específicos. “Garantir a atratividade do país para a atração de investimento produtivo com vistas à exportação certamente é um caminho”, diz.
Desafios na agenda da diplomacia comercial
Essa tarefa de trabalhar para uma diversificação da pauta exportadora brasileira tende a ser ainda mais complexa diante da atual conjuntura global, de alta instabilidade geopolítica. Como destacou em artigo da Conjuntura Econômica de outubro, bem como em entrevista https://www18.fgv.br/mailing/2022/conjuntura-economica/09-setembro/revis... anterior, Lia diz que o ideal para estes tempos turbulentos é que o país busque uma posição de neutralidade e defesa do multilateralismo.
Mensagem semelhante foi apresentada pelo Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri) em policy paper lançado este mês, com recomendações para a política exterior do país. No documento, o embaixador José Alfredo Graça Lima, vice-presidente do Cebri, e Victor do Prado, senior fellow da instituição, orientam que o Brasil alimente “relações comerciais não-excludentes”, com diversidade de parceiros e pautas, bem como uma posição de defesa da OMC.
Variação (%) o volume de exportações e importações por mercados
janeiro a setembro 2021/22

Fonte: Secex, Ministério da Economia. Elaboração: FGV IBRE, base Icomex.
Eles defendem que, no caso dos Estados Unidos - com o qual a relação comercial tende a ser deficitária - o Brasil busque intensificar a cooperação bilateral. Também destacam a importância do cuidado com a agenda ambiental para as boas relações comerciais com a União Europeia, e a busca por aumento da competitividade para ampliar a pauta comercial com a China. Graça Lima e Prado também ressaltam a importância de que, quando assumir a presidência do G-20, no fim de 2023, o Brasil lidere o debate sobre fim de subsídios, defesa do aumento do uso da bioenergia, e inclusão social à economia digital. Ainda destacam a importância da entrada do país na OCDE, para que participe da definição de prioridades e linhas de ação da organização. “Nesse caso, é importante que o Brasil, junto a pares como o México, defenda que a orientação para políticas dentro do âmbito da OCDE leve em conta as especificidades de cada economia, especialmente as em desenvolvimento”, diz Lia. “Afinal, a OCDE não determina o crescimento de uma economia, mas traz um selo importante para impulsioná-la. Ser mal avaliado pela instituição pode não fazer diferença para os países desenvolvidos, mas pode marcar negativamente o grupo de países que não têm as mesmas condições para seguirem as regras, mas estão lá dispostos a melhorar”, conclui.
Crescimento anual do volume de comércio e do produto mundial
1990/2020

Fonte: www.wto.org.
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