Confiança empresarial: indústria e serviços registram melhora na maioria dos segmentos
Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro
O resultado de maio das sondagens do FGV IBRE mostra uma fotografia em que o setor produtivo brasileiro passa por um bom momento, ainda que não exuberante. O Índice de Confiança Empresarial subiu 2,9 pontos no mês, depois de uma alta de 2,7 pontos em abril, chegando a 97,4, maior nível desde outubro do ano passado, quando atingiu os 100,4 pontos. No mês, a construção foi o único setor a registrar queda. A confiança do comércio subiu 7,4 pontos, passando para um terreno de pessimismo moderado (93,3 pts), e indústria e serviços alcançaram o nível de neutralidade, próximo dos 100 pontos (respectivamente, 99,7 e 98,3 ptos).
“No caso do setor de serviços, os efeitos da pandemia dão sinais de terem ficado para trás, com os serviços prestados às famílias – segmento mais afetado pela Covid-19 – indicando funcionamento normal, com uma situação bastante equilibrada e nível de atividade moderado”, descreve Aloísio Campelo Jr., superintendente de Estatísticas do FGV IBRE. Já na atividade industrial, Campelo destaca que o impulso se dá pelo segmento de bens intermediários, que representam quase 50% do valor adicionado da indústria de transformação no Brasil, que responde à demanda externa e de substituição de importações. “O segmento de adubos e fertilizantes, por exemplo, tem ganhado espaço com o impacto da guerra na Ucrânia. Entre os derivados de petróleo também se observa a tentativa de aumentar a produção frente às dificuldades internacionais. Assim como em metalurgia e papel e celulose, que apresentam boa associação com a produção primária doméstica”, descreve, ressaltando, no caso do setor de papel e celulose, a conjuntura de escassez de pasta de celulose que tende a demorar para ser equacionada.
Confiança sobe em todos os setores, exceto na Construção

Fonte: FGV IBRE.
Como em todo resultado agregado, entretanto, ainda há exceções. Na indústria, dos 19 segmentos consultados, 7 ainda apresentaram queda em maio. Algumas de característica acomodatícia, aponta Campelo, como na indústria de alimentos, cuja confiança havia subido de 88,6 pontos em fevereiro para 93 em abril, recuando 1 ponto em maio. “O segmento têxtil também perdeu um pouco, talvez em função de competição com produtos importados. Mesmo assim, se encontra em um bom momento, percebido tanto nos resultados da sondagem da confiança quanto pelas vendas do comércio”, afirma. Outros entretanto, apresentam uma queda mais acentuada, como no caso da indústria de informática e eletroeletrônicos e da fabricação de linha branca. “Antes da pandemia, esses segmentos apresentavam uma distância menor em relação ao agregado da indústria – lembrando que todos os indicadores são convertidos ao mesmo período base, de 2010/12, para ser comparáveis”, diz. No caso dos bens de informática, campelo aponta que antes da pandemia, em fevereiro de 2020, a distância do setor em relação ao agregado da indústria era menor – de 91 x 101 da indústria, para os atuais 73,5 x 99,7 pontos, respectivamente. “Há, entre outros fatores, um efeito de acomodação da demanda depois do início da pandemia, no momento de substituição de consumo de serviços por bens. Para se ter uma ideia, entre agosto de 2020 e fevereiro de 2021 a média da confiança no segmento de informática foi de 98,9, chegando a marcar acima de 100 pontos três vezes”, lembra Campelo. No caso da linha branca, o pesquisador do FGV IBRE ressalta que o segmento já registra baixo nível de confiança há algum tempo. “A última vez em que registrou nível de confiança na casa dos 100 pontos foi antes da recessão iniciada no segundo trimestre de 2014, com média de 100,2 ainda no primeiro semestre desse ano”, lembra.
Indústria: segmentos perdem força
variação do Índice de Confiança, em pontos

Fonte: FGV IBRE.
Serviços: mais uma onda no caminho da recuperação

Fonte: FGV IBRE.
No caso da confiança em serviços – dos 13 segmentos consultados em maio, 9 registraram alta e 4, queda – Campelo ressalta que o segmento de variação negativa mais significativa é o aéreo, que ainda demonstra maior defasagem na recuperação em relação ao pré-pandemia. “A característica mais interessante nos últimos resultados do setor é a dos vaivéns da confiança diante de uma nova onda – no caso mais recente, a da Ômicron – levanto a altos e baixos que muitas vezes nos fazem questionar, afinal, qual o parâmetro de recuperação a que se referir na próxima análise”, comenta. Um exemplo é o setor de alojamento e hotelaria, que em outubro passado registrou 115,2 pontos no índice de confiança – contra 97,6 em fevereiro de 2020 -, caiu para 95 pontos em fevereiro e em maio subiu para 114,5 pontos. “Movimento parecido por ser observado no setor de alimentação fora de casa e nos outros serviços prestados às famílias, como de cabeleireiros e academias de ginástica, que em maio alcançou os 103 pontos”, cita.
Um ponto positivo destacado na Síntese das Sondagens do FGV IBRE, divulgada hoje, é de que, no agregado, o índice de confiança que mede a situação atual e as expectativas à frente passaram a convergir para o mesmo nível. Campelo ressalta, entretanto, que começa a ressurgir uma diferença entre a expectativa para os próximos 3 meses quando comparada com o horizonte de 6 meses. “Até janeiro, estavam empatadas, mas agora voltaram a se distanciar, com 2,6 pontos de diferença em maio”, afirma. O impacto do aumento dos juros e a baixa confiança do consumidor podem estar entre os elementos de maior cautela em um horizonte mais longo. “Considero que par aos próximos dois meses as Sondagens ainda deverão apresentar bons resultados. A partir de agosto, entretanto, dependerá da influência de vários fatores como política monetária, eleições e desaceleração da economia mundial”, conclui.
Confiança empresarial e dos consumidores em direções opostas
Eixo esquerdo:índices de confiança dessazonalizados; eixo direito: diferença, em pontos

Fonte: FGV IBRE.
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