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30 Nov 2021

Abalo na confiança empresarial chega ao setor de serviços

Rodolpho Tobler, analista econômico da Superintendência Adjunta de Ciclos Econômicos do FGV IBRE

Por Solange Monteiro, do Rio de Janeiro

A piora da confiança empresarial que já vinha sendo detectada no comércio, indústria e construção chegou agora aos serviços. A Sondagem de novembro aponta a primeira queda de confiança no setor – o mais prejudicado com a pandemia, e o último a iniciar sua recuperação –, depois de seis meses consecutivos de alta, impulsionada pelo avanço da vacinação e normalização das atividades que envolvem contato social. O Índice de Confiança medido pelo FGV IBRE registrou queda de 2,3 pontos em relação ao mês anterior, para 96,8 pontos, afastando-se do nível de neutralidade, de 100 pontos.

Rodolpho Tobler, analista responsável pela divulgação das Sondagens de Serviços e Comércio, aponta que o resultado é reflexo da piora das condições macroeconômicas do país, especialmente da alta inflacionária e da lenta recuperação do mercado de trabalho – liderada por vagas informais –, que afeta a capacidade de consumo das famílias e as torna mais cautelosas. “Em novembro, tanto a confiança de serviços quanto a do comércio demonstraram uma retração disseminada tanto entre segmentos quanto no horizonte de tempo, atingindo a confiança no momento atual e as expectativas para os próximos meses”, afirma. No caso do comércio, a terceira queda consecutiva de confiança se soma a um movimento morno de vendas na Black Friday, que já fazem analistas revisarem para baixo suas expectativas para o Natal. “Enquanto o comércio já acionou o sinal vermelho, os serviços acabam de acender o amarelo, lançando mais preocupação sobre o fôlego da retomada econômica, já que são as atividades que dinamizariam a economia neste final de ano, por terem muito a recuperar”, descreve Tobler. As respostas dos 1.501 empresários que participaram da Sondagem de Serviços foram recolhidas até o dia 25, quando as notícias relacionadas aos riscos da variante ômicron ainda começavam a tomar o noticiário. “Caso se confirme a necessidade de novas medidas de isolamento, a tendência é de que o setor de serviços se ressinta ainda mais”, lembra o analista.

A reversão do otimismo quanto à melhora da atividade do setor de serviços também foi verificada no Indicador de Desconforto. Tobler conta que esse índice é calculado a partir de um questionário específico contido na Sondagem, formado por oito fatores sugeridos e uma pergunta aberta. “Tanto no caso de serviços quanto no de comércio, o nível de desconforto dos empresários ainda está acima do verificado antes da pandemia, e os últimos resultados mostram um movimento ‘de lado’, que interrompe o caminho de melhora”, descreve. Os motivos que levam ao aumento do desconforto – que teve picos registrados durante a recessão econômica de 2014-16 e agora na pandemia – variam conforme o período. Na última pesquisa, Tobler afirma que os fatores que lideram essa insatisfação tanto dos empresários do comércio quanto de serviços são o cenário político/econômico e a pandemia (referidos na pergunta aberta) e demanda insuficiente. “Comparamos com o indicador de situação atual (ISA), e vemos ambos evoluírem no sentido contrário – com o desconforto alto e a confiança baixa”, diz. “Se pandemia não ficar para trás e demandar novas restrições, imaginamos uma piora até mais forte desse quadro, já que hoje temos um ambiente macroeconômico pior, com o cenário político e fiscal complicado”, completa. Tobler destaca que, enquanto o comportamento das expectativas do empresário do comércio demonstrou ser mais volátil deste a pandemia, reativo aos altos e baixos em um ambiente de incerteza econômica e pressão inflacionária, para o setor de serviços foram as flexibilizações que ditaram a melhora da confiança. “Uma volta atrás nas flexibilizações será um balde de água fria, pois as condições financeiras das famílias já não se mostram tão positivas para se explorar a demanda reprimida por serviços. Se houver cancelamento de eventos públicos e novas restrições, será preocupante para o setor”, conclui.  

Indicador de desconforto – serviços


Fonte: FGV IBRE.

 

Indicador de desconforto – comércio


Fonte: FGV IBRE.

 


As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva do autor, não refletindo necessariamente a opinião institucional da FGV.